Seco e sem floresta: 2021 expôs extremos climáticos e colapso pelo desmatamento

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Illegal deforestation on farm.
Illegal deforestation on farm.

Em menos de uma semana de junho, o Brasil tomou conhecimento que passava, ao mesmo tempo, pelas maiores enchentes e pela pior seca da história, ambos em praticamente um século de registros. 

No Amazonas, mais de 400 mil pessoas eram afetadas pela maior alta do rio Negro em 119 anos, deixando 48 das 62 cidades do Estado em situação de emergência. 

Ao mesmo tempo, a região centro-sul já encarava a pior estiagem em 91 anos, gerando fenômenos desérticos inéditos no país até então, como as tempestades de areia ocorridas no interior de SP e que causaram a morte de ao menos quatro pessoas em outubro.

“Estes dois fenômenos estão absolutamente relacionados”, alerta Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). 

As florestas brasileiras são grandes fábricas de chuva; a Amazônia sozinha lança na atmosfera mais água que o rio Amazonas no oceano Atlântico por segundo, gerando os chamados “rios voadores” que hidratam o centro-sul do país. No entanto essa realidade vem sendo alterada drasticamente.

“Nos últimos três anos, nós desmatamos em média 1,5% da Amazônia brasileira por ano. São mais de 10, 11 mil km2 de árvores derrubadas… no ano passado, no Brasil, cortou-se 24 árvores por segundo, causando o atraso no início da estação chuvosa”, afirma, e completa: “Fica aquela estação super quente e super seco de julho a novembro, empurrando a estação das chuvas para frente – aí quando ela finalmente começa, vem esse volume gigante de água; é catástrofe na estação seca, é catástrofe na estação chuvosa”.

Para ela, o país está plantando rapidamente um colapso climático no país que vai afetar a todo mundo, nas cidades e no campo, até mesmo o agronegócio do centro-sul, em contrapartida do avanço na região norte.

Especialista em química atmosférica e ambiental, Luciana é coordenadora de um dos mais extensos estudos de campo analisando o impacto do desmatamento na Amazônia Legal. 

Desde 2010 ela e sua equipe mede a emissão de gases do efeito estufa, nível de chuvas e temperatura média em diferentes pontos da maior floresta equatorial do planeta. Em julho deste ano, o primeiro resultado deixou claro o tamanho do estrago: o pulmão do mundo está doente.

Ex-sumidouro de CO2

O estudo, que utiliza aviões sobrevoando a floresta em diferentes altitudes, revelou que entre 2010 e 2018, as regiões da Amazônia mais afetadas pelo desmatamento e queimadas emitiram mais carbono do que absorveu, apontando que a floresta amazônica não é mais um sumidouro de CO2 como era antes, capaz de mitigar os efeitos dos gases do efeito estufa.

“Se antes o território era capaz de frear as mudanças climáticas, hoje sabemos que ele está acelerando; o aumento de temperatura em áreas da Amazônia foi até duas vezes maior que o aquecimento global”, conta a bióloga Luana Basso, parceira de Gatti no estudo.

Não é coincidência que hoje em dia, dos 10 municípios mais poluidores do Brasil, sete estão na Amazônia legal, incluindo o campeão, São Félix do Xingu, no Pará. Cada um dos 132 mil habitantes de São Félix lança na atmosfera 160 vezes mais CO2 que os mais de 12 milhões de moradores de São Paulo. Se considerarmos a poluição por habitante, todos os campeões estão na Amazônia.

Helicopter dumping water on forest fire
Helicopter dumping water on forest fire

Mantendo a tendência de alta observada ao longo dos anos de governo de Jair Bolsonaro (PL), a Amazônia teve em 2021 mais um ano de aumento do desmatamento em relação ao ano anterior. Foram 13.235 km2 de florestas derrubadas, de acordo com estimativa do Inpe

Em relação a 2020, houve um aumento de 22% de destruição da floresta, número só superado pelo salto de 2019. 

O primeiro ano de Bolsonaro na presidência foi marcado por um aumento de 34% no desmatamento da Amazônia, superando todos os índices da década anterior. A área devastada em 2021, equivalente a 11 cidades do Rio de Janeiro inteiras, é a maior desde 2006. Naquele ano, no entanto, a tendência era de queda – de 2005 a 2006 a redução foi de 25%.

