Segundo metodologia do Datafolha, pesquisadores não podem entrevistar pessoas que se voluntariam

A metodologia do instituto Datafolha impede que uma pessoa se voluntarie a responder uma pesquisa para evitar viés na amostra. Apesar disso, em um vídeo reproduzido mais de 600 mil vezes desde 13 de setembro de 2022, um homem que havia se oferecido para participar acusa a pesquisadora de não tê-lo entrevistado por apoiar o presidente Jair Bolsonaro nas eleições de outubro. A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) ressalta que ninguém que se voluntaria responde pesquisas sobre qualquer assunto e que a escolha dos respondentes segue critérios técnicos.

“Pesquisas. Credibilidade zero”, diz a legenda de uma publicação compartilhada no Twitter com um vídeo no qual se ouve um homem questionando de maneira incisiva uma mulher que seria pesquisadora do instituto: “Datafolha se for Bolsonaro ela não faz a pesquisa, tá fugindo, tá se escondendo. Se for Bolsonaro… ‘eu fui colocar lá que era Bolsonaro e eles não aceitaram não”. Entendeu? Se você fala que é Bolsonaro ele corre ó, correu, pra você ver a mentira, falcatrua”.

O mesmo vídeo foi enviado pelo WhatsApp ao AFP Checamos e circula no Facebook, Instagram, Telegram, Kwai e TikTok, a poucas semanas do primeiro turno das eleições gerais no Brasil.

Captura de tela feita em 14 de setembro de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Sequências compartilhadas em diversas plataformas têm o logo do TikTok e a inscrição da conta “israelrangel4978”. Uma busca por esse perfil levou a um vídeo no qual um homem reclama de ter tido a sua publicação apagada e detalha a interação com a pesquisadora do Datafolha.

Na gravação, ele assume que se voluntariou a participar da pesquisa: “Eu falei pra ela: ‘faz a pergunta’. Quando a gente falou que era Bolsonaro ela saiu correndo”.

No entanto, o pedido de participação em uma pesquisa é impedido pela metodologia do Datafolha.

“A abordagem dos entrevistados tem que ser aleatória, se aceitarmos pessoas que se oferecem, independentemente da posição política, teremos um viés na amostra”, explicou à AFP em 14 de setembro de 2022 a diretora do instituto, Luciana Chong.

Ela confirmou que a cena viral envolve uma pesquisadora do Datafolha e que aconteceu em 13 de setembro em São Paulo. “No episódio em questão, a pesquisadora foi abordada por um segurança de um estabelecimento comercial, na Vila Leopoldina, após realizar uma entrevista em frente a este local. Esse segurança estava filmando a pesquisadora quando a abordou, perguntou se ela trabalhava para o Datafolha e solicitou que ela o entrevistasse”, disse.

Assim, Chong reiterou que a abordagem foi correta e que, além do pedido de participação que tornaria a amostra enviesada, a funcionária tinha cotas de idade a cumprir, que a pessoa em questão não atenderia.

A assessoria de imprensa da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) explicou à AFP em 2 de agosto de 2022 que cada filiado tem seu critério de aferição, mantendo preservados a qualidade e o alcance da amostra, e ressaltou: “Ninguém que se voluntaria responde pesquisa sobre qualquer assunto. A escolha dos respondentes segue critérios técnicos estabelecidos pela metodologia da pesquisa”.

Equipes do Datafolha têm sido hostilizadas ao realizar pesquisas eleitorais. No mesmo dia em que a pesquisadora que teve a imagem difundida nas redes correu para se distanciar de ataques, outras nove intercorrências foram registradas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Alagoas, Maranhão, Goiás, Pará, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

O AFP Checamos já verificou (1, 2, 3) outros conteúdos falsos ou enganosos a respeito de pesquisas eleitorais.