Sem coronavírus, Lesoto vive 'thriller' envolvendo primeiro-ministro

FÁBIO ZANINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pequeno reino no sul da África, Lesoto poderia estar comemorando o fato de ser um dos únicos países do mundo a não registrar nenhum caso de Covid-19. Mas um crime típico de novela das 8 tirou a tranquilidade de seus quase 2 milhões de habitantes.

Os personagens envolvidos são o primeiro-ministro, Thomas Thabane, 80, sua atual mulher, Maesaiah, 43, e sua ex-esposa Lipolelo, morta em junho de 2017 aos 58 anos. Assassinada por um pistoleiro numa área rural da capital, Maseru, Lipolelo estava no meio de um ruidoso processo de divórcio com o político e brigava na Justiça para continuar sendo reconhecida como o equivalente a primeira-dama.

Uma investigação encerrada no início deste ano acusou a atual mulher do premiê de ser a mandante do assassinato da rival, provavelmente com conhecimento dele. Thabane só não foi formalmente indiciado por ter imunidade.

A principal prova, segundo a polícia, é uma ligação feita de um telefone no local do crime para um celular pertencente ao primeiro-ministro. O casal nega participação no crime. Após passar semanas foragida, Maesaiah entregou-se à polícia em fevereiro, mas responde ao processo em liberdade.

Num país com instabilidade crônica, a revelação bombástica jogou o governo de Thabane numa crise e levou-o a uma tentativa malsucedida de dar um golpe de Estado.

Com o pretexto de combater o coronavírus, ele fechou o Parlamento e mandou o Exército para as ruas em 18 de abril para "preservar a lei e a ordem". A intensa pressão internacional, sobretudo da África do Sul, que circunda totalmente Lesoto, levou o primeiro-ministro a recuar, mas não impediu que a temperatura política subisse.

Nesta segunda (11), o governo do veterano líder finalmente caiu após receber um voto de desconfiança do Parlamento local. Thabane ficará no cargo interinamente até seu substituto ser escolhido, o que deve ocorrer em até dez dias.

"Isso tudo parece uma novela, mas afeta pessoas de verdade. Drenou muito da atenção do governo durante uma ameaça de saúde muito séria", diz Christopher Williams, pesquisador da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, e estudioso da política e da sociedade do Lesoto.

A saída de cena de Thabane, há décadas um dos principais caciques da política local, pode pacificar o país, mas também ter efeito contrário.

Sem a imunidade que o cargo lhe confere, ele poderá ser indiciado pelo assassinato da ex-mulher e provocar reação da parcela da população que ainda lhe é fiel. Sua mulher, que assumidamente tem projetos políticos, é uma figura popular especialmente nas áreas rurais, por ter comandado projetos assistencialistas.

"A África do Sul vem dizendo que Thabane será tratado de forma digna, o que pode ser entendido como garantia de imunidade. Nesse caso, haverá muita frustração, pois em Lesoto, a percepção é que as instituições não são isentas, trabalham para favorecer quem tem poder", diz Williams.

Com área pouco maior do que a de Alagoas, Lesoto é um exotismo geográfico. Encravado na África do Sul, deve sua existência a um acordo do antigo reino do povo soto com o Reino Unido no século 19, em troca de apoiar colonizadores britânicos nos conflitos com descendentes de holandeses. A autonomia do reino foi preservada até 1966, quando houve a independência.

De economia sobretudo rural, é uma monarquia parlamentarista, com o rei Letsie 3º como um chefe de Estado similar à rainha da Inglaterra.

Mas essa facha de democracia esconde um país com histórico de golpes de Estado e pouca viabilidade econômica. O próprio Thabane chegou a ser derrubado por militares em 2014 e retornou ao poder com ajuda da África do Sul alguns dias depois.

A influência dos sul-africanos sobre o reino é enorme, assim como seu interesse na estabilidade do pequeno país.

Grande parte da água que abastece a região de Johannesburgo, principal polo econômico sul-africano, tem origem em montanhas do Lesoto. Também há preocupação de que um Estado falido dentro de seu território se torne um reduto para criminosos e traficantes de armas e drogas.

A cada crise, volta a ser mencionada a possibilidade de que Lesoto seja anexado à África do Sul, mas Williams não crê nessa hipótese. "Há muitos habitantes de Lesoto que defendem interação maior com a África do Sul, um tipo de federação, mas não absorção completa." Quanto ao milagre de até agora não ter registrado nenhum caso de coronavírus, o analista credita a dois fatos. Primeiro, aos baixíssimos índices de testagem, que mascaram a situação real.

Segundo, ao êxito da África do Sul, que já teve quase 11 mil casos e mais de 200 mortes, em limitar sua interação econômica e de pessoas com Lesoto. Mas o surgimento do vírus nesse reino distante é questão de tempo, afirma Williams. "A fronteira é muito porosa, há vaqueiros que atravessam de um lado para outro sem grande preocupação."