Segurança na rede municipal de ensino ainda não é prioridade, dez anos após massacre na Escola Tasso da Silveira, em Realengo

Pedro Zuazo
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Dez anos após o massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, a segurança ainda não é prioridade na rede de ensino da prefeitura. Os contratos de controladores de acesso da Secretaria municipal de Educação foram suspensos na gestão de Marcelo Crivella, quando ficou determinada a suspensão das aulas presenciais em função da pandemia, e não foram retomados pela atual administração de Eduardo Paes.

Com 419 das 1.543 unidades em funcionamento, a prefeitura diz que com o avanço do plano de volta às aulas “vai avaliar a possibilidade da retomada dos contratos suspensos de acordo com as circunstâncias e necessidades da comunidade escolar”. A contratação de porteiros é uma antiga bandeira da Associação Anjos de Realengo, formada por pais e mães de vítimas da tragédia. Para Adriana Silveira, mãe de Luiza, uma dos 12 estudantes mortos a tiros pelo ex-aluno da unidade Wellington Menezes de Oliveira, pouco mudou em relação à segurança das escolas nos últimos dez anos.

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— Acho que não aprenderam nada com o que aconteceu no dia 7 de abril de 2011. A gente viu a Tasso da Silveira ser totalmente reformada e ganhar vigilância 24h da Guarda Municipal, mas não adianta mudar a unidade onde tudo aconteceu e deixar as outras escolas abandonadas. A gente não quer os portões abertos — diz Adriana.

A SME alega que na época do massacre havia um profissional atuando como porteiro da unidade. Como o autor do crime era um ex-aluno, teve o acesso liberado, segundo a pasta. Adriana, no entanto, esclarece que a pessoa que cuidava do portão na época da tragédia não era um controlador de acesso, e sim um servidor desviado de sua função original. Essa substituição, que surgiu para ser um paliativo, tornou-se a regra nas unidades da prefeitura, de acordo com o coordenador-geral do Sindicato estadual dos Profissionais de Educação (Sepe) do Rio, Gustavo Miranda:

— A política da prefeitura é colocar os servidores readaptados, pessoas que estão em outras tarefas, para atuarem como porteiro. Só que nas escolas municipais os porteiros são essenciais. Eles lidam com crianças. É o porteiro que evita que a criança seja entregue para a pessoa errada ou que um estranho entre na unidade. Eles representam a segurança da escola, por isso o Sepe tem apontado a necessidade de termos porteiros concursados.

Sobrevivente lamenta mudança

Na época do crime, a então secretária de Educação, Claudia Costin, prometeu contratar mais porteiros para a rede. A segurança das unidades tornou-se uma bandeira da titular da pasta, que também anunciou que contrataria um inspetor por andar nas escolas do Rio. Na época, havia 500 inspetores contratados e a prefeitura anunciou a contratação de mais 1.844 servidores para atender toda a rede. Thayane Tavares, uma das sobreviventes da tragédia, lamenta a mudança de postura, embora Eduardo Paes também estivesse à frente da prefeitura em abril de 2011.

— Os maiores fatores para o que aconteceu foram o bullying e a segurança nos colégios. Na verdade, a falta dela. E ambos ainda não são tratados da forma como deveriam — desabafa Thayane, que ficou paraplégica após levar quatro tiros.

Thayane construiu uma história de superação. Ela mora sozinha desde os 18 anos, hoje tem 23, em uma casa em Campo Grande, que construiu com a indenização paga pela prefeitura. Ex-atleta de salto em distância, ela agora pratica paracanoagem no tempo livre. Atualmente, cursa o sétimo período da Faculdade de Direito na Universidade Castelo Branco, em Realengo, e sonha ser juíza.

— Eu sempre me peguei no meio dos conflitos tentando ajudar a solucioná-los. Quero muito ajudar as pessoas.

Um encontro especial

Todas as manhãs, ao ver a cadeira de rodas ao lado da cama, Thayane Tavares se esforça para enxergá-la como uma aliada. “Durante muito tempo eu a vi como inimiga, mas se não fosse ela eu não teria a minha independência”, explica a jovem. A mudança na vida da jovem começou quando ela conheceu outra cadeirante, que fez contato através das redes sociais.

— Quando eu a vi pela primeira vez, uma cadeirante linda, saindo do carro sozinha, dirigindo, eu fiquei perplexa. Ela chegou para mim e disse: "Menina, você não pode parar de viver a sua vida só porque está numa cadeira de rodas” — conta Thayane.

Pouco tempo depois, Thayane voltou a estudar na Tasso da Silveira e começou a praticar canoagem adaptada. Essas primeiras vitórias a ajudaram a superar a dificuldade de falar sobre o massacre:

— Antes eu não gostava que me intitulassem como a sobrevivente ou a menina que ficou cadeirante. Mas essa é a minha história. Passei a ter orgulho disso. Eu sou uma sobrevivente e quero honrar isso pelos que estão aqui e pelos que não estão mais.