Seca e calor prolongados abalam uma das paisagens mais belas da França

© Joseph Plotz/ Creative Commons/ Wikipedia

Neste momento em que uma onda de calor sufocante coloca a Europa cara a cara com as mudanças climáticas, uma das paisagens mais impressionantes da França pede socorro contra as altas temperaturas. As Gorges du Verdon, lagos no sul da Provence que atraem milhares de turistas a cada verão, sofrem os efeitos da seca prolongada, mas também da neve mais escassa nos Alpes durante o inverno – num exemplo emblemático do efeito dominó da crise no clima.

Lúcia Müzell, da RFI

As águas turquesas aos pés dos cânions no Verdon, em meio a uma vegetação exuberante, são um spot privilegiado para a prática de esportes aquáticos, como rafting e caiaque. Mas, em 2022, os frequentadores terão de se contentar com apenas mergulhar no local. O nível da água está baixo demais e inviabiliza, pela primeira vez, a circulação das embarcações.

Em alguns trechos, como no lago de Castillon, nem mesmo nadar será possível neste verão. O cenário paradisíaco deu lugar a vários metros de terra seca, que culminam em um lago raso, com menos de 40 centímetros de profundidade – cinco metros a menos do que o normal. Para completar, uma lama atípica que se formou no solo termina de desestimular os visitantes a se banhar, num quadro que entristece os franceses e preocupa os operadores de turismo da região.

“Sempre tivemos períodos de seca e calor, mas o ritmo dos impactos acontece cada vez mais rapidamente. A cada ano, duram mais tempo, são mais intensos e mais repetidos”, lamenta o vice-presidente do Parque Natural Regional do Verdon, Jacques Espitalier, que vive na região há mais de 40 anos.

“Percebemos que as dificuldades estão aumentando, essencialmente porque a camada de neve está diminuindo nos Alpes. Ela era densa e no momento em que ela derretia, entre maio e fim de junho, a água escorria e preenchia o Verdon pelo menos por todo o mês de julho. Neste ano, não somente tivemos pouca neve no inverno, como choveu pouco na primavera, o calor chegou mais cedo e fez a neve evaporar, em vez de virar água”, explica.

Fenômenos combinados, efeitos desastrosos

O climatologista Christophe Chaix, da Agência Alpina dos Territórios, lembra que as temperaturas começaram a aumentar no fim dos anos 1980, no sul da França, e desde então não baixaram mais. Por volta de 2014, os termômetros se estabeleceram em novos padrões e os anos mais amenos ficaram definitivamente no passado.

“Aqui, o sintoma de um clima doente são os fortes calores combinados com a falta prolongada de chuvas, algo que sempre tivemos. Mas a seca associada com temperaturas extremas provoca efeitos que não conhecíamos antes”, ressalta o geógrafo. “Estamos tendo já nos meses de março e abril temperaturas bem acima do normal histórico. Já na primavera, as correntes de água estão fracas e isso é totalmente novo.”

Nas Gorges du Verdon, hotéis, pousadas e operadores de turismo constatam que aquilo que até pouco tempo eram eventos excepcionais agora se transformou no novo padrão de clima na região. “Nós teremos que mudar os nossos parâmetros, o nosso modelo. Nós já sabemos que a camada de neve não voltará a ser a mesma de 50 anos atrás. Precisamos gerenciar a quantidade de água que a natureza nos fornece de outra maneira”, observa Espitalier. “Já faz mais de 10 anos que advertimos aos profissionais de turismo que eles vão precisar se adaptar a essa situação. Nós poderemos cada vez menos gastar a água com isso e eles precisarão encontrar outras atividades.”

Pressão nas montanhas

Outro efeito é que as montanhas da região, que costumavam receber a maioria dos turistas no inverno, agora atraem também milhares de visitantes em busca de ar fresco no verão – o que provoca novos riscos de desequilíbrios ambientais.

“Estamos vendo uma frequentação excessiva das zonas em altitude. Assim que começam as ondas de calor na planície, as pessoas começam a subir”, nota o climatologista Christophe Chaix. “O problema é que a montanha é frágil e as atividades nela dependem dos recursos naturais”, sublinha.

O derretimento das geleiras e do permafrost, a camada que deveria estar permanentemente congelada nos Alpes, tem tornado a prática de atividades na neve mais arriscada no inverno – os desmoronamento e avalanches estão mais frequentes. A ironia é que essa situação levou muitos guias turísticos a decidirem descer das montanhas e ir trabalhar justamente nas Gorges du Verdon, como guias de rafting.

“Vemos que tudo isso cria um desequilíbrio econômico. Estamos percebendo que a adaptação é complicada porque mesmo quando tentamos nos diversificar, trocando inclusive de estação do ano, não estamos mais ao abrigo de um outro efeito do aquecimento do clima, 5 ou 10 anos depois”, salienta o geógrafo.

Pontos turísticos ameaçados pelo mundo

A situação na França está longe de ser única no mundo. Famosos pontos turísticos espalhados pelo planeta também estão sendo abalados. As sequoias gigantes de 2 mil anos do parque americano Yosemite estão novamente ameaçadas pelos incêndios florestais na Califórnia. A excepcional Veneza sofre com inundações constantes devido à subida do nível do mar. No Brasil, em 2021, as imagens das Cataratas do Iguaçu secas impressionaram o mundo.

“Não são só as Cataratas, mas também todos os destinos de praia no Brasil hoje estão ameaçados pela escassez hídrica e pela elevação do nível do mar. Rio de Janeiro, Florianópolis, Recife, Fortaleza já estão sendo afetadas pela falta de água e o avanço do nível do mar, o que reflete no turismo, e estão sendo obrigadas a buscar respostas, com ações de adaptação”, afirma a professora Isabel Jurema Grimm, do mestrado em Governança e Sustentabilidade do Instituto Superior de Administração e Economia (Isae).

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