"Sem anistia", pedem apoiadores de Lula que lotaram ruas de Brasília

Apoiadores de Lula em frente ao Palácio do Planalto

BRASÍLIA (Reuters) -Milhares de pessoas concentraram-se na Esplanada dos Ministérios em Brasília para a festa de posse do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, neste domingo, saudando o petista com músicas e bandeiras vermelhas, mas também cobrando punição de integrantes da administração Jair Bolsonaro.

"Sem anistia! Sem anistia", pediram os seguidores que estavam diante do parlatório do Palácio do Planalto depois que Lula fez uma série de críticas ao governo anterior e afirmou que a população havia sido vítima de da "lenta e progressiva construção de um genocídio".

"O Brasil bateu recordes de feminicídios, as políticas de igualdade racial sofreram severos retrocessos, produziu-se um desmonte das políticas de juventude, e os direitos indígenas nunca foram tão ultrajados na história recente do país", disse Lula, lendo o relatório produzido por sua equipe de transição.

Logo no início deste domingo, pessoas vestidas de vermelho circulavam pela cidade, ambulantes vendiam bandeiras com a foto do presidente e a bandeira do Brasil, e o tempo chuvoso da semana passada deu espaço ao sol, levando carros do Corpo de Bombeiros a jogarem água no público para aliviar o calor, em uma enorme afluência apesar da tensão em relação à segurança.

Além de comemorar a posse do petista após uma dura e acirrada disputa eleitoral, a multidão vermelha que tomou a esplanada --estimada em cerca 300 mil pessoas-- participou ainda na noite de domingo de festa com atrações culturais, o Festival do Futuro, popularmente conhecido, "Lulapalooza", em uma mistura de Ano Novo com Carnaval, com mais de 60 artistas em dois palcos nomeados em homenagem a Gal Costa e Elza Soares, falecidas em 2022.

Lula compareceu ao festival pouco depois das 23h, após participar de recepção no Itamaraty para chefes de Estado que vieram para a posse. Ele estava acompanhado da esposa Janja, que organizou o evento, e de seu vice, Geraldo Alckmin, e da esposa dele, Lu. O presidente fez um agradecimento aos apoiadores em uma rápida fala de cerca de oito minutos.

"Obrigado pelo que vocês fizeram pelo país e obrigado pelo que vocês ainda vão fazer, porque vocês irão nos ajudar a governar esse país", disse Lula à multidão.

"Eu estou aqui outra vez subindo a rampa do Palácio do Planalto para mostrar a vocês que é possível nós consertarmos esse país. Isso o Brasil deve a cada mulher, a cada homem, a cada adolescente que foi a urna votar, a cada pessoa com mais de 90 anos que compareceu à urna", acrescentou o presidente, que fez um agradecimento especial às mulheres, a quem prometeu trabalhar para garantir direitos iguais.

A artista e professora Déborah Santos, de 28 anos, viajou de Fortaleza para participar da posse e considerou este domingo um dia histórico.

"Eu sou nordestina, então tem um gostinho, uma felicidade enorme", afirmou, lembrando do peso da votação do Nordeste a favor de Lula.

"A gente está muito feliz de estar vivendo esse momento, de estar aqui com muita gente... pessoas maravilhosas. E querendo fortalecer a democracia e fazer com que ela aconteça da melhor forma possível. Está sendo incrível conhecer Brasília e estar vivendo esse momento tão lindo, tão lindo, tão lindo", disse a artista à Reuters.

Brasília passou a receber nos últimos dias gente de todos os cantos do país e já era perceptível o aumento do movimento no comércio e ruas da capital, normalmente esvaziados nesta época do ano. Moradores abriram as portas para receber os visitantes, alguns até mesmo a desconhecidos.

O educador e ativista cultural Jonathan Joca, de 27 anos, também de Fortaleza, afirmou ter viajado para prestigiar a posse alimentado por um sentimento de esperança.

"Todo mundo que está aqui acredita nessas expectativas de retomada de luta, de jornada da democracia, de lidar de fato com o compromisso social, comunitário, o compromisso republicano. De estar retomando uma república", disse Joca.

A preocupação com casos de violência na posse cresceu em meio a episódios de vandalismo e a segurança em Brasília foi reforçada após a prisão de George Washington de Oliveira Sousa, que confessou ter planejado um ataque à bomba em Brasília para provocar o caos antes de Lula subir a rampa.

Na manhã deste domingo, um homem de 31 anos foi detido pela Polícia Militar do Distrito Federal ao tentar entrar com uma faca tipo "peixeira" e fogos de artifício na cerimônia na Esplanada dos Ministérios. De acordo com a PM, o homem, que veio do Rio de Janeiro, foi detido no ponto de revista na entrada da festa e encaminhado à 5ª Distrito Policial na capital.

(Reportagem de Maria Carolina MarcelloEdição de Flávia Marreiro e Pedro Fonseca)