Seis meses após massacre em Suzano, sobrevivente tenta retomar sua vida

DHIEGO MAIA
***FOTO DE ARQUIVO*** SUZANO, SP - 29.03.2019 - Escola Raul Brasil em Suzano, na Grande São Paulo. (Foto: Julien Pereira /Fotoarena/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cinco meses e 30 dias depois, Jenifer Silva Cavalcanti, 15, sorri. A menina esperou esse tempo pela cirurgia que devolverá a ela a possibilidade de correr e usar biquíni.

A estudante é a última dos 11 sobreviventes do massacre da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (Grande SP), a voltar à mesa de cirurgia.

Ela foi operada nesta quinta-feira (12), um dia antes de o atentado completar seis meses. A cirurgia, em um hospital em Mogi das Cruzes (Grande SP), durou sete horas e retirou a bolsa de colostomia que ela usava e um projétil que ficou alojado perto de sua coluna. A menina passa bem e deve ficar internada pelos próximos dez dias.

A retirada da bolsa de colostomia é o mesmo procedimento a que foi submetido o presidente Jair Bolsonaro (PSL) em janeiro. Assim como Jenifer, conviveu com o equipamento preso ao corpo por meses após ter sido esfaqueado em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral, em setembro do ano passado.

"Estou tranquila. Encaro tudo isso como o fim de um ciclo e o início de outro na minha vida", disse ela, por telefone, de seu quarto do hospital, na véspera da cirurgia.

Naquele 13 de março, Guilherme Taucci, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25, entraram no colégio armados e executaram um massacre no estilo dos ocorridos nos EUA.

O Brasil havia sido palco de uma chacina semelhante em 2011 que deixou 12 estudantes mortos, além do atirador, que se suicidou, na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro.

No colégio de Suzano, os atiradores aproveitaram o intervalo e mataram a tiros cinco estudantes e duas funcionárias; antes de chegarem à escola, haviam matado um empresário, tio de Guilherme.

Ao final do massacre e percebendo a chegada da polícia, Guilherme matou seu comparsa e se suicidou.

O primeiro tiro que atingiu Jenifer transpassou seu ombro esquerdo. O segundo, que quase comprometeu seus movimentos, perfurou parte de seu intestino. Caída, a menina diz que aproveitou a poça de seu sangue para fingir estar morta e sair da mira de Guilherme, que verificava quem dos baleados estava vivo.

Ela descreve a sensação de impotência ao ver o colega Samuel Melquíades de Oliveira, 16, ser baleado na cabeça e cair morto a seus pés. "O atirador ainda exigiu que ele clamasse para ficar vivo", recorda. As cenas de violência ainda povoam a memória da adolescente, que faz terapia e lê a Bíblia.

Nos últimos seis meses, ela cumpriu os deveres escolares de casa --ela cursa o 1º ano do ensino médio. Voltar à Raul Brasil, diz ela, foi tranquilo. "Foi antes das férias de julho. Revi meus amigos. Tudo muito normal", afirma. "Não pretendo sair da escola. Quero encarar tudo de frente."

Quem também busca encarar a tragédia é o aposentado João Antonio Ribeiro, 61. Ele perdeu o filho Cleiton Antonio Ribeiro, 17, no massacre e desde então vive sozinho com os dois cachorros.

Claudilene, a primeira filha de João e de sua mulher, Marlene, 57, morreu por problemas de saúde, aos sete anos. A chegada de Cleiton, anos depois, reaqueceu o amor.

"Mas essa tragédia acabou com o meu casamento de 35 anos", diz. Marlene não conseguiu voltar para casa até agora. "Ela diz que tudo aqui em casa lembra o Cleiton".

João já fez de tudo para deixar o lugar com outra cara. A mulher, diz o aposentado, está na casa da irmã em Ferraz de Vasconcelos. O aposentado já sugeriu mudar de casa, de cidade e até de estado. "Mas ela não decide nada. Só chora."

João passou a tomar remédio para aliviar as palpitações no coração que surgiram há pouco tempo. Encurralado, tomou uma decisão drástica. Encaixotou itens que considera essenciais, como panelas, roupas, livros e uma blusa de que o filho gostava, e deu prazo para Marlene. "Se ela não se decidir até dezembro, pego meu carro e volto sozinho pra Bahia com meus cachorros."

Raul Brasil perdeu a alma, diz dirigente dos professores

Alunos e professores ouvidos pela Folha dizem que o clima continua tenso na Raul Brasil.

Estudantes choram pelos cantos e a presença de estranhos causa medo, diz Rhyllary Barbosa de Sousa, 16. "Os meus colegas sempre lembram, ficam bravos e tristes, mas é uma coisa que passa."

No dia do massacre, Rhyllary, que é aluna de jiu-jitsu, lutou com um dos atiradores e abriu passagem para a fuga de uma dezena de colegas.

Seis meses após a tragédia, a escola ganhou três psicólogos que ficam de prontidão. Também criou um esquema de segurança. "Mas a escola perdeu a sua alma", diz Ana Lúcia Ferreira, que representa os professores de Suzano na Apeoesp (sindicato da categoria).

Para a escola voltar aos trilhos, diz Ferreira, será preciso um projeto pedagógico de outra ordem. "A receita é intercalar projetos culturais e de lazer com o conteúdo programático, para tirar esse clima de tristeza. Só lousa e giz num lugar que passou por todo aquele trauma não resolve".

A contadora Juliana Ribeiro, 35, porta-voz da Associação de Pais da Raul Brasil, também se queixa da inexistência de um projeto diferenciado.

Adriana Silveira, 48, presidente da associação Os Anjos de Realengo, que reúne as famílias afetadas pelo massacre de 2011, diz que a Tasso da Silveira seguiu uma cartilha para não fechar as atividades.

"Além das questões de segurança, implantamos programas de prevenção ao bullying. Os pais foram convocados a participar do dia a dia da escola e os estudantes engajados a ajudar os colegas".

Mas Silveira adverte: "as coisas melhoraram, mas o trauma que sofremos vai demandar cuidados pra sempre. E assim será na Raul Brasil", diz.

Procurada, a secretaria de Educação sob a gestão de João Doria (PSDB) disse que criou programas de assistência psicológica e de segurança, mas não respondeu sobre o ensino na Raul Brasil.

A prefeitura de Suzano afirmou que os 41 psicólogos que passaram a atuar na cidade zeraram a fila de atendimentos das cerca de 300 pessoas atingidas diretamente pela tragédia.


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