Se a Rússia quisesse matar Navalni, teria acabado o serviço, diz Putin

IGOR GIELOW
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se os serviços secretos da Rússia quisessem envenenar o líder opositor Alexei Navalni, "provavelmente teriam acabado com ele". A cândida frase é do presidente russo, Vladimir Putin, ao responder uma questão sobre o tema na sua tradicional entrevista coletiva anual, desta vez feita de forma remota devido à pandemia da Covid-19. Navalni sofreu uma intoxicação em agosto, quando ajudava oposicionistas a se preparar para a eleição local em Tomsk, na Sibéria. O avião em que estava teve de fazer um pouso de emergência e, depois de discussões entre sua mulher e os médicos, ele foi transferido para Berlim. Na Alemanha, os médicos apontaram envenenamento por Novitchok, o agente neurotóxico cujo uso remonta aos espiões da União Soviética. O caso abalou as boas relações entre Putin e a chanceler Angela Merkel. Em 2018, o envenenamento de um ex-agente russo no Reino Unido trouxe o produto de volta ao noticiário -ele e a filha também atacada sobreviveram, mas os laços entre Londres e Moscou foram muito danificados. Na segunda-feira (14), a rede CNN exibiu reportagem afirmando que um time do FSB, a principal serviço secreto russo, era especializado no uso do Novitchok e seguia Navalni. Putin buscou desqualificar a notícia e associou Navalni, que está em recuperação, a serviços secretos americanos. "O quê? Nós não sabemos o que eles estão rastreando? Nossos serviços especiais sabem disso perfeitamente. Eles usam seus telefones onde acham desnecessário ocultar sua localização. E quando é assim, e é, significa que esse paciente na clínica em Berlim está tendo apoio dos serviços secretos americanos", disse Putin. "Se isso é correto, então é interessante, e é claro que [nossos] serviços especiais têm de ficar de olho nele. Mas isso não significa que ele precisa ser envenenado, quem precisa dele mesmo? Se eles quisessem fazer isso, provavelmente teriam acabado com ele", afirmou. A entrevista, na qual jornalistas e cidadãos selecionados pelo Kremlin em todo o país questionam o líder, foi a mais longa de seu reinado, com 4h54min. A primeira, em 2001, teve 1h35min e os recordes até aqui estavam em 2008 (4h40min) e 2012 (4h33min). O presidente mordeu e assoprou em relação aos Estados Unidos. Acusou diretamente Washington pela corrida armamentista na área nuclear, com o desenvolvimento liderado pelos russos de mísseis hipersônicos manobráveis, capazes de driblar defesas antiaéreas. Questionado se há uma corrida, disse: "Ela já começou. Isso é óbvio. Tudo começou depois de os EUA terem deixado o Tratado de Mísseis Antibalísticos", afirmou. Em 2002, no segundo ano de Putin como presidente, o governo George W. Bush deixou o tratado que limitava tais defesas, visando implantar sistemas na Europa sob a alegação de que era preciso defender o continente do Irã. Só que os russos apontam para o fato de que as baterias, próximas das fronteiras russas, têm capacidade dual: servem tanto para abater mísseis como para lançar outros, a curtíssima distância de alvos prioritários para Putin. Com isso, foi desenvolvida uma nova geração de mísseis capazes de entregar suas cargas nucleares, as "armas invencíveis" reveladas por Putin em 2018. Os americanos, por sua vez, deixaram no governo de Donald Trump dois importantes acordos de limitação de armas atômicas e verificação mútua. O tratado reminiscente, o Novo Start, expira no dia 5 de fevereiro, duas semanas depois da posse de Joe Biden na Casa Branca. Putin então renovou a oferta e afirmou que gostaria de ver uma extensão do acordo, algo que Trump trabalhou para não ocorrer, apesar de dizer o contrário. O presidente russo também colocou em palavras claras sua desconfiança do Ocidente, base da assertividade geopolítica que marca seus governos desde 2000. "Comparado a vocês [respondia a um ocidental], nós somos fofinhos. Nós ouvimos vocês dizerem que a Otan (aliança militar ocidental) não iria se expandir a leste. Mas vocês o fizeram. A Otan está se aproximando de nossas fronteiras. Nós não devemos responder?", disse. De fato, Putin assumiu como premiê em 1999 meses depois das primeiras três adesões de países do antigo bloco soviético, descontando a unificação da Alemanha Oriental com a Ocidental, que já era da Otan. Em 2004, o russo viu nada menos que sete ex-comunistas entrarem na aliança, inclusive os Estados Bálticos que eram parte da União Soviética. A reação é conhecida: a guerra na Geórgia (2008) e a anexação da Crimeia (2014) foram basicamente avisos ao Ocidente para não se aproximar mais. A tensão permanece. Em relação à Ucrânia, onde a excisão da Crimeia foi seguida de uma guerra civil de rebeldes pró-Kremlin que segue congelada, Putin usou palavras duras. Disse que a solução do caso está nas mãos da elite ucraniana e que o presidente Volodimir Zelenski "não consegui fazer muito" desde negociações de paz iniciadas em Paris há um ano. "Falta coragem política. Autoridades em Kiev dizem publicamente que não vão seguir o acordo de Minsk [que tenta solucionar a guerra]. A Rússia planeja aumentar seu apoio no Donbass [o leste ucraniano]". Putin discorreu também sobre a epidemia de novo coronavírus, que está numa forte segunda onda na Rússia, defendendo a vacinação em massa com o imunizante Sputnik V. Com 68 anos, disse que espera a inoculação para pessoas com mais 60 anos ser autorizada: "Farei isso assim que possível". Falou também sobre a crise econômica e afirmou que não decidiu se irá concorrer novamente à Presidência em 2024, o que será possível após ele ter mudado a Constituição russa no começo do ano. Putin é presidente desde 2000. Foi premiê em 1999 e de 2008 a 2012, mandando efetivamente no país. As novas regras podem deixá-lo no Kremlin até 2036.