Sem apoio integral do PT, Marília vai mais pragmática ao 2º turno no Recife

JOÃO VALADARES
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*ARQUIVO* RECIFE, PE, 12.04.2018 - A petista Marília Arraes. (Foto: Avener Prado/Folhapress)
*ARQUIVO* RECIFE, PE, 12.04.2018 - A petista Marília Arraes. (Foto: Avener Prado/Folhapress)

RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - Classificada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "boa de briga" após ser escanteada por ele em 2018 numa estratégia nacional, a deputada federal Marília Arraes (PT), que enfrenta adversários dentro do próprio partido, chega ao segundo turno no Recife exibindo sua face mais pragmática.

Sem carregar o DNA petista em sua formação por ter sido criada na escola do PSB, a neta do ex-governador Miguel Arraes (1916-2005) conseguiu avançar em busca do voto mais conservador, considerado fundamental para vencer a disputa no segundo turno.

Seu adversário é o primo João Campos (PSB), bisneto de Miguel Arraes e filho do ex-governador Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo em 2014.

Pesquisa Ibope divulgada nesta quarta (18) aponta Marília com 53% dos votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos. João Campos aparece com 47% segundo o levantamento, que tem margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos.

Em dois dias, Marília obteve apoio de lideranças do PTB, Podemos e PL, todos no campo da direita e com boa representatividade no segmento evangélico do eleitorado.

Para a direita, está em jogo a quebra da hegemonia do PSB no Recife e em Pernambuco, iniciada em 2007, após a vitória de Eduardo Campos. O cálculo é que, derrotado João Campos, o caminho para o Governo de Pernambuco em 2022 é menos complicado.

O apoio que causou maior turbulência em parte do eleitorado petista foi o do prefeito reeleito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira (PL). Ele integra um grupo formado por irmão, cunhado e pai, todos políticos com grande inserção nas igrejas evangélicas e pautados pelo fundamentalismo religioso.

O PSOL integra a vice na chapa de Marília Arraes. Também declararam apoio a ela o ex-senador Armando Monteiro (PTB), que esteve com Mendonça Filho (DEM) no primeiro turno, e o presidente do Podemos, deputado Ricardo Teobaldo, cuja sigla abrigou a candidatura da delegada Patrícia Domingos.

Ela e Mendonça Filho, que juntos tiveram 39% dos votos, declararam neutralidade.

Nos bastidores, a movimentação rápida de Marília não surpreende. As articulações com adversários foram iniciadas antes mesmo das urnas serem abertas.

Na reta final do primeiro turno, ela conversou por telefone com o deputado Daniel Coelho (Cidadania), coordenador da campanha da delegada Patrícia Domingos, sobre possível apoio dele na fase final da disputa. Ele ainda não se posicionou, mas é grande a expectativa de que declare voto na petista.

Marília também tem excelente relação com o candidato derrotado Mendonça Filho (DEM). No ninho da família Campos, ela conta com o voto de Antônio Campos, presidente da Fundaj, órgão ligado ao Ministério da Educação. Ele é tio de João Campos e único irmão de Eduardo Campos.

"O Recife quer mudança. Embora tenha uma discordância com o partido e parte de forças que apoiam Marília Arraes, em homenagem ao meu avô Miguel Arraes, o meu voto pessoal é dela. Acho que ele ficaria muito feliz em vê-la prefeita", disse à reportagem.

A ministra do TCU (Tribunal de Contas da União) Ana Arraes não fala sobre eleições, mas, nos bastidores, torce para que a sobrinha Marília vença a disputa contra o neto João.

Marília iniciou sua vida pública no PSB, mas resolveu romper com Eduardo Campos após ser bloqueada por ele nas suas pretensões políticas dentro do partido.

Acusou Eduardo de controlar a sigla com mão de ferro, desrespeitar a democracia interna do partido e escolher "candidatos biônicos" para disputar eleições.

Só migrou oficialmente para o PT em 2016, na tentativa de se viabilizar em projetos majoritários.

Marília sempre enfrentou problemas com integrantes de uma ala do PT apelidada nas rodas políticas recifenses de "queijo do reino" por serem vermelhos por fora e amarelos --cor do PSB-- por dentro.

O seu principal adversário dentro do partido é o senador Humberto Costa. Ele trabalhou incansavelmente para que o PT não aprovasse a candidatura de Marília.

Em entrevista à Folha de S.Paulo em agosto, chegou a dizer que a militância não teria amor à causa se Marília disputasse a eleição. Ela enfrentou as instâncias locais e contou, dessa vez, com a anuência de Lula.

Tocou a campanha com um pequeno grupo, fiel ao seu posicionamento desde 2018. Humberto Costa ficou de fora. No domingo (15), após o resultado das urnas, ele telefonou para parabenizá-la e se colocar à disposição no segundo turno. Marília agradeceu e disse que retornaria a ligação depois.

No Recife, ela também encontrou forte resistência do ex-prefeito João da Costa (PT) e de Oscar Barreto, ex-secretário do prefeito Geraldo Julio forçado a entregar o cargo em outubro. João da Costa disputou a eleição para vereador e acabou derrotado.

O grupo de Humberto Costa ainda ocupa o primeiro escalão da gestão Paulo Câmara (PSB) no governo estadual. O secretário de Agricultura, Dilson Peixoto (PT), permanece no cargo.

O Governo de Pernambuco informou que o PT fez parte dos 12 partidos que compuseram a Frente Popular em 2018 e que, desde então, contribui com o gestão.

Com o segundo turno entre PT e PSB, João Campos começou a atacar de maneira enfática as gestões petistas no Recife. Em um debate chegou a dizer que causava estranheza uma candidata do PT falar de corrupção.

A elevação da temperatura pode causar a união do partido em torno de Marília. Dependendo da intensidade da munição utilizada pelo PSB, os principais líderes petistas no estado, mesmo aqueles que remaram contra o barco de Marília, devem sair em defesa do partido.

Antes de romper com o PSB, Marília se elegeu pela primeira vez vereadora do Recife em 2008, quando Eduardo Campos já era governador de Pernambuco.

Em 2013, ela chegou a ocupar a Secretaria de Juventude e Qualificação Profissional na primeira gestão de Geraldo Julio (PSB), que era o apadrinhado político de Eduardo Campos.

O rompimento com o PSB começou a se desenhar mais claramente no início de 2014, ano em que Eduardo se lançou candidato à Presidência.

Marília preferiu ficar já no primeiro turno da eleição presidencial ao lado de Dilma Rousseff (PT). Dois anos depois, já filiada ao PT, Marília se reelegeu vereadora do Recife.

Em 2018, após ser estimulada por Lula, ela sonhava em disputar o Governo de Pernambuco contra Câmara. Conseguiu o apoio do diretório estadual, mas uma intervenção nacional a retirou da disputa após costura entre PT e PSB, feita pelo próprio Lula, para isolar a candidatura presidencial de Ciro Gomes (PDT).

Neste ano, Marília viveu o inverso. Conseguiu o apoio do PT nacional, mas os diretórios municipal e estadual votaram pela aliança com o PSB. Bateu o pé e conseguiu seguir. Chegou ao segundo turno da mesma maneira que entrou: sem o apoio integral do partido.