Sebastião Salgado alerta para 'genocídio' de povos amazônicos na pandemia

Por Anna PELEGRI
Imagem de 6 de fevereiro de 2020 do fotógrafo Sebastião Salgado em Colônia, Alemanha

Preocupado com o destino dos indígenas na Amazônia durante a pandemia, o consagrado fotógrafo Sebastião Salgado promove uma campanha internacional para reivindicar sua proteção, ao mesmo tempo em que critica o presidente Jair Bolsonaro por se opor à quarentena para conter o avanço da COVID-19 no Brasil.

A iniciativa lançada pelo fotógrafo brasileiro de 76 anos foi seguida por celebridades como Brad Pitt, Paul McCartney e Madonna, e até o momento reuniu mais de 261.000 assinaturas.

Salgado leva mais de quatro décadas retratando os povos mais humildes e as paisagens onde vivem. Agora, durante o confinamento, em Paris, explicou à AFP ter feito uma viagem ao "interior de si mesmo" e ter descoberto que pode viver sem sua paixão, o futebol.

Pergunta: Por que decidiu lançar uma campanha em defesa dos indígenas em plena epidemia?

Resposta: Com a invasão agora dos territórios indígenas por garimpeiros, madeireiros, de seitas e fazendeiros que roubam terras, há uma entrada maciça. Se não tirarmos essa gente, corre-se o risco de transmitir o coronavírus aos indígenas e viver uma catástrofe.

Eu chamo isto de um genocídio, que é a eliminação de uma etnia. Acho que o governo Bolsonaro se dirige a isto porque sua posição desde que chegou ao poder é 100% contrária aos indígenas.

P: Como vê a situação no Brasil, um dos países mais afetados pela pandemia?

R: Muito mal. Aqui os franceses se queixam do governo, nas neste país há uma só voz, todo mundo participa da mesma maneira. No Brasil, há uma divisão de posições. A maioria dos governadores e prefeitos das grandes cidades pedem uma quarentena. Mas Bolsonaro é contrário ao confinamento. Não sabemos o que vai acontecer, não somos um país rico, não temos a estrutura médica da França, é a morte anunciada de boa parte da população brasileira.

Se a doença entrar na Amazônia, não teremos forma de assistir as populações. As distâncias são enormes e os recursos, muito pequenos.

P: Qual tem sido sua atividade preferida durante esta crise?

R: Tem sido um momento difícil, não sabemos como será o futuro. Mas foi fantástico na nossa vida pessoal. Temos um filho com trissomia e estabelecemos uma relação muito estreita com ele. Podíamos ir ao bosque de Vincennes (no leste de Paris), que agora conhecemos como a palma da mão.

Também aproveitei para editar minhas fotografias. Estou preparando um grande trabalho para o ano que vem sobre a Amazônia, depois de ter passado sete anos ali fotografando.

P: O que esta pandemia nos ensina?

R: É um prazer enorme retornar à nossa intimidade, com estes momentos de quase silêncio. Eu, que sou um grande viajante, desta vez fiz uma viagem para o interior de mim mesmo.

Também permite fazer uma pausa na nossa vida. Sou um apaixonado pelo futebol. Era uma variável importante. Neste momento, não há. E começo a me dar conta de que estas equipes e jogadores que eram tão importantes para mim, não o são em absoluto.

Também descobrimos que não precisamos de muitas coisas. Que grande parte do PIB está constituído de coisas das quais podemos prescindir perfeitamente. Temos vivido este período com o essencial: informação, alimentação, leitura...

P: Que soluções preconiza para o dia seguinte?

R: Este vírus também é um produto da destruição do meio ambiente. Viver em Paris não é viver na França, viver no Rio não é viver no Brasil. Destruímos tudo para nos manter na cidade.

Hoje, temos que proteger nossa biodiversidade. Há tantas coisas para fazer que podemos criar uma grande força de trabalho e garantir que parte do PIB mundial se destine a reconstruir o planeta.

Também temos um grande exemplo na França, que tem uma das melhores infraestruturas médicas do mundo, mas quando a necessitamos, esteve a ponto de falhar porque não tínhamos respiradores suficientes, porque não os produzimos aqui, como as máscaras. Temos que repensar nossos sistemas de saúde. O que é qualidade de vida? Não é a da produtividade, nem a da economia, mas a da população.