Segundo investigação, Ronnie Lessa e filha traficavam armas desde 2014: peças vinham dos EUA, da China e da N. Zelândia

Chico Otavio
·3 minuto de leitura

Uma investigação da Desarme (Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos) concluiu que Ronnie Lessa, com ajuda da filha, Mohana Lessa, traficava armas dos Estados Unidos para o Brasil desde 2014. O sargento reformado da Polícia Militar do Rio de Janeiro é acusado da execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, ao lado do ex-PM Élcio Queiroz. As mortes dos dois completarão três anos no dia 14 de março.

De acordo com os investigadores, peças e acessórios eram adquiridos em sites de venda de armas e em países como China, Nova Zelândia e Estados Unidos. De lá, eram mandados para o Rio de Janeiro.

A investigação sobre o envolvimento de Lessa e da filha no tráfico internacional de armas é um desdobramento do inquérito sobre as mortes de Marielle e Anderson. Em março de 2019, no dia da prisão de Lessa, a polícia encontrou na casa do militar 117 fuzis incompletos. Com a apreensão de telefones celulares naquele dia, a Delegacia de Homicídios da Capital (DH) e o MP-RJ começaram, no âmbito do Caso Marielle, a analisar conversas e arquivos. O arsenal encontrado na casa de Lessa, segundo as investigações, seria montado e vendido a criminosos.

O procurador da República Renato Silva Oliveira pediu à Polícia Federal a abertura de um inquérito para investigar Ronnie Lessa por tráfico internacional de armas. A investigação começa quase nove meses depois da decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em negar o pedido de federalização do inquérito do Caso Marielle, hoje a cargo do Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ) e da Polícia Civil fluminense.

A remessa do inquérito para a área federal ocorre no momento em que o MPF cria no Rio um Grupo de Apoio Especializado no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) federal, para auxiliar os procuradores da República em investigações complexas. Se o procurador responsável, Renato Silva Oliveira, entender necessário, poderá pedir o auxílio do novo Gaeco, que será coordenado pelo procurador da República Eduardo El Hage, o mesmo que comandou a força-tarefa da Lava Jato fluminense.

Inicialmente, esse desdobramento do Caso Marielle foi conduzido pela Desarme da Polícia Civil. Ao receber o inquérito relatado, com o indiciamento de Lessa e Mohana, o Gaeco do MP-RJ entendeu que o caso era competência do MPF, já que se tratava de crime federal de tráfico internacional.

“Metal parts”

Nos diálogos no WhatsApp entre Lessa e a filha, a polícia encontrou uma orientação de Lessa à filha. “Escreve ‘metal parts’ (peças de metal)”. A polícia acredita que essa descrição, sobre o que estava sendo mandado para o Brasil, era uma forma de burlar a fiscalização. Outra orientação à jovem era colocar o material em embalagens menores, retirando-as dos pacotes originais, para não chamar atenção do setor alfandegário.

Os diálogos ocorreram entre junho e setembro de 2018 e foram extraídos de um dos celulares de Lessa. Nas mensagens, ele não disfarçava a pressa que tinha pela chegada das peças. Num diálogo do dia 5 de junho de 2018, Mohana pergunta ao pai o que ele prefere, DHL ou Fedex. O PM responde: “DHL, é mais rápida sempre”.

Procurada, a defesa de Ronnie Lessa afirma desconhecer a informação.