Segurança Presente avança para o interior e chega a 42 bases em meio a queda nos roubos

Era o fim de 2013 e, em meio a uma explosão de crimes, com três mortes em uma única semana, a Lapa, bairro boemio na Região Central do Rio, via turistas e frequentadores sumirem. A resposta das autoridades veio no primeiro dia do ano seguinte, com um projeto que, numa tentativa de conter a violência, pagava policiais militares e civis para trabalhar na folga, nos horários de maior movimento. A iniciativa ajudou a reduzir em 90% os roubos nas redondezas da Lapa e foi sendo gradativamente ampliada — hoje, são 42 bases espalhadas por 18 municípios, incluindo cinco cidades no interior fluminense, que passou a ser contemplado há um ano. A expansão coincide com uma redução expressiva nos roubos de rua no estado, que, segundo números do Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgados nesta quinta-feira, atingiram patamar mais baixo dos últimos 17 anos.

O indicador de roubos de rua abrange a soma dos roubos a pedestre, de celular e em ônibus. Entre janeiro e abril de 2022, houve 19.348 ocorrências do gênero no Rio, menor número desde 2005 e uma queda de 21% frente ao primeiro quadrimestre do ano passado (24.414 casos). O índice é tido por especialistas como um dos aspectos da segurança pública mais associados à presença ostensiva da polícia circulando pelas vias urbanas.

— Nossa sensação é que a chegada do Segurança Presente foi imprescindível, até por ter ocorrido em um momento no qual o 19º BPM (Copacabana) estava com um efetivo reduzido. Acaba trazendo uma contribuição decisiva para o policiamento — pontua Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, onde o programa teve início em janeiro de 2020.

Atualmente, o reforço no patrulhamento, considerando todo o estado, é de cerca de 1.700 homens nos dias de semana. O número equivale ao efetivo de dois batalhões de área de grande porte, em que apenas uma parcela dos policiais militares atua de fato nas ruas, já que há agentes em funções administrativas,de férias ou afastados, por exemplo.

A segurança 24 horas da população segue sendo uma exclusividade da PM. Nós trabalhamos de forma suplementar, voltados a um público específico em regiões de grande concentração e circulação de pessoas, além de áreas comerciais, financeiras ou turísticas. O foco é ter uma relação mais íntima com o cidadão, numa abordagem de proximidade — diz o coronel Francisco Melo, superintendente da Operação Segurança Presente.

Gerido pela Secretaria de Governo (Segov) e vinculado diretamente ao governo estadual, o programa já chegou a ser bancado em partes, no passado, por verbas particulares, oriundas de entidades como a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio (Fecomércio) — fato que gerou críticas como as do ex-secretário de Segurança José Mariano Beltrame, que, ainda à frente da pasta, em 2015, chegou a se referir à iniciativa como uma “segurança privada”. Hoje, o projeto sai inteiramente do orçamento da própria Segov ou das prefeituras.

— No nosso caso, o município entra com a infraestrutura, como motos, bicicletas e contêineres, e investe também no Programa Estadual de Integração na Segurança (Proeis), mecanismo pelo qual são contratados os policiais de folga. Esse esforço tem melhorado os índices — afirma Rogério Lisboa (PP), prefeito de Nova Iguaçu, primeira cidade da Baixada Fluminense a receber uma base, em agosto de 2019.

O município possui hoje três núcleos do programa, o único do estado fora da capital, além de Niterói, a ter mais de uma base própria do Segurança Presente. Já Nilópolis e Mesquita, duas cidades vizinhas também atendidas pelo 20º BPM (Mesquita), não contam com o reforço.

— Os resultados têm de ser observados, mas é algo que só funciona para uma parte da população. E também precisamos entender se mesmo as mudanças registradas não estão ligadas a outras questões relativas à dinâmica criminal — pondera o sociólogo Doriam Borges, membro do Laboratório de Análise da Violência da Universidade estadual do Rio de Janeiro (LAV-Uerj).

Também sociólogo e ex-chefe do Estado-Maior da PM, além de ter coordenado as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o coronel Robson Rodrigues tem visão semelhante. Embora trate o Segurança Presente como “positivo em algum momento”, por representar, ao adotar um patrulhamento de proximidade, um caminho para a “reforma das polícias”, o oficial faz ressalvas sobre a iniciativa:

— O programa acaba expondo uma fragilidade do sistema policial. Muitas vezes, você vê a queda dos crimes em um local, mas uma alta na outra esquina. Essa malha de policiamento precisa ser melhor costurada — comenta Rodrigues.

Desde janeiro de 2014, os agentes do Segurança Presente realizaram, ao todo, mais de 6.500 prisões. O número de atendimento sociais é 40 vezes maior: foram quase 285 mil até a última quarta-feira.

*Estagiária sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos