Sem comprovante de residência, profissionais de saúde de fora de São Gonçalo são vacinados no município

Rafael Nascimento de Souza
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Era pouco antes das 5h e a fila para a vacinação da Covid-19 no pólo sanitário Washington Luiz Lopes, no Zé Garoto, no Centro de São Gonçalo, já dava voltas. Às 8h, horário de abertura da unidade de saúde, mais de 300 pessoas esperavam pelo atendimento. A grande maioria era de jovens com idade entre 23 e 40 anos, vindos do Rio e de municípios vizinhos a São Gonçalo. Enquanto os mais novos aguardavam a vez, idosos com mais de 80 anos — que entraram na fila em busca da dose — eram informados que não receberiam a vacina. O quadro chamou a atenção da Defensoria Pública estadual, que pretende levar o caso à Justiça.

Foi o caso da aposentada Alzira Lobo Lopes, de 82 anos. Mãe de três filhos, avó de três netos e de dois bisnetos, a moradora do bairro de Neves acordou pouco antes das 4h30. Com a manhã já chuvosa, pegou uma condução em direção ao Centro da cidade. Durante quase duas horas, Alzira ficou sob forte chuva até, por volta de 7h20, ser informada que não se enquadra no calendário da prefeitura.

Frustrada, a idosa ainda tentou argumentar com um funcionário do polo de saúde, em vão.

— Disseram que não me enquadro. Eu sai casa na esperança de ser vacinada. Mas, vou ter que voltar para casa. O mais frustrante é saber que jovens de vinte e pouco antes estão sendo vacinados e para os idosos não tem data. Olha a quantidade (de pessoas novas) — lamentou a aposentada.

Alzira foi orientada a acompanhar o calendário de vacinação pela internet.

— Disseram que tenho que seguir o site. Não tenho computador, não sei mexer na internet. Terei que ficar vindo sempre? — questionou.

Segundo o site da Prefeitura de São Gonçalo, até agora, a cidade já recebeu 13.280 frascos de imunizantes — entre doses de CoronaVac e AstraZeneca.

Desde o começo da semana, o município abriu o plano de imunização para a vacinação para profissionais da Saúde de qualquer categoria e sem limitação de idade ou de endereço. Psicólogos, fisioterapeutas, veterinários e profissionais de educação física da capital, Niterói, Maricá e de diversas cidades do estado estão na corrida para receberem as doses na cidade.

A situação na cidade chamou a atenção da Defensoria Pública estadual, que pretende acionar a Justiça para reverter o quadro. O órgão critica a falta de controle do município sobre a origem dos vacinados e defende que, para evitar que os moradores da cidade fiquem sem o imunizante, a postura correta seria exigir alguma comprovação de vínculo com São Gonçalo.

No caso da psicóloga Mariana Oliveira, de 25 anos. Moradora de Botafogo, na Zona Sul do Rio, a jovem foi até a cidade vizinha para se vacinar. A profissional garante que ficou sabendo que poderia receber as doses através das redes sociais e de amigos.

— Muitos amigos já tinham vindo ontem e disseram que eu conseguiria também. A única coisa que falaram era que tinha que chegar cedo, às 6h — diz Mariana que chegou na fila pouco depois das 7h30, e foi imunizada às 10h10.

Questionada se ela não estava tirando a vaga de um idoso ou profissional de saúde da linha de frente do tratamento da Covid-19, a psicóloga disse que “a questão é subjetiva”.

— É subjetivo dizer se tiro ou não. Se temos direito, por que não? O que não concordo é de pessoas, e conheço algumas, que não estão atuando na área e estão ativando o conselho só para receber a vacina. Tenho amigas que estão fazendo isso — afirmou.

Agora, depois de liberar a vacinação para todos da área de saúde, a Secretaria municipal de Saúde de São Gonçalo teme a escassez de doses para quem é da cidade. Atualmente, e por causa da grande procura, já se esgotaram as doses nas clínicas Dr. Zerbini, no Arsenal e Mutondo, e no Polo Sanitário Dr. Augusto Sena, em Rio do Ouro. Nesta manhã, ainda há vacinas no pólos sanitários Washington Luiz, no Zé Garoto, e Hélio Cruz, em Alcântara.

Temendo a falta de vacina, a secretária de um consultório de dentista de Niterói, Márcia Carneiro, de 55 anos, foi uma das primeiras a receber a dose do imunizante, no Zé Garoto. Ela foi a segunda da fila nesta sexta-feira. O marido dela madrugou no local para garantir a vacina. Márcia chegou pouco depois das 6h, e foi vacinada duas horas depois.

— Trabalhando com dentista, eu estou na linha de frente e podemos nos contaminar com as gotículas dos pacientes — justifica Márcia para ter recebido a vacina.

A secretária conta que foi o patrão que a orientou a procurar a unidade de saúde.

— Na quarta-feira eu estive na unidade de saúde do Arsenal, mas só tinham 15 doses. Pela hora que cheguei, elas já tinham acabado. Agora, estou vacinada, e nem doeu.

“Isso é uma vergonha”

Pedestres que passam pela Rua Coronel Moreira César, ao lado do polo de saúde, opinavam sobre a falta de idosos e a alta presença de pessoas jovens à procura da vacina.

Pouco depois das 7h, um motociclista passou e gritou: “isso é uma vergonha. Tem que vacinar são os idosos e quem tá na linha de frente”.

“Eu espero que todos esses aí estejam na linha de frente”, disse outra pessoa.

A todo tempo um funcionário do local caminha informando quem pode ou não ser vacinado. Ela grita que “qualquer pessoa, independente da idade, e que comprove ser da área da saúde pode receber a dose”.

Às 9h, o número de pessoas aguardando por atendimento fez com que a fila chegasse até a Igreja Católica São Gonçalo do Amarante, conhecida como Igreja Matriz.