Sem consenso sobre lockdown, RJ discute feriadão de dez dias

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER E WALESKA BORGES
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Após a semana mais mortífera da pandemia no Brasil, governantes do Rio de Janeiro não chegaram a um consenso sobre que medidas tomar para frear o avanço da Covid-19. Uma reunião neste domingo (21) do governador Cláudio Castro (PSC-RJ) com prefeitos da região metropolitana fluminense terminou sem acordos sobre lockdown. A hipótese mais provável é antecipar feriados de abril e criar um feriadão prolongado de dez dias, entre 26 de março e 4 de abril, para diminuir a circulação de pessoas nas ruas. Sobre ações conjuntas para enrijecer o isolamento social, nada por ora. Enquanto isso, dirigentes dos três principais museus da capital fluminense, o do Amanhã, o de Arte Moderna (o MAM) e o de Arte do Rio, citaram "coragem e bom senso" ao anunciar que fecharão por conta própria por três semanas. Não há impedimento legal para que eles continuem funcionando. Em nota, o trio de diretores lembra que pouco mais de um ano atrás as instituições interromperam pela primeira vez as visitas, e que era hora de repetir essa dose diante do iminente colapso do sistema de saúde e de uma campanha de vacinação que segue a conta-gotas. À Folha Fabio Szwarcwald, à frente do MAM, disse que, na avaliação interna, o medo maior nem era o risco de contaminação para visitantes e funcionários dos estabelecimentos. "Apesar de acreditar que são um lugar seguro, até para quem trabalha lá, o deslocamento para chegar no museu é complexo. Metrô, ônibus." No caso de um feriadão prolongado, é de se esperar que parte das pessoas, em vez de ficar em casa, aproveite para visitar museus e outros tipos de entretenimento. Outras instituições do gênero, como o IMS (Instituto Moreira Salles) e a Casa Roberto Marinho, também resolveram suspender suas atividades. O Rio está em estado menos severo do que outros estados, o que não quer dizer que a situação seja tranquila. No domingo, o painel que monitora dados locais da Covid-19 apontava 187 vítimas nas últimas 24 horas e a ocupação de 85,5% nos leitos de UTI reservados coronavírus no estado. A média de espera de uma vaga era de 18,5 horas. Só na cidade, a pandemia já matou quase 20 mil pessoas, 6,5% das quase 300 mil vítimas brasileiras. Enquanto isso, a capital do estado continua vivendo a vida quase normalmente. Lojas, bares e restaurantes continuam abertos, num contraste com imagens de ruas esvaziadas em outras cidades do país. No sábado, a SuperVia afirmou que investigaria uma festa que teria acontecido num de seus veículos na véspera. Um vídeo que circula na internet mostra uma multidão aglomerada num vagão que teria partido da Central do Brasil. Um flyer virtual anunciou o Trem do Funk da Antiga, evento clandestino que teria passado despercebido pelos seguranças da concessionária da malha ferroviária local. Todos sem máscara, alguns com cerveja na mão, cantando um clássico do funk carioca, o "Rap do Festival": "Massa funkeira, não me leve a mal/ Vem com paz e amor curtir o festival/ O festival daqui é muito bom/ O festival é um jogo de emoção". Na sexta (19), um decreto da Prefeitura do Rio determinou a interdição da orla carioca. No fim de semana, contudo, surfistas e banhistas burlaram a proibição de frequentar praias. Apenas entre a manhã deste sábado (20) e domingo (21), agentes municipais registraram 804 infrações a medidas sanitárias, entre multas e interdições de estabelecimentos, não utilização de máscaras, aglomerações, infrações de trânsito, reboques, encerramento de feiras, apreensões de mercadorias de ambulantes. Na madrugada, a prefeitura fechou uma festa clandestina em Botafogo (zona sul carioca) com cerca de 150 pessoas. O festejo incluía show de pagode e transfer da praia de Botafogo até a casa que abrigava o festejo ilegal. Se não houve concordância para medidas conjuntas com o governo, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM-RJ), não descartou medidas mais severas a partir desta semana. Paes estava entre os prefeitos recebidos por Cláudio Castro no domingo, num encontro para discutir o que fazer diante da escalada de casos da doença. O presidente da Associação de Supermercados do Rio, Fábio Queiroz, reuniu-se um dia antes com Castro e disse que ele se posicionou contra o lockdown. "O setor produtivo apoiou essa declaração. Ficou-se combinado que haverá um super feriadão", disse na saída do Palácio Guanabara. "A gente gostou muito da reunião. Saímos daqui na esperança de salvar vidas. As vidas são importantes, mas que também o impacto econômico seja o menor possível." Raphael Guimarães, pesquisador em saúde pública da Fiocruz, lembra que a saturação das UTIs no município do Rio pode estar próxima, já que a cidade sozinha está com 96% dos leitos tomados, de acordo com os dados mais recentes. "Este cenário é extremamente preocupante. Primeiro, porque a cidade absorve muito da demanda de toda a região metropolitana. Significa que, se o Rio está com a taxa de 96%, possivelmente muitos municípios do entorno já estão colapsados." Definir uma restrição mais rigorosa "é urgentíssimo", diz. "A adoção imediata dela só teria um efeito em duas, três semanas."