Seis poemas escritos por mulheres para ler no Dia Mundial da Língua Portuguesa

O Globo
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Dia Mundial da Língua Portuguesa é celebrado em 5 de maio
Dia Mundial da Língua Portuguesa é celebrado em 5 de maio

A língua portuguesa tem mais de 280 milhões de falantes espalhados pelo mundo e é o idioma oficial de nove países, entre eles Brasil, Angola, Moçambique e Portugal. No Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado em 5 de maio, selecionamos para as nossas leitoras seis poemas escritos por mulheres neste idioma, o quinto mais falado no mundo.

Adélia Prado, Noémia Sousa, Ana Paula Tavares, Maria Teresa Horta, Hilda Hilst e Ana Cristina César são autoras consagradas, que marcaram e ainda marcam a literatura em língua portuguesa. Leia um poema de cada uma delas abaixo:

'Moças das Docas', Noémia SousaMoçambique, 1926-2002

Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço.Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,viemos do outro lado da cidadecom nossos olhos espantados,nossas almas trancadas,nossos corpos submissos escancarados.

De mãos ávidas e vazias,de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,de corações amarrados de repulsa,descemos atraídas pelas luzes da cidade,acenando convites aliciantescomo sinais luminosos na noite.

Viemos ...Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,do doer espáduas todo o dia vergadassobre sedas que outras exibirão,dos vestidos desbotados de chita,da certeza terrível do dia de amanhãretrato fiel do que passou,sem uma pincelada verde fortefalando de esperança.

'Samba-Canção', Ana Cristina CésarBrasil, 1952-1983

Tantos poemas que perdiTantos que ouvi, de graça,pelo telefone – taí,eu fiz tudo pra você gostar,fui mulher vulgar,meia-bruxa, meia-fera,risinho modernistaarranhado na garganta,malandra, bicha,bem viada, vândala,talvez maquiavélica,e um dia emburrei-me,vali-me de mesuras(era uma estratégia),fiz comércio, avara,embora um pouco burra,porque inteligente me punhalogo rubra, ou ao contrário, carapálida que desconheceo próprio cor-de-rosa,e tantas fiz, talvezquerendo a glória, a outracena à luz de spots,talvez apenas teu carinho,mas tantas, tantas fiz…

'Poemas aos Homens do nosso tempo', Hilda HilstBrasil, 1930-2004

Amada vida, minha morte demora.Dizer que coisa ao homem,Propor que viagem? Reis, ministrosE todos vós, políticos,Que palavra além de ouro e trevaFica em vossos ouvidos?Além de vossa RAPACIDADEO que sabeisDa alma dos homens?Ouro, conquista, lucro, logroE os nossos ossosE o sangue das gentesE a vida dos homensEntre os vossos dentes.

***********Ao teu encontro, Homem do meu tempo,E à espera de que tu prevaleçasÀ rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheçasE convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantareiMinha própria rudeza e o difícil de antes,Aparências, o amor dilacerado dos homensMeu próprio amor que é o teuO mistério dos rios, da terra, da semente.Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeuCompaixão e ternura e paz na TerraSe ainda encontrasse em ti, o que te deu.

'Pequena cantiga à mulher', Maria Teresa HortaPortugal, 1937

Onde uma temO cetimA outra tem a rudezaOnde uma temA cantigaA outra tem a firmezaTomba o cabeloNos ombrosO suor pelaBarriga

Onde uma temA riquezaA outra temA fadiga

Tapa a nudezCom as mãosProcura o pãoNa gaveta

Onde uma temO vestígioTem a outraA pele seca

Enquanto deslizaO fatoPega a outra naEnxadaEnquanto dormeNa camaA outra arranja-lheA casa

'Com licença poética', Adélia Prado Brasil, 1935

Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou:vai carregar bandeira.Cargo muito pesado pra mulher,esta espécie ainda envergonhada.Aceito os subterfúgios que me cabem,sem precisar mentir.Não sou tão feia que não possa casar,acho o Rio de Janeiro uma beleza eora sim, ora não, creio em parto sem dor.Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.Inauguro linhagens, fundo reinos-- dor não é amargura.Minha tristeza não tem pedigree,já a minha vontade de alegria,sua raiz vai ao meu mil avô.Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.Mulher é desdobrável. Eu sou.

'Canto de nascimento', Ana Paula TavaresAngola, 1952

Aceso está o fogoprontas as mãoso dia parou a sua lenta marchade mergulhar na noite.

As mãos criam na águauma pele novapanos brancosuma panela a fervermais a faca de cortar

Uma dor finaa marcar os intervalos de tempovinte cabaças deleiteque o vento trabalha manteigaa lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noiteo silêncio abertode um gritosem som nem gestoapenas o silêncio aberto assim ao gritosolto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memóriaque acende a noite de palavrasdepois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher ardeno fogo de uma dor friaigual a todas as doresmaior que todas as dores.

Esta mulher ardeno meio da noite perdidacolhendo o rioenquanto as crianças dormemseus pequenos sonhos de leite.