Sem culpados e sem respostas, Manaus se organiza para sobreviver a 3° onda da pandemia

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por Julia Vitoria

Foi no final de janeiro de 2021, durante a segunda onda da Covid-19 na cidade de Manaus (AM), que Rojefferson Moraes, professor, poeta e morador do bairro Monte das Oliveiras, na zona norte da cidade, contraiu o vírus e até hoje segue se recuperando das sequelas. 

Antes de conseguir ajuda, o professor foi a, pelo menos, 5 hospitais da capital. Todos, em meio ao colapso que o estado passava, não tinham mais vagas nem espaço para recebê-lo. Rojefferson só sobreviveu graças a ajuda que teve da rede de apoio, que ele mesmo ajudou a criar em sua comunidade.

“A gente tem um cenário de extrema vulnerabilidade e ausência total do estado. Quase morro se não fosse a rede da qual nós fazemos parte, uma vez que faltou oxigênio e insumos básicos”, lembra. 

Nem Rojefferson nem nenhum de seus familiares foram vacinados. Sua mãe é hipertensa, mas não conseguiu o laudo para a vacinação.

O relatório do Observatório Covid-19 da Fiocruz mostra como a situação da pandemia está grave desde o início de 2021. Em maio, a taxa de ocupação de leitos segue crítica no Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.
O relatório do Observatório Covid-19 da Fiocruz mostra como a situação da pandemia está grave desde o início de 2021. Em maio, a taxa de ocupação de leitos segue crítica no Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.

O mesmo, infelizmente, não aconteceu com a avó do poeta e professor Rafael César, morador do Conjunto Hiléia, região centro-oeste de Manaus. 

Sua avó faleceu dia 16 de janeiro por falta de oxigênio. Além da avó, mãe, tio e avô do professor também contraíram o vírus. Desesperado na época pela falta de leitos, Rafael começou uma campanha em suas redes sociais, com o objetivo de transferir seus familiares para São Paulo que precisavam de internação.

Eu vivi o caos do abastecimento de oxigênio em janeiro, por causa da minha avó, que infelizmente não resistiu. Foi quando percebi que nesse sistema em que nós vivemos, a nossa vida não vale nada.”

Rafael foi vacinado no mês de maio deste ano, após decisão da prefeitura de imunizar trabalhadores da educação a partir de 19 de maio. Mas é com tristeza que ele recebe a vacina, por lembrar de sua avó e da morte de outras pessoas que morreram por uma doença para a qual já existe vacina. 

O cadáver do aposentado Francisco das Chagas Freitas, 65, ficou sobre o chão de piso de cimento entre a cama e uma mesa pequena que ele mantinha na casa que vivia sozinho em um bairro da periferia de Manaus (Yan Boechat/Yahoo Notícias)
Na 2ª onda, cadáver do aposentado de 65 anos ficou sobre o chão de piso de cimento entre a cama e uma mesa pequena que ele mantinha na casa que vivia sozinho em um bairro da periferia de Manaus (Yan Boechat/Yahoo Notícias)

“Eu queria dizer com alegria isso (que fui vacinado), mas para mim é muito triste saber que a vacina não chegou a tempo de salvar minha avó por exemplo, que morreu por causa da doença”.

O colapso no sistema de saúde que atingiu Manaus, para o epidemiologista da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, aconteceu por conta de uma má gestão da pandemia por parte do governo tanto em âmbito estadual, quanto federal.

Em uma entrevista dada em 8 de Fevereiro para a TVT, Jesem conta que inúmeros alertas apontando a saturação da rede médica hospitalar, foram enviados ao secretário estadual, secretário de saúde, secretário municipal de saúde e aos secretários da prefeitura. Como também para os órgãos de controle, membros da comissão mista do Senado e da Câmara dos Deputados.

Projeto Soul do Monte trouxe razões para viver

Antes de suas histórias se cruzarem pelo luto, Rafael e Rojefferson já se conheciam pelas atuações artísticas e projetos nas comunidades de Manaus. Foi em 2020 que Rojefferson começou em um galpão no bairro onde mora, o Coletivo Comunitário Soul do Monte.

A ideia era montar um equipamento social que agregasse várias iniciativas culturais e que também agisse de forma educativa. Envolvendo moradores da comunidade e principalmente jovens e mães que perderam seus filhos para a violência.

Para Rojefferson, fazer a diferença na vida das pessoas da sua comunidade é o que mais importa. Passar pela Covid-19 e sobreviver é um grande motivo para continuar lutando.

Com os desempregos e agravamento de pessoas em vulnerabilidade social na comunidade, o projeto começou a distribuir cestas básicas para os moradores. (Imagem: César Nogueira/Yahoo Notícias)
Com os desempregos e agravamento de pessoas em vulnerabilidade social na comunidade, o projeto começou a distribuir cestas básicas para os moradores. (Imagem: César Nogueira/Yahoo Notícias)

“Só aqui dentro eu perdi dois irmãos pra violência e uma prima, então eu entendo que se eu sair daqui por conta da violência e ir para qualquer lugar do mundo, eu não vou estar fazendo diferença alguma,” relata Rojefferson.

