Sem citar encontro com Lula, Ciro defende diálogo 'com quem for necessário'

Dimitrius Dantas
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SÃO PAULO - No dia em que o GLOBO revelou o encontro ocorrido entre o ex-presidente Lula (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) em setembro, o pedetista foi às redes sociais para defender o diálogo com "quem for necessário" como contraponto ao presidente Jair Bolsonaro. Segundo Ciro, a discussão gira em torno da defesa do impeachment, a discussão de alternativas de mudanças do modelo econômico e a proteção do patrimônio nacional.

— Ao redor desses valores, considero-me mais que autorizado, sinto-me obrigado a construir, no que estiver ao meu alcance, o diálogo possível com quem for necessário para proteger a nação brasileira — escreveu Ciro Gomes, que foi candidato à Presidência em 2018.

Em nenhum momento, o pedetista citou o nome do ex-presidente ou até mesmo do partido. Ciro destacou ainda que o PDT fez alianças ao redor do país com partidos de centro-esquerda com o PSB, mas também está em coligações com o PSD, em Belo Horizonte, com o DEM, em Salvador e São Luís, e com o PSOL em Florianópolis e Belém. Ele não mencionou o PT.

De acordo com Ciro, o diálogo é relevante sobretudo para as eleições municipais. Segundo ele, a eleição de "bons prefeitos e prefeitas, vereadores e vereadoras" será essencial para "mitigar a gravissima extensão da crise" que, segundo ele, se agravará em 2021.

— Isso não muda em nada minha compreensão ao redor do atual momento brasileiro -- disse, Ciro, que completou: — E, também, estou tentando ajudar para que esse voto auxilie na construção de um caminho alternativo, que ofereça ao Brasil as bases de um novo projeto nacional de desenvolvimento, encerrando a confrontação odienta e despolitizada que tem dividido de forma perigosa a nação brasileira.

Segundo revelou o GLOBO, a trégua entre Ciro e Lula, que trocaram farpas nos últimos dois anos, foi intermediada pelo governador do Ceará, Camilo Santana, filiado ao PT mas aliado dos irmãos Ciro e Cid Gomes. O tema central da conversa foi o governo Bolsonaro e a situação do país diante da pandemia de coronavírus. Diagnósticos sobre as razões do resultado eleitoral também foram apresentados.

Nas redes, aliados comemoraram a reunião. Candidato a prefeito em São Paulo pelo PCdoB, Orlando Silva afirmou que a reunião seria a mais importante notícia política do ano, com significado muito além do eleitoral.

— É o reconhecimento que divididos daremos força à extrema-direita, mas unidos derrotaremos o fascismo! Que comece a ser formada a frente ampla! — escreveu o deputado federal.

Em conversa com o GLOBO, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, avaliou a reunião como positiva, sobretudo se ela significar uma mudança de postura do PT, que ele enxerga como "hegemonista" no campo da esquerda.

— É positiva e talvez tenha se dado pelo fato de que o PT começou a perceber que essa proposta de exclusivismo, de sair sozinho nas eleições e ignorar a necessidade de unir o campo da esquerda, é ruim. Se for isso, é um reconhecimento muito bom. Deveria ter acontecido já nas eleições municipais — afirmou.

Presidente do PSOL, Juliano Cardoso também afirmou que a reunião é um bom sinal, sobretudo para a organização da oposição ao governo Bolsonaro.

— Nós do PSOL temos diferenças com ambos mas o clima estabelecido dificultava o diálogo para que a oposição tivesse uma ação mais coordenada contra o Bolsonaro — disse.