Segunda é dia de samba e cerveja gelada em rodas da Zona Norte

Foi-se a época em que segunda-feira era dia de descanso para os músicos. Há 17 anos, o Samba do Trabalhador quebrou essa regra, levando centenas de pessoas ao Clube Renascença, no Andaraí, atrás de música boa e cerveja gelada. Essa “saideira” do fim de semana dá filhotes na Zona Norte. Em Pilares, uma turma iniciou há um ano o mesmo movimento. Próximo ao viaduto, no Resenha Pagode e Chinelo — sim, lá todos calçam chinelos —, quem quiser pode chegar e tocar um instrumento já disponível na roda. Quem não toca canta. E quem não canta bate palmas.

Veja vídeo:

Para o grupo Balacobaco, que criou seu evento na Rua Faleiros e está na estrada há 14 anos, a segunda com clima de festa começa às 15h. Enquanto a maioria do seu público ainda dá expediente, os pagodeiros já estão colocando carne na churrasqueira e cerveja para gelar. Às 18h, sob uma lona de circo, eles dão início à noite musical, que segue até as 3h da madrugada. Folga, só na terça-feira.

— Tudo começou como um encontro de amigos. E a gente queria que fosse algo à vontade, de chinelos — conta André “Orelha”, que toca pandeiro no Balacobaco, contando que a resenha era na Rua Soares Meireles, de onde tiveram que sair por causa da vizinhança.

Reforço:

Há seis meses, eles foram parar ao lado do viaduto, que já foi um grande point em Pilares. Quem sai de casa primeiro passa no mercado para comprar carne. Na segunda retrasada, eles gravaram lá o DVD “O som da rua”, com mais de 1.500 pessoas presentes. E é da consumação que vem o dinheiro para bancar a infraestrutura.

— A ideia foi sempre fazer comida, tocar samba e beber na folga. E a resenha tem que ser de chinelos. Já chegamos a sair daqui para comprar chinelos e distribuir — diz Marcelinho da Cruz, reco-reco e vocalista.

"Madrugada RJ”:

Na última segunda-feira, Danielle Crispim, de 25 anos, cantava todas as músicas autorais do Balacobaco, que ainda tem Vinicius Medeiros, no surdo, e Naldinho Rosa, voz e cavaquinho. O grupo avisava ao microfone: “O evento não é pago e nunca será”.

— É complicado vir na segunda pelo trabalho, mas aqui a energia é diferente — justifica a moradora de Cascadura.

Xande de Pilares participa da resenha desde o início:

— Esse pagode começou comigo também. Era um bate-papo de amigos, cresceu e se transformou nesse fenômeno.

Quase quatro metros:

No Renascença, o cantor e compositor Moacyr Luz acha graça da criatividade alheia ao mostrar numa rede social a propaganda de um “Samba do Batalhador”, em São Gonçalo. De fato, o Samba do Trabalhador revolucionou, e não somente na Zona Norte.

— Há espaço para todo mundo. E, por mim, teria atividade cultural todo dia na Zona Norte e na Zona Oeste — defende Moacyr: — O carioca sabe trabalhar, e trabalha muito. Pode muito bem ir a uma praia ou a um samba no fim do dia.

No começo, o evento começava às 14h e terminava às 20h, com entrada gratuita. Hoje, vai das 17h às 21h30, com ingresso a R$ 30. Em segundas que não são feriado, dá por volta de 600 a 700. De lá, saíram parcerias e até casamento.

— Teve um dia em que recebemos 11 ônibus de São Paulo, porque era feriado lá — lembra Moacyr, para quem o sucesso do Samba do Trabalhador, que já concorreu ao Grammy, gravou cinco álbuns e três DVDs e faz shows pelo país e também fora, “é um mistério”: — É um fenômeno. São 17 anos sem ter brigas, sem ter um desentendimentos.

Hoje são oito músicos na roda, sendo cinco da formação original, como Gabriel da Muda, que conheceu Marcela, sua mulher, no samba.

— Aconteceu o Samba do Trabalhador na minha vida, e tudo mudou. Mexemos com a estrutura da cidade — afirma.

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