Se repetirmos a fórmula da 1ª onda rosa, fracasso será estrondoso, diz Petro

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Prestes a completar cinco meses como presidente da Colômbia, o primeiro líder de esquerda do país tem muitas expectativas em relação ao início da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil. "Temos de nos transformar num farol para o progressismo mundial. Todos estão nos olhando", diz Gustavo Petro.

Ele alerta, porém, que é preciso construir uma agenda nova ante o risco de "fracasso estrondoso" se a fórmula da chamada primeira "onda rosa" for repetida —em referência à geração de líderes de esquerda que governou na América Latina no final dos anos 1990 e no início dos 2000 e à tática de investir na "alta do preço de matérias-primas, entre as quais as fósseis, e basear nisso a redistribuição de riqueza".

"O sucesso do Sudeste Asiático tem a ver com industrializar, agregar valor e investir em conhecimento. Nada disso foi feito aqui [América Latina], nem pela esquerda nem pela direita."

A agenda de discussão com o petista inclui a Amazônia, posições comuns da região em relação à crise climática e o convite para que o Brasil participe, como observador e garantidor, de um plano para que a Colômbia atinja a paz com grupos armados. Em Brasília para a posse de Lula, realizada no domingo (1º), Petro fez perguntas sobre a Amazônia, demonstrou interesse no processo político brasileiro e se lembrou de acompanhar a trajetória do presidente brasileiro desde a fundação do Partido dos Trabalhadores.

PERGUNTA - O cessar-fogo com cinco organizações armadas [Segunda Marquetalia, Estado-Maior Central, Clã do Golfo, Autodefesas de Serra Nevada e ELN, que mais tarde negou ter feito parte do pacto], por seis meses, é um grande avanço para a política de "paz total" pretendida por seu governo. Qual é o plano de trabalho para esse período?

GUSTAVO PETRO - O cessar-fogo bilateral é uma atitude audaz e muito difícil de manter e vigiar, porque basta um ato de sabotagem isolado e tudo cai por terra. Mas estamos criando mesas de diálogo para começar a trabalhar. Já convidei, como países garantidores desse processo, Chile, Noruega, México e Cuba e vamos convidar o Brasil. A participação do Brasil será essencial, há coisas que devemos aprender juntos sobre como lidar com esses grupos.

P. - Em seu encontro recente com o líder da Venezuela, Nicolás Maduro, o senhor disse: "Espero que o Brasil de fato queira formular políticas para a Amazônia". E, em mais de uma vez, mencionou que "o Brasil precisa entrar" nessa estratégia. O sr. teme que as propostas brasileiras não sejam tão ousadas para deter o desmatamento?

GP - O que ocorre é que o Brasil é determinante para que a Amazônia se salve ou não. Por mais esforço que façamos, se o Brasil não avançar, nenhum de nós se salva. Aqui [no Brasil] está a maior parte da floresta e aqui está mais desmatado. Podemos e devemos avançar juntos contra as máfias transnacionais que atuam lá, mas o Brasil é vital. Perdemos tempo nos últimos anos ao não ouvir do Brasil propostas nas últimas COPs, houve um isolamento do país nesse sentido —o que foi um retrocesso.

P. - O que pensa quando ouve falar de uma nova onda de progressismo latino-americano?

GP - Da parte da Colômbia, vemos o potencial de que a região seja uma referência do progressismo no mundo. Talvez os movimentos latino-americanos recém-eleitos não tenham se dado conta, mas o mundo hoje nos olha. Temos responsabilidade. Antes éramos nós que olhávamos a Europa ou mesmo a China. Hoje olham para [o presidente do Chile, Gabriel] Boric, para mim, para Lula, para [o líder do México] Andrés Manuel López Obrador. Se fracassarmos, fracassa o progressismo mundial. É por isso que me parece necessário construir um discurso que seja nosso para o século 21 e para a humanidade.

