Sem definir equipe completa, governo amplia espaço de militares na Saúde

NATÁLIA CANCIAN

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após a entrada de um general como número 2 de Nelson Teich no Ministério da Saúde, o governo tem ampliado o espaço de outros militares na pasta.

Sem definir a equipe completa, o ministro também tem segurado nomes da gestão anterior -dois deles já foram avisados de que irão permanecer, ainda que em outros cargos. Outro recebeu um pedido para ficar por mais tempo.

Entre os já confirmados está a secretária de Gestão em Trabalho em Saúde, Mayra Pinheiro, hoje à frente de ações para levar profissionais de saúde a áreas com maior número de casos.

Pediatra, ela ficou conhecida por ter participado, em 2013, de protestos contra a vinda de médicos estrangeiros no programa Mais Médicos, no governo Dilma Rousseff (PT).

Na saúde, também era de uma ala menos próxima do ministro anterior, Luiz Henrique Mandetta. À Folha de S.Paulo Pinheiro confirmou a permanência no cargo além da transição. "Fui comunicada que deveria permanecer. Estamos envolvidos no recrutamento de profissionais e indo para Manaus organizar esse contingente", disse.

Já o ex-secretário de Ciência e Tecnologia, o médico cardiologista Denizar Vianna, foi nomeado como assessor especial do ministro. Embora tenha feito parte da gestão anterior, Vianna já era próximo de Teich, com quem já havia trabalhado.

Nos últimos dias, ele tem participado da maioria das reuniões de transição ao lado do ministro.

A confirmação do nome de Vianna como assessor especial foi publicada nesta quinta-feira (30) no Diário Oficial da União.

Dentro do ministério, a expectativa é que o coronel do Exército e secretário especial de Saúde Indígena, Robson Santos da Silva, também permaneça no cargo ou em outra função.

A publicação também confirmou a entrada no ministério do general Eduardo Pazuello, que já vinha participando de entrevistas coletivas como o número 2 da pasta.

Ex-coordenador da Operação Acolhida, de atendimento a imigrantes venezuelanos, Pazuello teve seu nome indicado por outros ministros generais e apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para ocupar a função.

A entrada deu maior espaço a militares na gestão da saúde. Nesta quinta, o governo publicou a nomeação do coronel do Exército Antonio Elcio Franco Filho como secretário-executivo-adjunto.

O coronel foi secretário estadual de Saúde de Roraima entre abril e junho de 2019, sob a gestão de Antonio Denarium (PSL), um dos principais aliados de Bolsonaro. Ele tem graduação e mestrado em ciências militares.

Já outros dois secretários que faziam parte da gestão de Mandetta e eram próximos do ex-ministro foram exonerados.

Um deles é João Gabbardo dos Reis, ex-secretário de saúde do Rio Grande do Sul e então uma espécie de vice do ex-ministro. Nos últimos meses, Gabbardo ficou conhecido por estar ao lado de Mandetta na maioria das entrevistas e anúncios sobre o coronavírus.

Outro secretário que já deixou o ministério é o médico Erno Harzheim, que ocupava a Secretaria de Atenção Primária -área voltada à implementação de algumas das principais bandeiras do ex-ministro, caso da nova versão do programa Mais Médicos.

Com a saída, reuniões da área têm sido tocadas por uma secretária-substituta, que já era servidora da pasta, até que haja a definição dos cargos.

O mesmo ocorre na Ciência e Tecnologia desde a transferência de Vianna.

Alvo principal das ações de controle do coronavírus, a Secretaria de Vigilância em Saúde continua, por enquanto, sob a gestão do enfermeiro epidemiologista Wanderson Oliveira.

Em mensagem enviada nesta semana para sua rede de contatos, Oliveira disse que recebeu um pedido do ministro para que ficasse mais alguns dias em apoio durante a transição. Inicialmente, ele planejava ficar até 4 de maio.

Ele negou, porém, que tenha havido discussões sobre sua permanência na equipe. Escolhido para o cargo por Mandetta, Oliveira chegou a pedir demissão da secretaria em meio à pressão para saída do ex-ministro.

Recentemente, voltou a participar de entrevistas coletivas ao lado de Teich. "Eu estou secretário, não sou secretário", disse na mensagem enviada aos contatos.

"Enquanto for necessário, estarei apoiando, pois há muito trabalho para salvar vidas e focar na resposta à epidemia. Assim que o ministro conseguir outra pessoa para me substituir, vou apoiar", disse.

Sem definição na vigilância, membros da pasta dizem que Teich, por outro lado, já manifestou intenção de trazer uma pessoa de fora da pasta para a Secretaria de Atenção Especializada, responsável pela gestão de recursos e ações destinadas a hospitais. O nome não foi divulgado.