Sem BBB e com novelas reprisadas, CPI ocupa espaço no entretenimento dos brasileiros

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Brazilian Senator Omar Aziz speaks during a news conference after a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil April 27, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Durante a CPI da Covid, senadores têm se mostrado ativos nas redes sociais, enquanto espectadores fazem até "tempo real" dos depoimentos (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Não tem mais Big Brother Brasil, as novelas que estão no ar são reprises, até a Liga dos Campeões acabou... O que resta ao brasileiro é comentar a Comissão Parlamentar de Inquérito que acontece no Senado Federal para analisar o comportamento do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19.

De terça a quinta-feira, dias em que os depoimentos costumam acontecer, as redes sociais se enchem de memes e a linha do tempo se transforma em um “tempo real” das falas dos depoentes e senadores presentes na CPI.

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Perfis similares aos que comentam o BBB e outros realities comentam a CPI. Produtores de conteúdo abrem lives em plataformas de streaming para falar sobre os depoimentos ao mesmo tempo em que acontecem. Mas, esse processo de espetacularização é assim tão novo?

Especialista em comunicação, doutor em Sociologia pela Université Paris Descartes (1992) e doutorado e professor da PUC-RJ, Juremir Machado não se surpreende com a espetacularização da CPI da Covid. “As CPIs são sempre palco de disputa política, com muitas manobras e os políticos são sempre performáticos”, pontou. As redes sociais potencializam os aspectos que já existiam.

Interações de senadores nas redes sociais

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), e o relator, Renan Calheiros (MDB-AL), têm se destacado pela intensa participação nas redes sociais ao longo do processo de inquéritos da comissão.

Enquanto Aziz responde a muitas pessoas no Twitter, Renan Calheiros abre até caixas de pergunta para que os seguidores possam sugerir questões a serem feitas para os depoentes que vão ao Senado. É comum ouvir Calheiros anunciar que a pergunta que será feita "veio dos internautas". 

Relator da CPI da Covid, Renan Calheiros abre caixas de perguntas no Instagram para receber sugestões de seguidores (Foto: Reprodução)
Relator da CPI da Covid, Renan Calheiros abre caixas de perguntas no Instagram para receber sugestões de seguidores (Foto: Reprodução)

Nos intervalos da CPI, senadores têm tempo de conferir as redes sociais - o que pode até ajudar a pegar os depoentes mentindo. Aconteceu durante o depoimento do ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten. Na comissão, ele alegou que não aprovou campanhas contra o isolamento social porque estava com covid-19 e, portanto, afastado do cargo.

Rapidamente, usuários das redes sociais recuperaram um vídeo de Wajngarten, durante uma live com Eduardo Bolsonaro, em que ele afirma que, mesmo quando estava com covid, continuou trabalhando e aprovando as campanhas publicitárias do governo federal.

A fala foi reproduzida na CPI por senadores da oposição e deu mais material para provar que havia contradições no depoimento do ex-chefe da Secom.

Juremir Machado avalia que a performance dos senadores nas redes sociais lembra reality show e até veículos de comunicação, que se utilizam da participação de espectadores e ouvintes. “Tem um pouco de BBB, parece um programa de rádio ou uma live, em que todo mundo participa. É um pouco demagógica essa parte”, avalia.

Deysi Cioccari, pós-doutora em ciência política, concorda com a avaliação de Machado e lembra a CPI aberta para investigar o então presidente Fernando Collor, em 1992.

“As CPIs sempre foram midiáticas. A do Collor, em 1992, foi amplamente matéria de jornais, revistas e tv. A questão é que os meios mudaram. Hoje conseguimos acompanhar on-line e nossa referência é o BBB. Nesse sentido, pode-se dizer sim, que ganhou contornos de reality. Mas não podemos esquecer que política é espetáculo desde que o mundo é mundo. Luiz XIV, na França, era conhecido como rei Sol, justamente pelo espetáculo político que promovia. O que mudam são os meios”, avalia.

Para Juremir Machado, os políticos estão aproveitando a audiência da CPI para se reinventarem. É o caso de Renan Calheiros que, agora, mostra primar pela transparência. “Claro que os senadores estão aproveitando para jogar para a plateia, mas é algo que eles já fizeram, mas por outros meios. Eles sabem que as pessoas estão vendo e tuitando ao mesmo tempo, e se aproveitam disso, mas o jogo é o mesmo”, afirma.

Deysi Cioccari acredita que a espetacularização da CPI da Covid não traz prejuízos ao processo, ao contrário da falta de preparo de alguns parlamentares. “O sucesso eleitoral de políticos torna-se proporcional ao grau de identificação que conseguem arrebatar através de sua exposição midiática. Não vejo como um prejuízo a CPI esse fato. A falta de objetividade, a falta de imparcialidade e o despreparo, sim, mas as redes sociais, nesse caso, não têm prejuízo direto. A desinformação, muita”, aponta.

Pandemia intensificou a espetacularização da CPI?

As respostas de Juremir e Cioccari divergem.

O professor de Comunicação acredita, assim como aconteceu com o BBB, o fato de as pessoas estarem em casa ajuda a turbinar a audiência. Trabalhar de casa permite que muitos brasileiros assistam programas que não poderiam assistir se estivessem no escritório, isso funciona tanto para a CPI quanto para o Big Brother.

Juremir aponta que o mesmo processo aconteceu com os julgamentos no Supremo Tribunal Federal, que ganharam mais audiência – e comentários nas redes sociais – durante a pandemia. Discussão entre ministros chegaram a ser comparados com o “jogo da discórdia” do BBB.

“A CPI é a grande novela do momento. O BBB acabou, as novelas estão sendo reprisadas. Então, o que tem agora com esse ambiente de jogo, de disputa, de pegar em flagrante, é a CPI. A CPI é o grande espetáculo do momento”, aponta.

Já Deysi Cioccari acredita que a espetacularização dos processos políticos é intrínseca na sociedade. Um exemplo, para a cientista política, é a própria Operação Jata Jato. “É um processo que não tem como fugirmos. Repito: as estratégias políticas são voltadas a viabilizar informações que possam repercutir na imprensa e nas redes sociais”, diz.

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