Seca no centro-oeste: o retrato da pior estiagem em 91 anos

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  • A seca da região centro-sul é a pior dos últimos 91 anos.

  • Em mais de 2.700 km, entre Goiás e São Paulo, é possível identificar problemas relacionados à falta de chuva.

  • Além do fenômeno La Niña, especialistas alertam para o impacto humano no clima.

A região centro-sul do país enfrenta a pior seca em 91 anos de registros históricos. Reservatórios de hidrelétricas ao longo dos rios Paranaíba, Grande e Paraná, espécie de caixa d’água energética nacional, estão nos níveis mais baixos, ameaçando o colapso do Sistema Interligado Nacional (SIN), segundo relatório da ANA (Agência Nacional de Águas) até novembro.

Este risco futuro não contempla, no entanto, milhões de brasileiros que vivem no núcleo das secas deste ano. Uma área que vai do sul de Goiás à região central de São Paulo, passando sobretudo pelo Triângulo Mineiro. Milhões de pessoas que já vem sentindo diretamente desde abril os impactos desta estiagem, e que o Yahoo! Notícias quis conhecer.

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Durante duas semanas rodamos mais de 2.700 km, passando por nove cidades em três Estados para conhecer e trazer um panorama mais completo da região mais afetada pela seca em 2021. Foram dezenas de conversas com fazendeiros, pequenos produtores, assentados, professores especialistas, militantes, técnicos em energia elétrica e meteorologistas para entender a gravidade do fenômeno.

O cerrado é o bioma brasileiro com maior degradação: Quase metade de sua cobertura original que se extende por 10 Estados e DF foi convertida em pastos ou plantações. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
O cerrado é o bioma brasileiro com maior degradação: Quase metade de sua cobertura original que se extende por 10 Estados e DF foi convertida em pastos ou plantações. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

“Já são três meses sem chuva, e esperamos cada vez mais. De agosto em diante, começa a esquentar, é quente e seco, tipo um secador de cabelo”, comenta o criador de gado Joaquim Lopes, de Prata/MG. Principal atividade e que emprega mais gente no meio rural, a criação de gado para leite e venda sustenta grande parte do Triângulo Mineiro. Os trabalhadores estão assustados com a situação e preocupados com os próximos meses.

“Todos os meses de seca a gente acaba pagando para trabalhar, algo que recebemos mais na frente; acontece que eram três meses, e pelo andar das coisas, este ano serão sete meses… desde maio não vemos pasto verde, então o prejuízo será muito grande”, reclama Ivo Zanatta, um dos pioneiros na migração para a região. 

Magras, as vacas de Francisco Dantas deixaram de produzir leite suficiente para a queijaria. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Magras, as vacas deixaram de produzir leite suficiente para uma queijaria em Minas Gerais. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

“Um córrego já secou, a bica d’água que abastecia a casa agora vai toda para os animais, no verão choveu muito menos que o normal.. dá muito medo; mesmo quando chove é rápido, a água não infiltra e vai logo embora”, conclui.

Causas e consequências

Enquanto o tradicional gado vem sendo substituído por lavouras como soja, sorgo, milho, cana-de-açúcar e eucalipto — com constante uso de irrigação, pressionando a já pouca água disponível depois de mais de três meses sem chuva.

A agricultura extensiva é ao mesmo tempo afetada pela seca e causadora dela. “Com menos chuvas, temos menor recarga dos aquíferos, justamente a época que a agricultura depende mais da irrigação, já que o normal é ficar três a quatro meses sem chuva; o resultado é um desequilíbrio dessa reserva do país que acaba muitas vezes indo para o exterior”, comenta o doutor em recursos hídricos e agrometeorologia e professora da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) Ricardo Atarassi.

Exploração de rios voadores e subterrâneos agravam crise anunciada - Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias
Exploração de rios voadores e subterrâneos agravam crise anunciada - Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias

Tal qual um acidente aéreo nunca é fruto de apenas um fator, este ano o fenômeno resulta de uma série de problemas. Segundo especialistas consultados, o aquecimento do Atlântico Norte leva menos chuvas à floresta Amazônica, que funciona como um reservatório do centro do país. Sem ela, esta região do Brasil seria quase desértica, semelhante à Caatinga.

O desmatamento e queimada da floresta, sobretudo os níveis recordes dos últimos três anos, atrapalham a formação dos chamados rios aéreos, por meio dos quais a água da Amazônia chega ao centro-sul. Enquanto o La Niña, esfriamento atípico do oceano Pacífico e em curso, também traz menos chuvas à América do Sul.

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