Sem data para serem vacinados, professores relatam tensão ao voltarem ao trabalho presencial

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SAO PAULO, BRAZIL - OCTOBER 02: View of a classroom with protective shields on the tables and safety distance at Santa Maria school during the preparation of reopening schools amidst the coronavirus (COVID - 19) pandemic on October 2, 2020 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Miguel Schincariol/Getty Images)
Escola Santa Maria, em São Paulo, colocou proteção ao redor da carteira (Foto: Miguel Schincariol/Getty Images)

A volta às aulas em São Paulo tem gerado apreensão nos professores. Fora da lista de prioridades da vacinação, muitos dos profissionais ligados à educação se sentem pouco seguros para voltarem ao ofício.

É o caso de Renan Sapata Santos, professor de Geografia em uma escola particular na capital paulista. O maior medo de voltar a dar aulas de forma presencial é o transporte público. Ele precisa pegar ônibus, trem e metrô para chegar ao trabalho.

“De manhã está sempre lotado, e a escola comete o grande erro de medir a temperatura no pulso”, conta. “Moro com minha mãe que tem 62 anos e foi demitida por causa disso na pandemia. Então, fui obrigado a aceitar as condições propostas para termos uma renda.”

Na opinião dele, o melhor para os professores seria continuar com o ensino remoto, mesmo que entenda a demanda pela volta às aulas. “É desigual? É, mas vamos ceifar vidas com o retorno presencial”, pondera.

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Por ser professor do Ensino Médio, considera que é mais fácil que os alunos sigam as medidas de distanciamento, uso de máscara e higiene das mãos. As aulas acontecem presencialmente, mas também são transmitidas para aqueles que optaram por não voltar. Ele relata que, ao conversar com os estudantes, a maioria estava muito feliz em voltar. “Muitos estavam preocupados com a defasagem que sofreram no último ano. Via Zoom, alguns me disseram que os pais não querem que eles retornem presencialmente, outros disseram que vão alguns dias da semana apenas”, conta.

Apesar do medo, Renan não acredita que os professores deveriam ser prioridade na fila da vacina. “Se o Brasil tivesse um governo responsável eu responderia de outra forma, mas a maneira que está sendo gerida a questão da vacina, não tenho como me opor ao plano. Está muito lenta, então a prioridade tem que ser as pessoas do grupo de risco.

Clayton Silvestre, que dá aula em uma escola no Grajaú, relata que sentiu segurança no retorno às aulas porque há, em média, apenas cinco alunos na sala de aula. “As escolas estão cumprindo as medidas de segurança, não posso reclamar. Mantendo a distância, recebemos os equipamentos para nós prevenir e o número de alunos foi muito baixo”, conta.

Ainda assim, o professor tem consciência de que é impossível que a prevenção seja perfeita. Para ele, os professores deveriam ter prioridade na fila da vacina. “Mas o correto era ficar em casa até a realização da vacina em massa. Voltei por quê preciso do emprego.” Ao mesmo tempo, Clayton afirma que teve dificuldades de ficar um período tão longo em isolamento, por isso, voltar ao trabalho de forma presencial também foi um alívio.

Conforme a faixa etária dos alunos, a preocupação pode mudar. Uma estagiária em uma escola particular, que prefere não se identificar, relata que houve uma preparação para o retorno às aulas, mesmo assim, não se sente segura.

“Não me sinto segura, e acredito que ninguém ali se sinta. Eu trabalho no infantil, o que significa muito contato físico o tempo todo e por mais conscientes que os alunos estejam, são crianças revendo amigos, reencontrando a escola, os professores, então é difícil conseguir manter um distanciamento, principalmente dentro de sala, tanto entre eles quanto deles com a gente”, diz.

A escola prometeu entregar equipamentos de proteção individual, como máscara a escudo facial, mas a equipa ainda não recebeu o material. Por outro lado, o espaço físico tem ampla demarcação e sinalização para tentar manter o distanciamento, além de álcool disponível para limpar as mesas e as mãos.

O clima, segundo a profissional, é de insegurança. “Eu ainda vou de carro, mas a grande maioria pega transporte público e tem uma exposição ainda maior e por isso ficam mais inseguros ainda. Então acho que no geral existe uma sensação de insegurança bem presente”, conta.

Ela relata que os alunos estão felizes de voltarem à escola, mas os efeitos de tanto tempo em casa são notados. “Tem sido bem difícil fazer esse ‘desligamento’ dos pais depois de um ano convivendo tanto. E a maioria tem muita dificuldade de aguentar as 7 horas, tudo isso acaba dificultando as aulas além da ansiedade e animação que prejudica demais toda a dinâmica de aprendizagem”, afirma.

Sobre a vacinação, ela acredita que os professores deveriam receber prioridade, assim como outros profissionais essenciais que estão expostos desde o início da pandemia, como motoristas e cobradores de ônibus e garis. “Partindo do princípio de que parar mais um ano prejudicaria demais o desenvolvimento e a aprendizagem dos estudantes, voltar sem maior segurança também não é suficiente e, vacinar os funcionários das escolas é reduzir muito as chances de contágio”, opina.

REDE MUNICIPAL

Na rede municipal de São Paulo as aulas presenciais têm previsão de retorno no dia 15 de fevereiro, mas os professores voltaram no dia 1º. Uma professora de educação básica, que preferiu não se identificar, conta que a apreensão entre os docentes é grande, mesmo com o sistema de rodízio entre alunos e permissão para que as salas recebam 35% da capacidade.

“Vejo muita gente chamando professor de vagabundo, mas não é assim, nós só queremos segurança para trabalhar”, afirma. Ela conta que alunos e professores receberam um kit com três máscaras de pano para serem usadas na escola, mas quando o diretor da escola foi provar a máscara, o elástico estourou. A professora preferia ter o item de proteção individual descartável e, para isso, teve de comprar por conta própria.

Ela ainda ressalta que a carga de trabalho está exaustiva. “As famílias vão poder levar as crianças para ter aulas presenciais, mas também poderão assistir aula de forma remota. Além disso, se os pais não puderem acessar a experiência online e não quiserem ou não puderem mandar os filhos de forma presencial, eles poderão ter acesso a um material impresso, preparado pelos professores”, conta.

“A prefeitura teve um ano inteiro para se programar, mas nós não temos computadores em todas as salas para poder transmitir as aulas em tempo real ou grava-las. O que acontece é: teremos de nos desdobrar para preparar as aulas presenciais e ainda gravar um outro tipo de conteúdo para os alunos que estão de modo remoto. É uma loucura, especialmente para quem dá aula no Fundamental I e passa o dia inteiro com a mesma turma”, diz.

“Sabemos que os alunos têm de retornar, sabemos do prejuízo pedagógico e social que esses alunos terão, mas não temos nem perspectiva de sermos vacinados, o que nos deixa muito tensos”, desabafa.