Sem Bolsonaro, Macron pode voltar a olhar para a América Latina

O presidente francês, Emmanuel Macron, viajou para a América Latina apenas uma vez, para o G20 da Argentina em 2018, mas a vitória de Lula e seus esforços de mediação na Venezuela agora podem permitir que olhe para a região.

"Macron não deve desperdiçar esta oportunidade. Acho que deve ir à posse de Lula em 1º de janeiro e levar a França de volta à América Latina", disse à AFP o cientista político Gaspard Estrada.

O presidente francês viajou para Buenos Aires em 2018 para uma reunião multilateral do G20. "Por causa da pandemia, o presidente não teve a oportunidade de ir bilateralmente" a nenhum país latino-americano, defendeu a Presidência francesa na terça-feira.

A União Europeia (UE) é o terceiro parceiro comercial da América Latina, atrás dos Estados Unidos e da China, com 176 bilhões de euros em negócios em 2020 (quase 179 bilhões de dólares no câmbio atual), segundo a Fundação UE-ALC.

Em um contexto de "grande mudança política", como no Brasil, Chile e Colômbia, "a França, que estava muito afastada da América Latina, está se aproximando", disse à AFP a deputada do partido governista Éléonore Caroit, eleita pelos franceses na região.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na principal economia e potência regional abre caminho para essa aproximação com uma região que compartilha com a UE uma visão de combate às mudanças climáticas e ao multilateralismo.

Os gigantescos incêndios na Amazônia em 2019, de fato, romperam as relações de Jair Bolsonaro com a Europa, a ponto de não haver retorno com o líder francês, cuja esposa Brigitte Macron foi insultada pelo presidente por seu físico.

- Brasil, "um parceiro inevitável"-

"Esperava com muita impaciência esse momento para podermos relançar uma parceria estratégica à altura da nossa história e dos desafios que temos pela frente", disse Macron a Lula em seu primeiro telefonema após a vitória do petista.

A França considera o Brasil um "parceiro inevitável na América Latina", com o qual também partilha a sua maior fronteira terrestre na região, afirmou na terça-feira a secretária de Estado para a Europa, Laurence Boone, antecipando um novo roteiro "nos próximos meses".

França e Brasil lançaram uma associação estratégica em 2006, com o conservador Jacques Chirac e Lula no poder, respectivamente, que "começou a declinar" em 2016 durante a presidência de Michel Temer até atingir níveis mínimos com Bolsonaro, explicou Gaspard Estrada.

O especialista do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc), da prestigiosa universidade Sciences Po, assegurou que as discussões de ambas as potências, com uma rica relação bilateral, "têm impacto em nível global".

Mas a posição do Brasil sobre a guerra na Ucrânia pode ser um obstáculo. "Macron gostaria que tomasse uma posição mais explícita sobre a condenação da guerra" como "sanções", mas o Brasil precisa de fertilizantes russos para sua agricultura, afirmou.

A atual edição do Fórum de Paris sobre a Paz mostra esse interesse renovado da França. Nesta quinta-feira, o centrista Macron recebeu seus pares de esquerda da Colômbia, Gustavo Petro, e da Argentina, Alberto Fernández, no Palácio do Eliseu.

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