“Levamos 50 anos para retirar 17% de cobertura vegetal da floresta; nos últimos três anos foram 5% de desmatamento, criando um círculo vicioso; além das árvores, estamos secando o Pantanal, a Bacia do Prata, por retirada excessiva das águas subterrâneas, que já estão sendo repostas em menor quantidade”, lamenta Gatti. 

Neste ano, o Paraguai, principal rio do Pantanal, alcançou a segunda menor marca de sua história, o que levou pelo segundo ano seguinte à interrupção da hidrovia que leva ao rio Paraná e funciona como principal porto da Bolívia, que não possui saída para o mar.

Leste, sudeste e sul da Amazônia compõem o arco do desmatamento, região mais degradada por atividades como a pecuária, cultivo de soja e a mineração (incluindo o garimpo). Alta Floresta (MT), que apesar do nome tem um quarto de sua área descoberta, é 2,6ºC mais quente que originalmente, enquanto Tabatinga (AM), com apenas 7% de desmatamento, teve quase a metade do aumento. 

Na fronteira com o Peru, a cidade de 71 mil habitantes fica próxima da região onde no início de dezembro o general Augusto Heleno, ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência autorizou o avanço de sete projetos de exploração de ouro, em uma região praticamente intocada da Amazônia. Mais uma triste novidade deste ano, o gesto é inédito do Conselho de Defesa Nacional nos últimos dez anos.

Alerta de racionamento

A floresta úmida sulamericana é essencial para que o centro-sul não seja um deserto semelhante a outras regiões na mesma latitude do globo, como o Atacama, o Kalahari ou a Austrália.

“É como um dominó; as chuvas que caem na Amazônia oriental evapora e é levada para o oeste pelos ventos; ela então cai na Amazônia oriental, e assim por diante”, explica Roberto Atarassi, doutor em recursos hídricos e agrometeorologia e professora da UFU (Universidade Federal de Uberlândia, no Triângulo Mineiro). “Se houver alguma peça faltando no caminho, todo o processo é prejudicado”.

Em 2021, ao impacto apontado por Luciana Gatti e sua equipe se somou o fenômeno La Ninã, que naturalmente e sem interferência do homem altera os ventos dos “rios voadores”, os empurrando para o mar, além de gerar mais chuvas no norte do país, conforme explica a doutora em meteorologia Michelle Reboita, da Universidade Federal de Itajubá. 

Ela conta que os impactos do aquecimento global podem agravar ainda mais o cenário já definido por Gatti como desastroso:

“As projeções de aquecimento expõem que o aquecimento do Oceano Atlântico levaria a menos ventos úmidos em direção à floresta, que acabaria ainda mais seca e quente”, explica, calculando que em 2022 a seca no centro-sul do país deve ser ainda mais grave.

O polígono das secas atualmente concentra-se entre o noroeste de SP, o Triângulo Mineiro e o sudeste de Goiás, entre rios que geram o Rio Paraná. 

Essa questão ligou os alertas para a geração de energia nacional ao longo de todo este ano. Cerca de 40% da energia hidrelétrica do país sai de usinas instaladas na bacia do Rio Paraná, justamente a mais afetada pela seca recorde, e que também armazena 70% do potencial energético nacional.

A partir de outubro as chuvas que atingiram estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e São Paulo aumentaram os níveis dos reservatórios

No entanto, o nível das represas sequer chegou aos níveis anteriores a setembro, quando passou a vigorar a nova bandeira tarifária da conta de luz, chamada de “bandeira de escassez hídrica”. A taxa extra de R$ 14,20 para cada 100 kilowatt-hora (KWh) consumidos é mais um recorde vivido pelos brasileiros em 2021 e impactou diretamente a inflação, que neste ano chegou aos dois dígitos pela primeira vez desde 2003.

O novo patamar da Aneel representará até Abril de 2022 um aumento de 50% em relação à bandeira vermelha 2, até então a maior existente. Se comparada com a tarifa verde, que esteve vigente pela última vez há mais de um ano, ainda em novembro de 2020, a diferença é de mais de 700% no bolso dos brasileiros, morem eles na Amazônia inundada ou no Triângulo Mineiro ressecado.

O alerta das autoridades está ligado para 2022 por causa do risco de a recuperação dos níveis não alcançar a máxima observada neste ano, em decorrência de fenômenos climáticos como o La Niña, que traz menos chuvas ao centro da América do Sul. 

No entanto, os fenômenos climáticos sozinhos não explicam esse Brasil de extremos. As cidades mais poluídas do Brasil serem São Félix do Xingu (PA) e Porto Velho (RO) ajudam muito a entender os fenômenos extremos que vem ocorrendo com cada vez mais frequência no país.

O Brasil é, atualmente, o sexto maior emissor de gases do efeito estufa. E um estudo recente publicado pela Carbon Brief, revista especializada em estudos sobre mudanças climáticas, mostrou que o país é o quarto maior emissor histórico de gás carbônico em números absolutos — atrás apenas de EUA, China e Rússia.

As emissões do Brasil aumentaram no primeiro ano do governo Bolsonaro. Segundo dados do Inpe, analisados pelo Observatório do Clima, as emissões de gás carbônico alcançaram 1,38 milhões de toneladas em 2019 — o maior volume em 13 anos, desde 2006.

O futuro é logo ali

Enquanto cientistas definiam que a devastação da floresta é decisiva para esta e as próximas estiagens do centro-sul do país, bem como para o aquecimento global, o Governo Federal firmava acordos ambiociosos na COP 26 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) em Glasgow, incluindo a promesa de zerar o desmatamento ilegal até 2028, de cortar emissões de gases de efeito estufa à metade até 2030 e a atingir a neutralidade climática (saldo zero entre emissões e absorções de carbono) em 2050.

Poucos meses antes da conferência, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) publicou seu relatório alertando para o padrão do aquecimento global e as possíveis consequências

Segundo o documento, a emissão de gases de efeito estufa já é responsável, até agora, pelo aumento da temperatura no planeta em 1,1ºC desde 1850, quando a revolução industrial se tornou global. Parece pouco, mas meros 6ºC separam a última era do gelo do planeta que estamos acostumados.

O painel alerta que mantido o padrão dos últimos 170 anos – o que vem ocorrendo devido às acanhadas reduções de emissões de modo geral – chegaremos a um aumento de 1,5ºC até 2040. Isso seria suficiente para gerar ondas de calor crescentes, estações quentes mais longas e estações frias mais curtas. Com 2°C de aquecimento – algo muito possível até o final deste século, os extremos de calor alcançariam mais frequentemente níveis críticos de tolerância para a agricultura e a saúde.

Atarassi explica que o aquecimento da atmosfera não gera apenas maiores temperaturas. “Temos que pensar no calor como energia; se a atmosfera retém mais energia, essa força vai acabar extravasando em fenômenos climáticos mais extremos”, diz. O mais corriqueiro destes fenômenos serão tempestades torrenciais que podem substituir as chuvas mais longas e distribuídas.

“Quando o solo do cerrado, está seco e pouca vegetação, acaba muito frágil; as tempestades fortes acabam carregando todo esse solo exposto para os rios e como corre muito veloz, nem mesmo infiltra no solo”, explica. 

“O resultado é que com o desmatamento do cerrado, ela escoa direto para os rios, não infiltra, não recarrega os reservatórios subterrâneos e no próximo inverno estarão ainda mais secos”, diz. O sinal vermelho está ligado para 2022. Para ele, o Brasil corre o risco de ver a estiagem perfeita se estender no cenário adiante, com restando no cerrado, savana de maior biodiversidade do mundo, menos da metade da sua cobertura vegetal.

E os especialistas ainda alertam para a possibilidade do risco de ser necessário um racionamento de luz em 2022

“Devemos ter novamente o La Niña atuando no continente, o que significa menos chuvas que o normal no verão; deveria ter sido feito um racionamento para não chegarmos em 2022 com uma situação crítica, mas quem falar em racionamento perde a eleição, como vimos em 2001”, afirma Ikaro Chaves, engenheiro eletricista da Eletrobras-Eletronorte. O apagão daquele ano é tido por analistas políticos como decisivo para a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2002. Caso não chegue ao outono com água pelo menos na mesma quantidade que havia naquele mês neste ano, a situação pode ser dramática.

Para o diretor-geral do Instituto Escolhas, o governo Bolsonaro acabará marcada por apagar o país: “Não vai chover no verão, e no final o que teremos é falta de água de dia, e falta de luz à noite. Rumamos para a catástrofe”.

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