Sem apoio, frentista que nocauteou abusador desiste de lutar MMA e volta a trabalhar como manicure

Dois meses e meio atrás, a vida de Mari Damasio, de 22 anos, mudou completamente de maneira inesperada. Flagrada por câmeras de segurança revidando uma situação de abuso sexual em seu local de trabalho e nocauteando o responsável, a frentista de Porto Alegre viu o vídeo viralizar e torná-la famosa no Brasil inteiro. Deu entrevistas, apareceu na TV e acabou recebendo um convite do lendário ex-lutador de jiu-jítsu e MMA Wallid Ismail para entrar para o mundo da luta. Aceitou o desafio. Começou a treinar, a fazer dieta e a sonhar com uma nova carreira. Mas, depois de pouco mais de um mês, foi obrigada a abandonar os planos.

— Tive que desistir de lutar. Por causa dos gastos com passagem, com a alimentação adequada.... Wallid até tentou, mas não conseguiu um patrocínio, nem ajuda do governo. Ele tentou de várias formas, até com a prefeitura, mas é complicado. E eu estava sem trabalhar — conta ela.

Damasio explica que saiu do emprego no posto de gasolina após o episódio da agressão, porque o clima no lugar ficou muito ruim:

— Tive que pedir demissão. Depois que a história viralizou e consegui o convite para lutar, meus colegas ficaram contra mim, mesmo tendo a prova de que fui assediada. Por eu conhecer o rapaz, eles acharam que eu tinha que aceitar, eu acho, porque eu aceitava balas dele. A dona da loja de conveniência (onde o "nocaute" aconteceu) também ficou contra mim, foi capaz de mentir, dizer que o rapaz nunca tinha feito nada. Ficou muito chato, não tinha mais como eu trabalhar ali. Fiquei muito triste, por um bom tempo fiquei bem abalada, passei por um momento bem difícil.

Mesmo assim, sem o emprego do qual dependia para se manter, ela tentou dar os primeiros passos na nova carreira. Seguiu treinando forte: fazia exercícios de manhã e à tarde, de 13h às 17h, treinava na academia de Luciano Mutante, que aceitou preparar a então frentista de graça a pedido de Fabrício Werdum, ex-campeão do UFC, que por sua vez havia sido contactado por Wallid.

— Ainda tinha passagem no meu TRI (Transporte Integrado de Porto Alegre) para continuar treinando. Corria e pulava corda de manhã, estava na minha dieta, porque tinha um bom peso para perder. De tarde ia lutar na arena do Mutante, um ótimo mestre, aprendi muita coisa, mesmo em pouco tempo. Foi uma experiência incrível. Amei treinar lá. Mas não é assim fácil ganhar um dinheirinho para se manter nesse mundo da luta. Sei que não é do dia para a noite que se consegue — explica Damasio.

Wallid lamenta que o projeto não tenha ido à frente e que nenhum patrocinador tenha se disposto a ajudar a "guerreira".

— Realmente o esporte é uma guerra — diz ele: — Ela é uma pessoa sensacional. Estava indo bem, o problema foi não ter apoio para treinar. Foi o que falei desde o começo: oportunidade eu vou dar. Fiz uma coisa com ela que nem costumo fazer, que é arrumar professor para ela treinar. E ela estava treinando bem, o professor estava gostando....

Damasio acabou voltando a trabalhar como manicure, função que já havia desempenhado anos atrás, no salão de beleza de uma prima:

— A gente tem contas, tem que sobreviver, não tem como ficar sem nenhuma renda.Então, infelizmente, tive que desistir e procurar um serviço para ganhar dinheiro. A gente trabalha de dia para comer de noite, né? Não tive como ficar parada.

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