Sem apoio de Lula, ex-presidente do BC pode ser eleito hoje primeiro brasileiro presidente do BID

Mesmo sem apoio formal do novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central e atual diretor licenciado do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), pode ser eleito para presidir o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) neste domingo.

Se isso ocorrer, ele será o primeiro brasileiro no comando da instituição em mais de 60 anos.

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A eleição está marcada para a manhã deste domingo, durante a reunião híbrida da Assembleia de Governadores do BID.

O escolhido vai substituir Mauricio Claver-Carone, americano indicado no governo Donald Trump, mas que deixou o cargo no mês passado após denúncias de que mantinha um relacionamento com sua chefe de gabinete.

Ilan Goldfajn foi indicado por Paulo Guedes, ministro da Economia, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. Após a eleição de Lula, porém, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega pediu o adiamento da eleição para a presidência do BID, tendo enviado cartas à secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, e aos governos de Chile, Colômbia e Argentina.

Apesar do movimento de Mantega — que sustentava que o governo Lula teria outro indicado para o cargo — o nome de Ilan foi confirmado como candidato do Brasil. Sua candidatura ganhou ainda mais força depois que Celso Amorim, ex-chanceler e à frente da área de Relações Internacionais da equipe de transição de Lula, ter afirmado em entrevista que o presidente eleito “não se opõe” ao nome de Ilan para o BID.

Posição alinhada à agenda de Lula

A atuação de Mantega, que acabou deixando o time de transição do novo governo, chegou a impulsionar os candidatos do Chile, Nicolás Eyzaguirre, ex-ministro da Fazenda nos governos de Ricardo Lagos e de Michelle Bachelet, e do México, Gerardo Esquivel Hernández, vice-presidente do Banco Central mexicano, o Banxico. A nova posição do governo de Lula, no entanto, voltou a dar força ao nome de Ilan.

Os outros dois candidatos concorrendo são Cecilia Todesca Bocco, indicada pela Argentina, e Gerard Johnson, por Trinidad e Tobago.

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Os cinco passaram por uma sabatina aos governadores do BID — todos eles são ministros da Fazenda ou outra autoridade econômica dos 48 países membros do banco, incluindo nações doadoras — no último dia 13. Ilan defendeu uma agenda alinhada à do governo Lula, ancorada em ações para combater mudanças climáticas e reduzir a pobreza.

Para ele, a extrema desigualdade, a baixa produtividade, a infraestrutura deficiente e a fraca capacidade de ação dos governos são os principais problemas da região. E frisou ser preciso trabalhar para promover crescimento equitativo, sustentável e inclusivo.

O candidato brasileiro destacou ainda que o BID pode colaborar de forma estratégia com políticas públicas para promoção de igualdade e diversidade, sobretudo em áreas como educação, saúde e trabalho.

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Como funciona a eleição

Para ser eleito presidente do BID, o candidato tem de somar mais de 50% do poder de votos, ou o equivalente a 15 dos 26 votos de países membros mutuários da região, mais Estados Unidos e Canadá, além de ter 25 do total de 48 votos.

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Os países têm pesos diferentes em poder de voto. A maior fatia é a dos EUA (30%). Depois, vêm Brasil e Argentina, com 11,35% cada; México, com 7,29%; Canadá (4%); Venezuela (3,4%) e Chile e Colômbia, com 3,11% cada.

Como as nações caribenhas votam em bloco, dificilmente um candidato leva 15 dos 28 votos em poder de voto numa primeira votação, que poderá, assim, ter dois turnos.