Sem dinheiro e com bebês, 180 colombianos dormem no aeroporto de Guarulhos

FLÁVIA MANTOVANI E ZANONE FRAISSAT

VIÇOSA, MG, SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sem dinheiro em meio à pandemia de Covid-19, dezenas de colombianos dormem há dias no aeroporto de Guarulhos, buscando uma forma de voltar para seu país. São 180, segundo a contagem que eles próprios fazem por meio de uma planilha, e a cada dia chegam mais -alguns vêm de outras cidades, caminhando por dias ou pegando carona na estrada.

Entre eles, há estudantes, turistas e imigrantes que vivem no Brasil e ficaram sem renda por causa da quarentena. Algumas famílias têm crianças, a mais nova com 26 dias de idade.

Eles pedem que o governo da Colômbia, por meio da embaixada, organize um voo humanitário de repatriação, sem cobrança de passagens, ou envie um avião da Força Aérea para buscá-los. A opção oferecida até agora, dizem eles, é de passagens ao custo de US$ 420 a US$ 460 (R$ 2.300 a R$ 2.500) no caso dos que não tinham bilhete comprado e US$ 140 (R$ 770) para os que já tinham, mas tiveram o voo cancelado durante a pandemia.

No último dia 11, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem com 15 colombianos que também dormiam no aeroporto por não terem como arcar com as passagens de volta. Três dias depois, eles foram encaixados pela embaixada nas vagas remanescentes de um voo comercial, sem precisarem pagar.

O grupo atual, por uma questão de espaço, divide-se em três alas do terminal 2. Eles dizem que os primeiros chegaram há 12 dias. A reportagem esteve no aeroporto e presenciou a situação. Há uma barraca e alguns colchões que receberam de doação, mas a maioria dorme no chão ou em cadeiras.

"Eu já nem consigo dormir mais", diz a engenheira Monica Ramirez, 37. "Deixamos os colchões para as famílias com filhos pequenos e usamos alguns papelões para amortecer o frio do piso."

Ela afirma que veio a turismo no dia 8 de março e teve seu voo cancelado, mas não conseguiu o ressarcimento do valor da passagem. "O dinheiro acabou, e não conheço ninguém no Brasil, então vim para cá."

Monica se tornou uma das organizadoras da rotina do grupo, que vive à base de doações de brasileiros e da comunidade de imigrantes colombianos no Brasil. "Tem que ser uma marmita para cada duas pessoas, para sobrar para o jantar", diz a uma pessoa, enquanto conversa com a reportagem, sobre refeições que acabavam de receber. "O pessoal dos restaurantes do aeroporto nos ajuda, pessoas que nem nos conhecem nos doam comida, leite e fraldas para as crianças. Temos 100% de gratidão pelos brasileiros."

Ela afirma que eles têm tomado cuidados para se proteger do coronavírus. "Todo mundo usa máscara, temos álcool, a cada meia hora lavamos as mãos. Sempre medimos a temperatura com o pessoal do aeroporto, que tem nos tratado muito bem. No momento nosso grupo está todo saudável."

Segundo Monica, o consulado da Colômbia enviou representantes ao local somente na última terça-feira (19). "Eles anotaram os dados de apenas 26 pessoas. Não deram mais nenhuma palavra, não quiseram nos escutar, e ninguém voltou a entrar em contato com a gente depois disso", afirma.

Em nota divulgada nesta sexta-feira (22), a embaixada da Colômbia afirma que organizou três voos comerciais de retorno saindo do Brasil, nos quais voltaram 347 cidadãos do país, e que tem compromisso de "apoiar, acompanhar e orientar os colombianos que se encontram no Brasil". Diz ainda que tenta viabilizar outro voo de retorno, mas será voltado apenas para aqueles que estão no país a "turismo, negócios temporários ou estudo" e que não há garantia de que saia de São Paulo.

A GRU Airport, que administra o aeroporto, afirma que acompanha a situação e que já fez contatos com as autoridades e o consulado da Colômbia.

Os colombianos dizem que a prefeitura de Guarulhos também esteve no local e ofereceu a eles um abrigo, mas eles não quiseram ir porque sua prioridade é voltar a seu país.

Muitas pessoas do grupo são imigrantes que vivem no Brasil, mas ficaram sem renda durante a pandemia. É o caso de Stefany Carvallido, 24, e seu marido, que estavam para completar dois anos no país e agora estão no aeroporto com a filha de dois anos.

O casal vendia roupas em feiras de rua e se viu sem conseguir trabalhar por causa da quarentena. "Colocamos as mercadorias nas redes sociais, mas as vendas não estão dando para pagar aluguel e as contas. Você sabe como São Paulo é cara. A gente gosta muito do Brasil, do povo brasileiro. Mas não está dando para continuar aqui. Na Colômbia temos a família para nos apoiar", diz ela.

Para Stefany, o mais dolorido da situação é ver a filha "passando por tudo isso". "Ela chora de madrugada, porque não consegue dormir, estamos em cima de cobertores. É muito difícil. Mas no momento não temos alternativa."