'Se saio daqui, para onde vou? Já viu preço dos planos?', diz cliente da Prevent Senior

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Foto: Zanone Fraissat/Folhapress
Foto: Zanone Fraissat/Folhapress
  • Denúncias contra operadora de saúde não convenceram todos clientes da Prevent Senior

  • Operadora é acusada, entre outras ilegalidades, de adulterar atestados de óbitos

  • Empresa, que oferece serviço mais barato do que concorrentes, teria 'pacto' com governo Bolsonaro\

As denúncias feitas contra a Prevent Senior na CPI da Covid-19 não arrefeceram as convicções da publicitária Luana Blane, 43, cliente há dois anos da operadora. 

Entre outras infrações, a empresa é acusada de prescrever medicamentos ineficazes contra Covid-19, ministrá-los sem o consentimento dos familiares dos pacientes e adulterar atestados de óbito. Luana diz que não dá importância ao que sai na mídia. 

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"Minha tia era obesa e diabética, teve Covid e foi salva graças ao kit que eles passaram para ela", afirma a publicitária, referindo-se a um conjunto de medicamentos composto por ivermectina, cloroquina, zinco e vitaminas —todos descartados pela comunidade científica como opção no tratamento da doença. 

A própria Luana acredita que não contraiu o novo coronavírus porque toma regularmente ivermectina —indicada no combate a parasitas. "Foi o que me segurou", afirma. 

Ela mantém sua defesa ao plano e ao governo (ela diz que votou em Jair Bolsonaro e pretende repetir o voto em 2022). Em relação ao "kit Covid", cita os medicamentos como mera opção. "Quando você está com dor de cabeça, um médico receita Neosaldina, outro Advil. Questão de preferência, né?" 

Ela foi uma das quatro pessoas que entraram nos pontos de vendas da Prevent Senior na sexta-feira (1º), durante as mais de três horas em que o jornal Folha de S.Paulo observou o movimento nos núcleos da operadora no shopping Ibirapuera e Pátio Paulista, em São Paulo. 

Clientes do plano, nenhuma das quatro pretendia cancelar a matrícula. Luana conta que levaram sua carteirinha num assalto e estava ali para solicitar uma segunda via.  

Um casal de 84 e 70 anos, que não quis se identificar, disse que não recebeu o boleto de pagamento e queria saber o que aconteceu. Os dois acreditam que existe muita politicagem em todas essas acusações contra a operadora e afirma que outros grandes hospitais também têm médicos que receitam cloroquina para os pacientes. 

No Pátio Paulista, a secretária Sandra Tonello, 67, diz que foi ao posto de vendas para se informar a respeito da eventual internação da irmã, que está com Covid-19. Diz que os médicos não prescreveram o kit de medicamentos ineficazes, mas reconhece que dificilmente o fariam, depois das denúncias realizadas na CPI. 

Sandra afirma que deixou o antigo plano há cerca de cinco meses, porque "aumentaram demasiadamente o valor, em muito pouco tempo". Ela e duas das quatro irmãs passaram para a Prevent Senior. "Se eu saio daqui, para onde vou? Você já viu o preço dos planos para pessoas da minha idade?" 

A quem se mostra receoso em relação ao impacto das denúncias na saúde financeira da empresa, um dos corretores que conversaram com a reportagem afirmou que as investigações não levariam a nenhum lugar. De acordo com ele, a empresa tem provas de que nada foi ilegal. 

Esse corretor ainda afirmou que o atendimento deve até melhorar após essa crise que existe a pretensão de inaugurar mais três hospitais em São Paulo. 

Em contrapartida, quatro corretores entrevistados pelo telefone afirmaram, sob condição de anonimato, que a queda na taxa de adesão ao plano deve ser grande. Pelo que dizem, ainda é cedo para dimensionar o estrago. Eles acreditam que a crise deve se agravar nos próximos meses. 

Questionada sobre as taxas de adesões e cancelamentos realizados na última semana, a assessoria da Prevent Senior não respondeu à reportagem. 

Como se deu a trajetória da operadora de saúde?

Usando o marketing do "foco em idosos por um valor bem abaixo da média", os irmãos Fernando e Eduardo Parrillo abriram o primeiro hospital da Prevent Senior em 1990. Hoje a empresa atua em 16 cidades, tem mais de 550 mil clientes e está entre as dez maiores operadoras do país, segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). 

De acordo com a tabela de preços fornecida nos postos de venda, a operadora ampliou o atendimento a todas as faixas etárias. Os valores vão de R$ 251,77 (0 a 18 anos) até R$ 1.305,76 (a partir de 59 anos). 

A reputação da empresa foi especialmente abalada há cinco dias, quando a advogada Bruna Morato apresentou na CPI da Covid um dossiê elaborado por médicos que trabalhavam em seus hospitais. 

Representante do grupo, Morato acusou a Prevent Senior de ameaçar médicos que não seguissem o protocolo determinado pela direção (e se recusassem a prescrever medicamentos ineficazes contra a doença); coagir profissionais de saúde a trabalhar, mesmo depois de diagnóstico positivo para o novo coronavírus; e até de "adaptar" o CID (Código Internacional de Doenças) a fim de adulterar o diagnóstico dos doentes depois de um certo tempo de internação. 

A denúncia mais comprometedora foi a de que haveria um "pacto" entre a operadora e o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) para legitimar o tratamento da doença com o "kit Covid". De acordo com a advogada, a intenção era usar um suposto estudo realizado na rede de hospitais do plano para confirmar o discurso negacionista do governo. 

Morato acrescentou que haveria ainda uma ligação da Prevent Senior com o chamado gabinete paralelo, formado por governistas empenhados em fomentar o discurso negacionista do presidente, e os conselhos federal e regional de medicina, ambos de orientação bolsonarista. 

Na sexta-feira (1º), a ANS anunciou em um comunicado que está apurando os indícios de irregularidades relativas à legislação da saúde suplementar: "As análises das informações estão em curso e são necessárias para subsidiar as decisões sobre medidas que venham a ser tomadas pela ANS", diz o comunicado.

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