Secretário de Saúde diz que não sabia da criação do Comitê Científico de Claudio Castro

Felipe Grinberg
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RIO — O secretário estadual de Saúde Carlos Alberto Chaves negou ter participado da criação do Comitê Científico do governador Claudio Castro. O GLOBO revelou que a maioria dos escolhidos por Castro é defensora do tratamento precoce da Covid-19 com medicamentos sem eficácia. Em coletiva de imprensa convocada nesta terça-feira para comentar as ações da pasta, Chaves disse ainda que não possui vinculo com nenhum deles e ainda não conversou com nenhum dos escolhidos pelo governador.

— Quem me conhece sabe disso. Não tive nenhuma participação e nem sabia. Não tenho vínculo com ninguém. Soube hoje. Se é político ou não vocês decidam. Eu sou técnico e não me envolvi nisso. Não tive tempo, estava levando vacinas. Não tenho tempo para isso, tenho tempo para salvar vida e correr atrás — disse

Ao ser questionado se o Comitê terá algum papel na secretaria, Chaves negou:

— Comigo não.

O Comitê

O governador em exercício Cláudio Castro criou ontem um comitê de apoio científico para políticas públicas de enfrentamento à Covid-19. Dos dez médicos e cientistas escolhidos para o grupo, ao menos seis já se posicionaram publicamente em defesa de tratamentos precoces contra a doença, como o uso de remédios sem eficácia comprovada, ou contra restrições, como lockdown, para conter o avanço do coronavírus.

Castro já se posicionou contra medidas restritivas — o que gerou, no mês passado, uma desavença pública com o prefeito do Rio, Eduardo Paes. Segundo o decreto que institui o comitê, os médicos têm o dever de “monitorar e avaliar o desempenho do SUS no âmbito do estado e elaborar recomendações à Subsecretaria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde”.

O infectologista Edimilson Migowski foi nomeado presidente do grupo. Nas redes sociais, Migowski defende o uso da nitazoxanida, um vermífugo, como tratamento prévio para sintomas de Covid-19. No ano passado, o governo federal chegou a dizer que o remédio reduziria a carga viral em pacientes infectados, mas em janeiro o Ministério da Saúde informou à Câmara que decidiu não incorporar a nitazoxanida ao tratamento da doença.

Em outubro, Migowski fez uma live com o médico Guili Pech, que também defende o tratamento precoce nas redes. O tema foi “A ditadura da medicina baseada em evidências e o uso da nitazoxanida”. Outros nomes completam o comitê científico de Castro, como, por exemplo, o infectologista Francisco Cardoso, que também já se manifestou a favor do tratamento precoce e contra o fechamento do comércio. No mês passado, ele disse ao portal Jovem Pan que, em um restaurante, com mesas separadas, clientes de máscaras e ventilação adequada, as regras sanitárias são seguidas e “você está muito mais seguro do que em casa”.

Psicólogo e consultor do Ministério da Saúde, Bruno Campello já falou contra o lockdown, junto com seu pai Fernando Campello, que também faz parte do comitê. O médico infectologista Ricardo Zimerman é outro defensor de tratamentos precoces.

Perguntado sobre os critérios para formar o comitê, o estado disse que o objetivo é que os especialistas colaborem com as decisões e reforcem o diálogo com a sociedade. E que as medidas necessárias contra a Covid-19, como ampliação de leitos e distribuição de vacinas, serão tomadas. O GLOBO não conseguiu contato com os integrantes do grupo.