P. - E quando esse progressismo é comparado com a chamada "onda rosa" dos anos 1990/2000?

GP - Esse primeiro progressismo cometeu erros. Lula, [o ex-presidente da Venezuela, Hugo] Chávez, [o ex-líder da Bolívia] Evo [Morales], [o ex-presidente do Equador Rafael] Correa e [o ex-presidente da Argentina Néstor] Kirchner não tinham clareza em relação à mudança climática. O foco era fazer crescer o preço das matérias-primas, entre as quais as fósseis, e basear nisso a redistribuição de riqueza.

Funcionou em partes, mas não tinha como ser duradouro. Porque no fundo o chamado "socialismo do século 21" tinha muitos componentes do socialismo do século 20: o estatismo, a vigilância e a influência de Cuba têm responsabilidade nisso. O sucesso do Sudeste Asiático tem a ver com industrializar, agregar valor e investir em conhecimento. Nada disso foi feito aqui, nem pela esquerda nem pela direita.

P. - É um alerta para o atual progressismo?

GP - Sim, estamos falando de um segundo progressismo, inclusive com atores repetidos do primeiro. Se repetirmos a fórmula do primeiro, o fracasso será estrondoso. É preciso construir uma agenda nova, com a Amazônia como foco central, com reformas agrárias baseadas em conhecimento e na descarbonização. Aí teremos um discurso progressista que pode ser universal, que pode ser a saída da América Latina de seu atraso e que nos transforme em farol mundial do progressismo.

P. - O sr. fala em farol mundial do progressismo, mas as forças da direita também estão fortes na América Latina, o bolsonarismo é uma delas. Como vê esse cenário?

GP - Como uma ameaça terrível. As extremas direitas são construídas a partir do medo. Na época do nazismo, era o medo da Revolução Russa. Os de agora são três: o medo da mulher, em sociedades patriarcais milenares, como estamos vendo no caso do Irã e, em diferentes medidas, em outras sociedades. O da imigração, que gera xenofobia. E o terceiro é a crise climática, à qual a extrema direita responde com negacionismo, mas que no fundo vê como uma alteração de seu modo de viver, de suas comodidades. Esses três medos alimentam a extrema direita.

A imigração tende a crescer e a se tornar um problema terrível, não só porque é movida por guerras ou situações econômicas, mas também pela mudança climática. Neste sentido, a América Latina precisa ter políticas comuns. No [Estreito de] Darién [perigosa rota de imigração para os EUA], há populações de vários países da região, mas também asiáticos. Há desaparecidos, condições terríveis, e os EUA não têm como lidar com isso sem uma posição latino-americana comum.

P. - Há cada vez mais temas transnacionais na região, como o narcotráfico. Por isso deveríamos nos esforçar para fortalecer a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O tema da Venezuela passa por aí. Como estabelecer um diálogo com um país que está fora dela e cujas sanções não permitem nada mais que o isolamento?

GP - A crise do Peru também poderia ter atuação desse organismo. Há muitos exemplos de como atuou no passado. Eu mesmo não perdi meus direitos políticos devido à atuação do órgão [Petro foi afastado pela Justiça por uma suposta irregularidade na coleta de lixo de Bogotá, cidade da qual foi prefeito, mas retornou ao cargo]. Na Argentina, durante a ditadura, suas denúncias foram essenciais.

O narcotráfico é um sistema cada vez mais internacional, e políticas isoladas de nada servem. Estamos diante de uma situação mil vezes pior que a da época de Pablo Escobar, em que perseguíamos as cabeças do tráfico e achávamos que estava resolvido —e nunca esteve. Não é por esse lado, não é pela repressão. É preciso descriminalizar o pequeno produtor, substituir cultivos e tratar essas redes de modo internacional. A política de repressão e de guerra às drogas já não funciona.

RAIO-X | GUSTAVO PETRO, 62

Primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia, foi senador e prefeito de Bogotá. Nascido em Ciénaga de Oro, está na política desde que estudava economia em Zipaquirá. Aos 17, ingressou na guerrilha M-19. Devido à atuação no grupo, foi preso por conspiração e porte ilegal de armas em 1985. Depois, rejeitou a luta armada e se elegeu para o Congresso.