Secretários de Saúde rebatem versão de ministério e afirmam que não endossam uso de cloroquina em pacientes com sintomas leves de coronavírus

Daniel Gullino, Leandro Prazeres e Marco Grillo
Há mais de 150 ensaios científicos envolvendo cloroquina e hidroxicloroquina contra a covid-19 registrados em diversos bancos de dados internacionais

BRASÍLIA – O Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) rebateu o Ministério da Saúde e afirmou nesta quarta-feira que não concorda com a mudança de protocolo de tratamento para casos leves de coronavírus, permitindo o uso de cloroquina e hidroxicloroquina. Em entrevista coletiva em que a alteração foi anunciada, o secretário-executivo da pasta, Élcio Franco, havia afirmado que a alteração acontecera com a participação de gestores estaduais e municipais e representantes de associações médicas. Em nota, o Conass reforçou que não há “evidências científicas” que sustentem a eficácia dos remédios no tratamento da covid-19.


“Com respeito ao documento intitulado 'Orientações do Ministério da Saúde para tratamento medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da Covid-19', lançado pelo Ministério da Saúde, sem participação técnica e pactuação tripartite, o Conass reafirma sua posição de pautar-se, sempre, pelo respeito às melhores evidências científicas. Assim, ao contrário do que foi divulgado em entrevista coletiva no dia de hoje, deixa claro que tais orientações são de única responsabilidade do Ministério da Saúde”, disse o Conass.


Mais cedo, o secretário-executivo da pasta dissera que a elaboração do novo protocolo tinha contado com a participação do conselho.


– Tudo isso é um processo integrado, contínuo, com a participação de todas as secretarias. Dessa forma foram elaboradas as orientações, ouvidos agentes internos e externos, técnicos, especialistas, para que o documento fosse finalizado. Houve a pactuação, conforme já falado também, com o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), com o Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde (Conasems), com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Já falaram também com o Conselho Federal de Medicina e, por último, hoje, com a Sociedade Brasileira de Cardiologia – afirmou Élcio Franco na coletiva.O Conass criticou ainda o fato de a discussão estar centrada em medicamentos cuja eficiência não está comprovada e não em elementos que poderiam ajudar o país a enfrentar a pandemia:“O Conass insiste na importância de se prosseguir com a discussão junto ao gestor federal do SUS sobre temas que se relacionam diretamente à estratégia de enfrentamento à pandemia de modo tripartite. Por que estamos debatendo a cloroquina e não a logística de distanciamento social? Por que estamos debatendo a cloroquina ao invés de pensar um plano integrado de ampliação da capacidade de resposta do Ministério da Saúde para ajudar os estados em emergência? O entendimento do CONASS é o de que precisamos unir forças em um projeto único, pactuado, dialogado com as necessidades de cada região do país, com as dificuldades de cada unidade federativa, bem como das capitais e demais municípios”, afirmou o conselho.