Sem consenso: designers divergem sobre novo logotipo do governo federal

Tem sido praxe, desde a redemocratização do Brasil: a cada novo presidente, troca-se também a identidade visual do governo federal. No dia 1º, durante a posse do presidente Lula, foi divulgado o novo logotipo que acompanhará a atual gestão. A palavra “Brasil” ganhou cores vibrantes em letras blocadas. Embaixo, um slogan acompanha a peça: “União e reconstrução.”

A nova marca substitui a adotada nos quatro anos de Jair Bolsonaro à frente do Executivo, um símbolo inspirado na bandeira do Brasil que trazia a mensagem “Pátria amada”.

Desde que vazou, antes mesmo da divulgação no dia da posse, o logotipo do atual governo causou reações distintas nas redes sociais. Houve quem o criticasse pelo excesso de cores, outros elogiaram pelo tom mais alegre.

Responsável pela identidade visual da Olimpíada de 2016, que ocorreu no Rio de Janeiro, o designer Fred Gelli diz que, num primeiro momento, a nova identidade do governo lhe causou estranhamento. Depois, acabou gostando.

— Há uma série de aspectos criticáveis — diz Gelli. — Ela tem um caráter meio naïf. Tecnicamente, não é sofisticada, não tem um estudo tipográfico profundo. Mas, quando eu vi o logo atrás do Lula com os ministros, entendi um pouco melhor. Tem ressonância com o momento desse governo. É democrática, fácil de entender, são blocos que falam de reconstrução. O design está a serviço da estratégia. Nesse sentido, não acho mesmo que caberia uma marca muito sofisticada. O saldo me parece adequado.

Para o cenógrafo, arquiteto e artista visual Gringo Cardia, o novo logotipo é o melhor desde o governo Sarney, quando começaram a ser desenhados após o período de ditadura militar.

— Achei a melhor de todas. Ela tem uma coisa da diversidade, de ter várias cores. Quanto à forma, é bem mais limpa. E tem traços modernistas que me remetem a Niemeyer — afirma.

Procurada pelo repórter, a Secretaria de Comunicação do governo ainda não se pronunciou sobre a autoria do logotipo. A peça tem sido creditada à equipe de Simânio Pereira, marqueteiro do então candidato à presidência.

Em novembro, no Instagram, o perfil Design Ativista convocou designers alinhados à esquerda para imaginarem a nova identidade visual do governo. Filipe Grimaldi, designer que trabalhou na campanha de Lula e que faz sucesso nas redes sociais postando reviews bem-humorados de trabalhos de outros artistas, diz que a nova marca lembra um pouco as sugestões enviadas ao Design Ativista na ocasião.

— Achei isso fantástico, parece um compilado de todos aqueles logos imaginados. Se cabe uma crítica, veio um verde limão, um vermelho meio coral, não são cores primárias. A estética popular brasileira é feita de cores primárias. Poderia ser uma marca mais pé no chão, não tão digital — analisa Filipe. — Mas ficou legal.

Há também quem reprove a prática de trocar a identidade visual do governo de quatro em quatro anos. É o caso do designer e curador Felipe Taborda, que considera “vaidade de cada presidência ostentar um logotipo para chamar de seu”. Segundo Taborda, essa mudança é comum em países latino-americanos, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos e em boa parte dos países europeus, que mantêm um símbolo permanente, à prova do troca-troca presidencial.

— O ideal seria uma marca ampla, que representasse o governo como um todo. É um descaso tratar o Brasil como empresa, como uma vendinha sob nova direção. E há um efeito cascata, porque mudam os logotipos de ministérios, secretarias, coordenadorias e departamentos — diz Taborda.

‘Sem visão macro’

Referência em branding (conjunto de estratégias que consolidam uma marca) no Brasil, a designer Ana Couto, que redesenhou a marca da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), também enxerga com bons olhos a ideia de uma identidade visual que independa da alternância de poder.

— O Brasil tem uma dificuldade muito grande de construção de valor em uma forma mais estratégica. Todo governo entra fazendo uma marquinha. A gente não consegue extrapolar para uma visão mais macro. Fica uma pauta muito politizada. Seria mais benéfico fazer um projeto mais profundo. Mas ninguém faz, ninguém propõe, e ficamos nessa guerra das marquinhas — diz Couto que, apesar da crítica, aprova o logotipo da presidência atual. — Traz elementos mais contemporâneos de um Brasil mais modernista. Para esse momento de resgate, de união, de representatividade, de falar da cultura brasileira, funcionou.

Mas um logotipo bonito, por si só, não basta, defende Ana Couto. Para ela, a arte deve vir acompanhada de “pilares estratégicos mais claros”:

— Logo não é nada se não significar nada para ninguém. Quando você traz significados, você começa a ter uma boa marca. Por enquanto, é só uma expressão.

Fred Gelli conta que sua agência, a Tátil Design, foi convidada pelo governo de Dilma Rousseff para criar uma nova identidade visual durante o segundo mandato da ex-presidente. Ele diz que recusou o convite, justamente por não enxergar, naquele momento, nenhuma mudança na gestão que justificasse a criação de uma nova marca, o que acabou não acontecendo.

— Uma marca nova não pode ser cortina de fumaça. A gente só recomenda que se mude a marca se houver alguma novidade na sua gestão ou nos seus serviços — explica o designer. — A marca tem que evoluir junto com sua organização. Não tem que ser maquiagem. Como especialista em branding, não recomendava que, naquele momento do governo, existisse a criação de uma nova marca. A marca estaria só a serviço de um esforço de marketing, e marca é muito mais que marketing.