Seis anos após protestos de Junho de 2013, Brasil segue nas ruas. Cada vez mais rachado

Manifestantes protestam no Congresso Nacional contra gastos na Copa, corrupção e por melhorias no transporte público, na saúde e na educação

No documentário “Democracia em Vertigem”, a diretora Petra Costa apresenta os protestos de junho de 2013 como um ponto de inflexão da degradação do ambiente político que culmina na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018.

O filme, lançado na semana passada na Netfix, acompanha o momento em que os manifestantes, inicialmente mobilizados contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, começam a rachar entre vermelhos e amarelos e passam a incorporar novas pautas pelo país afora, dando vazão à revolta contra a (má) qualidade dos serviços públicos, aos gastos com eventos como a Copa do Mundo e a corrupção.

O auge da mobilização, captado também no documentário, é quando a marquise do Congresso, em Brasília, é tomada por manifestantes em 17 de junho.

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Naquele mês, a aprovação de Dilma Rousseff começa a despencar. Pressionada, a então presidenta anunciava, há exatos seis anos, cinco grandes promessas para reverter o descontentamento da população – a maioria delas ficou no papel.

A promessa de fazer um pacto pela responsabilidade fiscal, por exemplo, não se concretizou. Pelo contrário, os gastos do governo superavam a arrecadação até o impeachment.

A “ampla e profunda” reforma política se resumiu à proibição, em 2015, de doações empresariais a campanhas políticas.

Também não foram cumpridas as promessas de investir bilhões em mobilidade urbana ao longo da crise que se seguiu.

Em pouco tempo, o preço das passagens voltou a subir, dessa vez sem reação popular, enquanto o Movimento Passe Livre, protagonista dos protestos, perdia força e praticamente desaparecia do noticiário.

Das promessas de Dilma, apenas a criação do programa Mais Médicos, desfigurado na gestão Bolsonaro, se cumpriu.

No rescaldo dos protestos, Dilma sancionou, em 2 de agosto daquele ano, a lei 12.850, que instituiu a delação premiada no país – instituto que possibilitou a prisão de diversos agentes públicos Brasil afora.

Seis anos depois, o Brasil parece jamais ter saído das ruas, seja em mobilizações pró, seja contras as medidas do atual governo. Quais as relações entre aquele momento político e o atual?

Autor de “As Ruas e a Democracia”, publicado ao fim daquele movimento, o professor de Teoria Política da Unesp Marco Aurélio Nogueira lembra que em 2013 a pauta era múltipla e não hierarquizada e que, em 2019, a motivação está focada em temas como educação, apoio a Bolsonaro e protestos contra a reforma previdenciária.

“Em 2013, o protesto dirigia-se ao sistema político e aos governos como um todo; em 2019, dirigiu-se diretamente ao governo federal, ao MEC, à pauta reformadora. O que houve de comum foi, antes de tudo, a presença dos jovens e, depois, a mobilização pelas redes e com independência dos partidos. Estamos em outro momento, de maior desorganização, muita frustração e muito ressentimento, pela esquerda e pela direita”, diz Nogueira.

As manifestações de agora, segundo o especialista, são menos expressivas do que as de 2013, ou mesmo às do impeachment. “O sistema político de certo modo conseguiu assimilar a dinâmica das ruas. Por um lado, usando-a eleitoralmente. Vários parlamentares foram eleitos pelo protagonismo que tiveram em redes e movimentos. Por outro lado, blindou-se contra o efeito mais ‘contestador’ das ruas, para o que foi beneficiado pela crise das esquerdas, que não conseguiram ir além da bandeira ‘Lula livre’”, analisa.

Ele lembra também que os alinhamentos eram outros em 2013 e 2015. “Talvez os movimentos que estão separados hoje estivessem juntos em 2013, ou alguns de seus integrantes flutuaram de um lado a outro. A situação de polarização permaneceu, sem que houvesse algum tipo de avanço em termos de ‘educação política’. Isso facilita muito, creio, essa flutuação. E há um elo ligando tudo: o espírito antipolítica, hostil aos políticos. Se um lado aplaude e mitifica Bolsonaro, o outro responde mitificando Lula.”

Para o jornalista Piero Locatelli, um dos marcos do movimento de 2013 foi o direcionamento da política para o centro do debate nacional, de onde nunca mais saiu.

Autor do e-book #VemPraRua, em que reconstitui os episódios mais marcantes das manifestações – inclusive sua detenção, por levar um frasco de vinagre na mochila durante a cobertura –, ele lembra que até pouco tempo política era um assunto para iniciados e que pouca gente sabia quem eram os ministros do Supremo. “Agora a minha família assiste às sessões da Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Isso começa a aparecer em 2013.”

Aos que atribuem aos protestos de junho o vórtice que dragou o sistema político até a crise atual, ele diz ter dúvidas se algo de fato começou ali. “Sem dúvida, foi o momento em que isso ficou visível, escancarado. Isso é claro nos dados e na percepção. Nos dados, é só olhar a série histórica de popularidade de qualquer político, e ver que nunca voltamos ao patamar anterior”, afirma.

Vistas hoje, é difícil pensar em um legado das manifestações de junho de 2013 se não como um estopim.

Um ano antes, protestos “contra tudo isso que está aí” eram tratados como piada, por vozes diversas como punks, apoiadores da ditadura, estudantes e idosos.

Locatelli cobriu uma dessas mobilizações, que no feriado de 7 de setembro reuniu cerca de 1.000 pessoas na avenida Paulista para cantar “eu, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. A maioria se conhecia pela internet. Ali começava a surgir para as páginas dos jornais um certo grupo “Revoltados Online”.

Muito do que aconteceu após 2013 tem a ver, segundo o jornalista, com a saída de cena do MPL. “Entrou um monte de gente para ocupar esse espaço.”

Outra mudança observada desde então, passou a ser comum a ideia de que “todo mundo é jornalista” e pode fazer registros, opinar, produzir informação. “O que na época era um discurso de esquerda, hoje é principalmente da direita”, analisa.

Para ele, porém, é possível que a população esteja chegando hoje em uma estafa – um sinal é que as notícias mais lidas dos portais voltam ser celebridades, e figuras que se tornaram “influenciadores” na política, como Danilo Gentili, que tem evitado falar sobre o assunto publicamente.

Voltaremos um dia à programação “normal”? Ou o Brasil de Bolsonaro agora é o novo normal?