Secretário estadual de Transportes de SP diz que não foi avisado de rodízio e teme impacto

THIAGO AMÂNCIO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O secretário de Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, responsável pela operação do Metrô e da CPTM (trens urbanos) em SP, afirma que a decisão da prefeitura da capital de restringir todos os dias a circulação de metade da frota de veículos na cidade não foi debatida com o órgão estadual, e que teme o impacto na rede.

Em uma rede social, na tarde desta sexta, Baldy escreveu: "Não estou de acordo com o novo rodízio de carros anunciado pela prefeitura de SP e compartilho com vocês que a Secretaria de Transportes Metropolitanos não participou do debate sobre a medida."

A partir da próxima segunda-feira (11), começa um novo rodízio de veículos mais restrito, a fim de diminuir a circulação de pessoas e evitar a propagação do novo coronavírus. Em dias pares, só podem circular carros com placa final par. Em dias ímpares, carros com placas de final ímpar. Profissionais de saúde e outras categorias estão isentos.

À reportagem, o secretário evitou entrar no mérito da medida, "porque é difícil, sem estudá-la, saber se é boa ou ruim", mas criticou o fato de que a decisão foi tomada, segundo ele, sem debate com a secretaria, já que colocará mais gente no transporte público.

"O que eu tenho uma posição contrária é não ter esse diálogo, não ter planejamento, para que pudéssemos obviamente nos posicionar frente a diversas demandas e desafios que a gente tem nesse momento", diz.

Segundo Baldy, o Metrô já teve que afastar quase 2.000 funcionários de grupos de risco, e a CPTM teve que afastar quase 1.000. Como a demanda caiu, o estado também diminuiu a frota em circulação. De acordo com o secretário, a frota da CPTM caiu 20% nos horários de pico, e a do Metrô, 35%.

"Nós não somos ônibus, que você põe o motorista no carro e acabou. Nós não temos só o motorista, o operador de trem. Tenho segurança, funcionário de estação, funcionário de bloqueio, de limpeza. É muita gente que envolve", diz o secretário.

"Não é só operar. É operar e permitir que não haja aglomeração. E é preciso saber o que isso vai representar de custo adicional. Imagina se tivermos mais 30% do número de passageiros que temos hoje. Se transportei ontem 850 mil passageiros em cada companhia, se eu falo em 30%, falo em 250 mil passageiros a mais."

"Já está difícil o dia a dia, tenho que fazer seis relatórios diários de limpeza de banheiro, relatórios diários de higienização de trens. Estou criando protocolos que nunca imaginei. E agora tem essa confusão que é manter operação, manter pessoas trabalhando, conseguir máscara, aí é decisão da justiça, pedido o Ministério Público, decisão da Justiça do Trabalho. E você vem com uma situação como essa", diz.

O Ministério Público também questionou a decisão da gestão Bruno Covas (PSDB), e determinou que a prefeitura de São Paulo apresente em 48 horas os estudos que embasaram a medida.

A Promotoria pede para saber também até quando vigorará o novo sistema, os objetivos que pretende alcançar, quais aspectos diferem do rodízio que era adotado antes da pandemia do coronavírus e como todas essas informações serão divulgadas à população.

O órgão questiona ainda qual é o plano para que os profissionais essenciais, sobretudo os da saúde, tenham garantidos seu direito a isenção do rodízio, podendo circular livremente pela cidade. A prefeitura anunciou que os profissionais de saúde poderão cadastrar seus veículos e estarão isentos. Já trabalhadores de outros serviços considerados essenciais, como supermercados, padarias e lotéricas, terão que obedecer às novas regras.

A prefeitura anunciou que vai colocar mais 1.000 ônibus em circulação e deixar 600 veículos de prontidão para circular caso seja preciso. A promotoria quer saber como foi feito o cálculo para chegar a esse número de ônibus.

Nesta sexta (8), Covas defendeu a decisão. Ele afirmou que depois de anunciá-la recebeu "intimidação de milícias digitais" e "mensagens no WhatsApp indecorosas", mas que não vai recurar se se mantiver a desobediência à quarentena. "Situações extremas, decisões extremas", afirmou.

O prefeito afirmou que a medida precisou ser tomada dado o desrespeito à quarentena, e que na quinta houve recorde de trânsito, com 52 km de congestionamento. Os recursos arrecadados com as multas, segundo o prefeito, serão usados em medidas de combate ao novo coronavírus.

O novo rodízio pode ser suspenso, no entanto, se o isolamento da capital passar dos 60%, disse Covas.