Seis meses após a morte de arquiteto Paulo Mendes, IAB-ES faz campanha pela conclusão do Cais das Artes

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VITÓRIA — O conjunto robusto e inacabado de concreto na beira da Enseada do Suá, em Vitória (ES), resiste ao tempo. Há bastante tempo. Um dos últimos projetos de Paulo Mendes da Rocha, um dos maiores arquitetos do país e ganhador do Pritzker, considerado o “Nobel da Arquitetura”, começou a ser construído em 2012. O centro cultural Cais das Artes era o primeiro — e único — desenho feito para a cidade em que ele nasceu e passou a infância. Mas afundou em um imbróglio judicial que envolve falências, troca de empreiteiras e de governos. Agora, quase dez anos depois do início das obras, e meses depois da morte do arquiteto, a seccional do Instituto de Arquitetos do Brasil do Espírito Santo (IAB-ES) lançou uma nova campanha pela conclusão da construção.

Há duas semanas, integrantes do IAB-ES fizeram um ato em frente à obra paralisada, com o mote “Tudo isso era para acontecer aqui”, uma referência às manifestações artísticas que seriam contempladas no centro cultural. Nesta semana, o Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCE-ES) decidiu notificar duas secretarias e um órgão do governo estadual pelo abandono das obras do Cais das Artes.

— É um descaso sob todos os aspectos: político, administrativo, social, cultural. É um absurdo uma obra dessa envergadura estar parada — lamenta Geraldo Lino, presidente do IAB-ES.

Entre idas e vindas da obra, estima-se que os custos do projeto chegam a R$ 210 milhões.

O centro inclui um museu com uma área expositiva de 3 mil metros quadrados, teatro para 1.300 pessoas e orquestra, cafés, livrarias e espaços para espetáculos cênicos e exposições ao ar livre, e um prédio administrativo. Nos croquis da obra, Paulo Mendes escreve que aproveitou o “monumental confronto entre natureza e construção” na Enseada do Suá e projetou edifícios suspensos no ar, com as vistas livres e desimpedidas para a paisagem.

O edifício do museu é configurado por duas grandes vigas em concreto, paralelas e elevadas a três metros do solo. O teatro também é elevado do piso: apenas as áreas técnicas sobre o palco e o restaurante tocam o solo. Este, aliás, se abre a um passeio junto ao mar, coberto pelo próprio edifício do teatro, cujos pilares extremos estão literalmente dentro d’água. O concreto ainda se integra ao mar por uma grande esplanada que foi projetada como uma praça aberta para uso público, espetáculos, cafés, livrarias e exposições ao ar livre.

Do projeto à realidade, as obras estão hoje 70% concluídas, estima Lino. Algumas áreas, como a do prédio administrativo, estão bem adiantadas, com ar-condicionado instalado e tubulação passada. Por outro lado, o teatro mal está coberto.

— É uma arquitetura brutalista, com concreto, muito robusta. É para não acabar nunca. Paulo Mendes era um artista, um sonhador — diz.

Nascido na capital capixaba em 25 de outubro de 1928, Paulo Mendes fez carreira em São Paulo, onde criou os filhos e projetos renomados, como o do MuBe, o Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, a reforma da Pinacoteca do estado, o Sesc 24 de maio e o projeto original do Museu da Língua Portuguesa. O concreto aparente é uma tônica nas suas criações.

Mesmo estabelecido em São Paulo, Paulo Mendes visitou várias vezes a Enseada do Suá, principalmente durante a concepção e a entrega do projeto ao governo do ES. Com as travas nas obras e as limitações da idade, as viagens rarearam. O arquiteto morreu em maio deste ano, aos 92 anos, sem ver o Cais das Artes concluído.

— Fazer um projeto em Vitória era importante e significativo para o meu pai. Ele nasceu ali, foi batizado no convento em frente à obra. Era um espaço que remetia às origens dele — conta Joana Mendes da Rocha, filha do arquiteto.

A integração do projeto à baía é um reforço dessa memória, diz Joana, que plasmou a relação do pai com o mar no documentário “Tudo é projeto”, dirigido por ela e Patricia Rubano em 2017.

— Meu pai acompanhava o trabalho do meu avô, que foi engenheiro naval. Foi o que o levou a se interessar pela tecnologia e o domínio da natureza. Ele dizia que a arquitetura estava aí para tornar a natureza habitável, transformar um espaço hostil, como uma floresta ou a beira do mar, com o domínio da técnica.A casa em que Joana cresceu com o pai e os irmãos em São Paulo, a Casa Butantã é a concretização desse pensamento. Uma construção engenhosa feita para ser ocupada como uma casa.

— Nasci e cresci lá dentro. É mais que um espaço bonito e bem pensado, traz uma reflexão. Mostra o poder dos espaços — diz Joana, que lembra que o pai costumava dizer “que não precisávamos de mais palácios”.

— Era quase uma cutucada no Niemeyer. Paulo Mendes sempre tentou deslocar a agenda da arquitetura moderna para os temas realmente públicos, para os problemas da cidade — diz Rodrigo Queiroz, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), onde Paulo Mendes chegou a lecionar.

A obra do Ginásio do Clube Athletico Paulistano, de 1958, é dessas que se integra à vida da metrópole. Foi ela que lançou um jovem Paulo Mendes na arquitetura paulista.

— Ele criou uma verdadeira ginástica estrutural ali. Fez uma cobertura plana, rebaixou o piso da quadra para não fazer um ginásio no alto, fez uma praça em volta — conta Queiroz.

Depois que o arquiteto ganhou o Pritzker, as encomendas dispararam. Inclusive no exterior. Veio daí o projeto do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa.

— O projeto de Vitória é irmão do projeto do Museu dos Coches. Foram gestados próximos um do outro. Ele gostaria que tivessem ficado prontos juntos — diz o arquiteto Martin Corullon, que concebeu o Cais das Artes com Paulo Mendes.

Segundo o Departamento de Edificações e Rodovias do Espírito Santo (DER-ES), do governo do estado, as obras foram interrompidas duas vezes. Em 2012, a empresa responsável foi à falência e o contrato foi rescindido. Um ano depois, outra empresa assumiu até meados de 2015, quando houve nova interrupção. O governo da época rescindiu o contrato, a empresa entrou na Justiça, e desde então as obras estão paradas. O DER-ES afirma que está buscando na Justiça um acordo com a mesma empresa para que ela retome as atividades. Devido ao impasse, acrescenta, ainda não é possível estabelecer um prazo para a finalização do empreendimento.

— Seria uma alegria — diz Corullon. — É um projeto que, bem concluído, seria muito importante para a região e para a obra dele, mesmo ele não estando mais aqui. A obra fica

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