Com os desempregos e agravamento de pessoas em vulnerabilidade social na comunidade, o projeto começou a distribuir cestas básicas para os moradores. 

Só no ano passado foram doadas em torno de 600 cestas, além de kits de higiene e máscaras para os profissionais de cemitérios, produzidas no galpão para gerar renda aos moradores.

Com um novo mapeamento de 500 famílias na região, o objetivo de Rojefferson é doar ainda este mês mais cestas básicas. Além delas, álcool em gel, máscaras e mais kits. 

A iminência da 3º onda em Manaus e a rede de apoio

O intuito é amenizar a transmissão do vírus, ajudar as famílias com o alimento e preparar os moradores para essa 3ª onda que o Estado já começou a enfrentar

“O estado só se faz presente quando morre alguém e a polícia vem aqui.”

Ângela Maria é mãe de Rojefferson e o ajuda no projeto. Morar no jardim das Oliveiras para ela é como uma guerra diária. Ângela conta que já perdeu dois filhos para o crime e para as drogas, mas ainda permanece na comunidade porque quer ajudar outras famílias. 

Durante o colapso, no final de janeiro, a rede de saúde de Manaus não tinha mais vagas para receber pacientes. (Foto: César Nogueira/Yahoo Notícias)
Durante o colapso, no final de janeiro, a rede de saúde de Manaus não tinha mais vagas para receber pacientes. (Foto: César Nogueira/Yahoo Notícias)

E dona Maria da Cruz Paiva, beneficiada pelo projeto, sente-se muito agradecida. Ela, o marido e a filha estão desempregados e pagam as contas com um pouquinho que conseguem tirar em trabalhos de camelô. 

As cestas básicas tem ajudado muito a família. “Ela caiu na melhor hora, ela veio no melhor momento,” conta Maria.

Já para Gabriel Cristiano - também morador da comunidade - as oficinas de fotografia são a melhor parte.

A Covid-19 em números e a crise do oxigênio em Manaus

Desde o começo da pandemia, segundo o Painel Covid-19 Amazonas, atualizado pela última vez em 20 de junho, o estado do Amazonas contabiliza 397.132 números de casos confirmados e 13.220 de óbitos acumulados. A taxa de mortalidade estadual é de 319 mortes a cada 100 mil habitantes.

Somente a capital Manaus acumula 183.577 pessoas infectadas pelo novo coronavírus, e 9.114 óbitos.

Os números de mortos pela falta de oxigênio não foram informados pelo governo. O governador da cidade Wilson Lima (PSC) culpabiliza o colapso pela falta de informações sobre os casos e a variante P1 que surgiu na época.

No entanto, o epidemiologista Jesem, diz que existem registros dessa cepa desde novembro de 2020. “Ela também foi encontrada em outras regiões do Brasil, o que explica que somente ela não seria a causadora do colapso de Manaus,” afirma.

A man holds an oxygen tank in Manaus, Amazonas State, Brazil, on January 15, 2021, amid the COVID-19 ovel coronavirus pandemic. - The health system in Manaus, in the Brazilian northern state of Amazonas, is at breaking point. The city's hospital intensive care units have been at 100 percent capacity for the past two weeks, while medical workers are battling a shortage of oxygen and other essential equipment. (Photo by Michael DANTAS / AFP) (Photo by MICHAEL DANTAS/AFP via Getty Images)
Um homem se apoia em um tanque de oxigênio em Manaus, em 15 de janeiro de 2021, em meio ao colapso. O sistema de saúde de Manaus, na ocasião, estava em ponto de ruptura com as UTIs em 100% da capacidade nas últimas duas semanas, enquanto os profissionais da área médica lutam contra a falta de oxigênio e outros equipamentos essenciais. (Foto de Michael DANTAS / AFP via Getty Images)

Após pedidos de investigação, a CPI da Covid no Senado deu início em abril com a comissão parlamentar de inquérito com o objetivo de investigar a atuação do Executivo no enfrentamento da pandemia, além do uso de recursos federais pelos estados e municípios. 

Um dos depoimentos mais esperados do governador de Manaus, em última decisão no dia 10 de junho, foi cancelado após a ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal), decidir que Wilson poderia ir à comissão se quisesse, mas que não seria obrigado a comparecer. Após esse deferimento, a assessoria do governador comunicou que ele não irá comparecer a CPI da COVID para depor.

O governador também é investigado pela Polícia Federal, após indícios de favorecimento a empresários no aluguel de complexos para hospitais de campanha. Se tratam de supostas irregularidades na construção do hospital de campanha Nilton Lins. Segundo a PF, o valor nos desvios chega a R$ 23 milhões. 

Sozinhos, os moradores de Manaus se preparam como podem para a 3° onda que já checou a capital.

Coletivo Comunitário Soul do Monte agrega várias iniciativas culturais e educativa, envolvendo moradores da comunidade e principalmente jovens e mães que perderam seus filhos para a violência. (Foto: César Nogueira/Yahoo Notícias)
Coletivo Comunitário Soul do Monte agrega várias iniciativas culturais e educativa, envolvendo moradores da comunidade e principalmente jovens e mães que perderam seus filhos para a violência. (Foto: César Nogueira/Yahoo Notícias)
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