Segundo dia de reabertura gradual no Rio é marcado por desrespeito a protocolos de segurança

Rafael Nascimento e Souza
Movimentação intensa no Camelô da Taquara; faltou distanciamento para os pedestres

RIO — No segundo dia de liberação de parte do comércio com o aval da prefeitura, seguindo diversos protocolos para evitar que as pessoas sejam infectadas pela Covid-19, além do afrouxamento de medidas de isolamento social, o que se viu foi uma série de desrespeito por parte de comerciantes e clientes. Ruas lotadas, trânsito pela cidade, camelôs espalhados pelas calçadas e muitos surfistas pegando uma onda no mar, foram algumas das situações observadas. O GLOBO percorreu diversos bairros das Zonas Sul, Norte, Oeste e Central e as irregularidades foram vistas em todos os bairros. Atualmente, o município registra 31.204 casos do novo vírus, com 3.828 mortes.

Em Copacabana, na Zona Sul, pouco depois das 8h, foi possível observar o aumento de pessoas que transitavam pelas vias do bairro. Um dia antes, a movimentação era tímida. Pelas calçadas do bairro, que concentra o maior número de casos do novo vírus (1.498 registros), é possível ver a presença de muitos ambulantes que vendem de tudo, de pote para mantimentos a máscaras. Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana (entre as ruas Paula Freire e Hilário de Gouvêa) e na rua Siqueira Campos, muitas lojas de roupas e sapatos já estão com as portas abertas. Em nenhuma delas os comerciantes ofereciam álcool gel ou controlavam a entrada de clientes para evitar aglomeração dentro dos espaços.

O fim das medidas de isolamentos, autorizado pelo prefeito Marcelo Crivella, está implementado em seis fases e começou a vigorar nesta terça-feira. Entre elas estão à volta de caminhada no calçadão e as atividades esportivas individuais no mar, como natação ou surfe (ainda está vetado a permanência na areia ou dar um mergulho) e a abertura gradual do comércio.

Em Ipanema, dezenas de surfistas pegavam ondas, pessoas entravam no mar e outras dezenas faziam seus exercícios e caminhadas diárias, desobedecendo ao distanciamento mínimo. O decreto do Governo do Estado proíbe que pessoas entrem no mar ou permanecem nas praias do estado. Segundo o documento, a Polícia Militar pode até retirar o banhista da água. A corporação ainda não disse qual decreto vai obedecer.

Na Região Central, pedestres e carros disputavam espaços pelas ruas. Na Lapa, pouco depois das 9h, já tinha congestionamento nas ruas Riachuelo e Mem de Sá. Não era diferente na Rua Uruguaiana. No local, onde funciona o Comércio Popular da Uruguaiana, os boxs estavam abertos. Foi possível notar pessoas sem máscara.

Já na Zona Oeste, todos os comércios estavam abertos. Na Estrada Edgard Werneck, na Cidade de Deus, a rotina seguia normal. Não longe dali, na Estrada dos Bandeirantes, na Taquara, milhares de pessoas transitavam entre as vias do bairro. Muitas delas entravam e saíam das lojas sem serem interpeladas a usarem máscaras ou álcool gel. A mesma cena podia ser vista na Praça Seca pouco depois das 11h. A situação não era diferente Madureira, na Zona Oeste.

Com o afrouxamento promovido pela Prefeitura, o transporte público será um desafio para o prefeito Marcelo Crivella. Na manhã desta quarta-feira, ônibus, metrôs, trens e barcas estavam lotados. A estação Mato Alto do BRT ficou lotada e a tendência é que o movimento aumente com a volta do comércio.

O GLOBO percorreu vias como Avenida Presidente Vargas, Avenida Brasil, Linha Amarela, Avenida das Américas, Rua Cândido Benicio e Estrada da Portela. Em todas essas vias havia excesso de carros e ônibus. Em muitas estações do BRT, haviam pessoas aglomeradas à espera do modal.

A flexibilização anunciada pelo prefeito Marcelo Crivella é vista com preocupação por especialistas. O epidemiologista Roberto Medronho, da UFRJ, teme uma explosão de casos de Covid-19 no Rio com o afrouxamento.

— Não é para abrir. É para fechar mais — opinou ele, destacando que a queda do número de internações não significa redução do número de mortes. — Temos visto um número de óbitos em casa bem maior do que o ano passado.

Medronho ressalta que o Rio atingirá o pico do novo coronavírus quando registrar entre 55 e 56 mil casos, o que deve acontecer ainda esta semana:

— Mesmo os países europeus que fizeram a abertura na descendência (da curva de casos), com a população bem treinada para isso, o número de casos subiu. Aqui, eu tenho muito medo que exploda. Nenhum país do mundo abriu na ascendência da curva — disse ao "Bom Dia Rio", da Rede Globo.

O médico infectologista e professor da UFRJ, Rafael Galliez, contrário à reabertura econômica, também destaca o alto número de óbitos domiciliares “sem causa definida” durante a pandemia.

— Além dos óbitos, os estudos mostram que o índice de reprodução do vírus hoje no Rio ainda é alto, então, se aumentar a mobilidade da população nas ruas agora vai ser jogar gasolina no processo.

Para especialistas, o relaxamento do isolamento social deveria aguardar ainda cerca de duas semanas. Professor do Instituto de Medicina Social da UERJ, o médico Mario Roberto dal Poz, chama de precipitada a abertura feita pela prefeitura:

— O mais correto seria levar essas medidas para além do dia 8, quando a curva deve chegar ao platô —avalia dal Poz, para quem o anúncio do prefeito fez muitos comerciantes “se sentirem autorizados” a abrir, mesmo fora do cronograma.

O professor teme ainda que falte controle sobre os moradores da cidade em relação ao cumprimento das regras, principalmente nas praias.