Sem atendimento, porta do Hospital Pedro II vira ponto de venda de planos de saúde

Giovanni Mourão
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Negócio: o consultor de vendas Mario Marçal passou a buscar clientes na porta do Pedro II há cerca de três meses

A crise que assola a saúde no município do Rio fez com que a porta do Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz, se tornasse um ponto de venda de planos de saúde. Na manhã deste sábado (14), enquanto dezenas de pessoas tentavam, sem sucesso, um atendimento emergencial na unidade hospitalar, em Santa Cruz, um consultor de vendas de diferentes convênios panfletava no local procurando fechar mais negócios. Os funcionários do hospital, que só atendem casos de extrema urgência por estarem atuando em número reduzido, estão com dois meses de salários atrasados devido à falta de repasses financeiros da prefeitura.

O consultor Mario Marçal contou que passou a buscar clientes no local há cerca de três meses, quando diz ter percebido que uma crise atingia a unidade hospitalar administrada pela organização social (OS) SPDM. De lá para cá, diz já ter fechado mais de 45 negócios.

— As saem do hospital no desespero por não serem atendidas. É lamentável ter que dizer isso, mas só vou parar de panfletar por aqui quando essa situação mudar — disse o profissional, que oferece convênios que variam de R$ 74 a R$ 1,5 mil mensais, dependendo da carência, da idade do cliente e da cobertura escolhida.

Funcionários da unidade relataram que a emergência vem funcionando com apenas um médico de plantão, que vem atendendo apenas casos considerados gravíssimos. Os demais pacientes estão sendo encaminhados ao Hospital Municipal Rocha Faria, em Campo Grande, como ocorreu com o diabético Carlos Eduardo Magalhães, que, acompanhado de sua tia, pegou um Uber em Seropédica, cidade onde mora, e teve o atendimento negado.

— Ele não pode andar porque está com infecção grave em dois dedos do pé direito, que foram amputados há dois anos devido à doença dele. Quando chegamos, mediram a glicose do meu sobrinho e falaram que era caso de internação e, por isso, ele teria que ir para o Rocha Faria porque não estão recebendo internações, só emergências graves — contou Irene Magalhães, tia de Carlos.

Enquanto a equipe do GLOBO entrevistava pacientes e funcionários na portaria da unidade, motoristas que passavam em frente ao local buzinavam e se manifestavam contra o prefeito Marcelo Crivella. Por volta de 11h, a paciente Gecilda Silva Pereira, de 50 anos, saía do hospital também sem ser atendida, mesmo sofrendo fortes dores nos rins, vesícula e estômago.

— Eu estou com complicações no estômago, mas não fui atendida porque não tem médico. Eu sabia da crise, mas arrisquei vir porque não aguentava mais sentir dores em casa. A culpa não é dos enfermeiros e médicos, mas sim desse prefeito que está acabando com a nossa cidade — lamentou a moradora de Paciência, que chorava de dor ao lado de seu companheiro, Carlos Alberto Mota.

Outra vítima da falta de assistência médica no Pedro II encaminhado ao Rocha Faria foi o aposentado Abalberto Batista de Souza, que machucou o pé em casa e não conseguia andar direito:

— A dor é tão grande que acredito que rompi o calcanhar de aquiles. É um revoltante constatar o estado em que a nossa saúde chegou e o prefeito aparecer na televisão dizendo que não existe crise.

A idosa Lenita de Oliveira Orem está com seu marido internado no Pedro II há 20 dias. A situação dele e de todos os internados está precária e tanto os funcionários quanto os pacientes demonstram desespero com o estado em que se encontra o hospital, afirmou.

— A comida não tem hora para chegar, a roupa não tem hora para ser trocada e o lixo acumula. Eu sou deficiente e não posso ficar em pé no hospital noite e dia, porque até para se arrumar uma cadeira é preciso implorar. Os funcionários dizem que estão fazendo o que podem, que estão sem salários. Enquanto isso, o prefeito não libera os dinheiro dos pagamentos. O problema é que as pessoas daqui do Rio tem medo de falar do Crivella, mas eu não tenho — reclamou a moradora de Nova Iguaçu.

Generalizada, a falta de pagamento de salários não afeta somente médicos e enfermeiros, mas também funcionários da manutenção do hospital. Um deles é Alex Sandro Viana, que está lá desde 2015. Terceirizados afundados em dívidas estão pedindo dinheiro até para agiotas, disse.

— Eles não estão nos pagando nada, só a passagem, justamente para depois dizerem que não temos motivos para faltar. Enquanto isso, as contas estão chegando para pagar, e tem muito trabalhador aí no hospital pedindo empréstimo no banco e para agiotas, arriscando a própria vida para poder colocar comida dentro de casa — relatou.

Trabalhando desde 2012 no Pedro II, o segurança Claudecir Martins disse nunca ter visto uma crise tão grande na unidade. Segundo ele, este foi o sábado com menor movimento no hospital desde que passou a atuar lá:

— Muitos já sabem da situação do hospital e nem se arriscam a vir, por isso o movimento diminuiu. Já são dois meses sem salário e sem um posicionamento da prefeitura. Os médicos e enfermeiros estão em greve, pautados pelo sindicato deles. Como nós não temos sindicato, continuamos trabalhando dia e noite sem receber.

Revoltado, o cozinheiro Carlos Antunes disse que, desde que foi contratado, há mais de quatro anos, é a primeira vez que se acumulam dois meses de salários atrasados.

— Como pode o prefeito aparecer na televisão com aquela cara lavada falando que não é responsável pelos funcionários da OS. Ele é responsável sim, é ele quem tem que dar um jeito. Se o Crivella não faz os repasses às empresas, como elas vão nos pagar? Vão tirar do próprio bolso? A diretora do hospital, coitada, trabalha atordoada todos os dias porque também não tem como ajudar — desabafou.

Até o momento, a prefeitura ainda não respondeu aos questionamentos da reportagem.