Sebo Belle Époque, no Méier, volta à ativa após incêndio

No último 21 de julho, um incêndio destruiu em alguns minutos o sonho que o livreiro Ivan Costa levou anos para construir. Fundado por ele em 2016, no Méier, o sebo Belle Époque teve seu estoque de 10 mil livros e 1200 vinis consumidos pela fogo. O prédio que abrigava a loja também foi parcialmente danificado. Neste sábado, 21, ao meio-dia, exatamente seis meses após a tragédia, o local reabre em festa, com um novo acervo e um bate-papo entre os escritores Ruy Castro, Luiz Antonio Simas e Marcelo Dunlop.

O endereço continua o mesmo: Rua Soares, 50. Costa podia ter migrado para as vendas virtuais, ou até mesmo reconstruído sua loja em um outro ponto. Mas sempre acreditou que essa área do Méier, em que nasceu e se criou, precisava de uma livraria física — até hoje, a Belle Époque é a única do bairro. A onda de solidariedade que permitiu a reconstrução do seu comércio mostra que muitos concordam com ele. Colegas livreiros do Rio doaram livros para começar um novo acervo. Amigos e frequentadores assíduos também se mobilizaram para ajudar (uma vaquinha online arrecadou R$ 40 mil, fora transferências diretas via pix).

— Eu bato muito nessa tecla, de que tem que ter livraria de rua, chego até a ser chato — diz Costa, que antes de abrir a Belle Époque passou alguns anos vendendo livros em uma bicicleta pelas ruas da cidade. — Nesse período em que vendia livro na bicicleta, encontrava muita gente na calçada que nunca tinha lido ou que não lia há muito tempo, e que ganhou o hábito da leitura pegando livro comigo.

A Belle Époque cumpria também um papel de agitação cultural na região. É uma característica das livrarias físicas que dificilmente pode ser reproduzida no e-commerce. Como já aconteceu no início do século XX com a Garnier, onde a intelectualidade carioca se reunia na rua do Ouvidor, e com a Livraria São José, frequentada por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira na rua homônima, o sebo virou um ponto de encontro para artistas. Promovia palestras, cursos, festas e outros eventos culturais. A livraria fica de frente para uma escola pública e ajuda na promoção da leitura aos mais jovens.

Costa planeja uma nova Belle Époque ainda mais atuante neste sentido. Ele anexou o imóvel vizinho, onde antes funcionava um boteco. Ali, sua mãe comandará um café dentro da livraria. No andar de cima, que estava abandonado antes do incêndio, funcionará um espaço para eventos (apresentações musicais, exposições, lançamentos, etc).

— Estamos em uma área do bairro um tanto abandonada do ponto de vista cultural — diz Costa. — Costumo dizer que aqui não é o coração do Méier, mas o fígado. A livraria acaba sendo um espaço plural, pra incentivar a produção cultural local. Abriga suburbanos que precisam de um lugar para lançar livro, músicos suburbanos que não têm espaço para tocar em outro lugar.

O Méier da Belle Époque está longe de ser o único bairro carente de livrarias. Em 2022, um mapeamento da Associação Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro mostrou que o Rio havia perdido 84 livrarias em cinco anos (as 210 de 2017 foram reduzidas para 146). A área mais afetada foi o Centro, tradicional endereço de sebos. A venda online salvou o mercado editorial durante a quarentena, mas acabou criando um hábito que afastou o consumidor das lojas físicas.

— O comércio do Centro foi muito prejudicado pela pandemia e, agora, pelo home office — diz Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros. — Mas, de modo geral, é um fenômeno que atinge todo o Brasil e é muito parecido com o que aconteceu nos EUA. As lojas online baixaram os preços e provocaram o fechamento de grandes redes. O lado bom é que isso gera uma oportunidade para as pequenas livrarias locais, que dão vida para a cidade.

Uma dessas livrarias abertas recentemente após a quebra das grandes redes é a Jacaré, em Laranjeiras. O livreiro Giuseppe Zani havia havia começado o negócio com um sebo virtual, em 2021. Mas, poucos meses depois, teve o mesmo impulso de Ivan Costa: encontrar um espaço físico. Mesmo em um pequeno espaço em Laranjeiras, a loja promove eventos como cursos de restauração de livros.

— Para mim, desde o início, a relação com o público foi de vizinhança, de criar comunidade, de gente de todos os lugares fazendo uma peregrinação para dar uma força à nova livraria que estava chegando — conta Zani, que ajudou a Belle Époque com doações na época do incêndio. — O pessoal torce para o lugar existir, para dar certo. As pessoas sabem da dificuldade que é abrir uma livraria e sempre me perguntam: tá tudo bem, precisa de alguma coisa?

Como não podia deixar de ser, os participantes do bate-papo de hoje na Belle Époque também são apaixonados por livrarias.

— A pequena livraria de rua cria uma relação muito mais pessoal com o leitor — diz o historiador e escritor Luiz Antonio Simas, um defensor dos comércios de rua. — E a Belle Époque é um caso ainda mais significativo porque está no subúrbio. Ali você tem, por exemplo, uma turma de frequentadores que não trabalha no centro e só tem aquele espaço para ter contato com livros. Ela promove um espaço de construção de sociabilidade.

Ruy Castro costuma dizer que, quando morrer, não quer ir ao céu, mas para um sebo. Seria, acredita, uma maneira de prolongar a vida, já que passou grande parte da sua neles.

— Um sebo não é um lugar onde se despejam livros velhos — diz o escritor. — É o lugar onde esses livros, que um dia foram úteis a alguém e talvez até amados e que só estão ali pela morte de seus proprietários, têm uma nova chance de serem úteis e amados. Além disso, é um dos poucos lugares onde você pode ter certeza de que nada ruim te acontecerá. Aos sebos só vão pessoas bacanas.