‘Sem educação de qualidade, não deixaremos de ser um país de renda média’, afirma Denis Mizne

Em um país com quase 220 milhões de habitantes, onde todos os anos três milhões de jovens completam 18 anos, o grande diferencial é a população. É o que defende Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann. Se a qualificação dessas pessoas não fosse deixada de lado, o Brasil seria uma grande potência em empreendedorismo, ensino superior e pesquisa em todas as áreas. No entanto, a educação básica brasileira deixa 90% dos seus alunos terminarem a escola sem saber matemática em um nível adequado.

“É como se o carro estivesse andando com o freio de mão puxado”, analisa Mizne. Colocar as pessoas no centro da agenda de desenvolvimento do país é fundamental, e isso deve ser feito a partir da melhoria na qualidade da educação, segundo ele.

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O próximo Ministério da Educação terá um orçamento apertado. Quais devem ser as prioridades?

A primeira é salvar a educação básica, que foi abandonada pelo MEC. Durante a pandemia, o ministério não fez nenhum movimento para apoiar as escolas. Pelo contrário, chegou a atrapalhar. Então a prioridade é recompor a educação básica nesse orçamento. Para isso, há duas frentes. A primeira é a alfabetização. O Brasil tem apenas 31% de crianças alfabetizadas na idade certa. A escola não pode ser uma fábrica de crianças analfabetas. Isso é inaceitável. Sem alfabetização, o estudante não aprende mais nada. E é possível terminar os próximos quatro anos com 75% das crianças alfabetizadas na idade certa. Além disso, o Brasil precisa de um plano de emergência para recompor a aprendizagem, especialmente no Fundamental II, o antigo ginásio. As crianças que chegaram ao 6º ano agora, por exemplo, pararam de aprender no 3º ano. E estão em condições difíceis. A prioridade, nesse caso, é mais tempo de aula, mais personalização da aprendizagem para saber onde cada aluno está, diminuir o número de estudantes com cada professor, ter mais tempo para aprender e, eventualmente, usar a tecnologia para isso.

Qual deve ser a atuação de fundações, empresas e do setor privado em geral junto ao MEC e à educação no país?

O primeiro passo é não atrapalhar. A gente brinca dizendo que às vezes esses agentes querem transformar a escola em uma “árvore de Natal”, pendurando um projeto aqui e outro ali. Isso não funciona. A escola tem que ser soberana na determinação de suas prioridades, e quem manda é a aprendizagem. O setor privado deve reconhecer a legitimidade do setor público e apoiar. Quanto maior for o investimento na formação de professores e gestores escolares, melhor. Há ainda oportunidades para se contribuir com a conectividade das escolas ou com questões de infraestrutura, onde o setor privado pode ser mais rápido que o público. E há outras áreas importantes também, como pesquisa e produção de conhecimento.

O senhor defende uma repactuação nacional, passadas as eleições, por meio da melhoria da qualidade da educação e da formação de lideranças qualificadas. Qual a importância desses dois caminhos?

Há 40 anos o Brasil cresce abaixo do mundo. Nestas décadas, tivemos todo tipo de politica econômica. Um país de renda média como o Brasil, emergente, não pode crescer menos do que os outros. Dessa forma, a população brasileira fica mais pobre. Se não capturarmos um pedaço maior do crescimento global, a nossa população vai continuar igualmente ou mais pobre. O debate público está muito focado no micro. Qual é o grande diferencial do Brasil? Temos quase 220 milhões de habitantes, cerca de três milhões de jovens todos os anos fazendo 18 anos. Todas essas pessoas, se estivessem no topo do seu potencial, fariam do país uma potência. Precisamos de uma agenda que institua que o Brasil vai crescer com base nas suas pessoas. Isso requer um acordo nacional amplo para tratar a educação como política de Estado. Já a formação de lideranças garante que, enquanto eu estou trabalhando para que toda criança brasileira aprenda, nossas pessoas mais talentosas estarão dedicando sua vida para resolver os maiores problemas do Brasil. Os problemas mais persistentes na nossa sociedade não dependem só de dinheiro para serem resolvidos. Eles dependem também de gente, de cérebro, de conhecimento complementar. Foi isso que vimos na pandemia.

E como podemos formar essas lideranças qualificadas na prática?

Tivemos o Ciência sem Fronteiras, que foi um programa de desenvolvimento de capital humano. Na minha opinião, era uma ótima ideia, que teve alguns grandes acertos, mas também alguns grandes erros. O principal deles foi não selecionar bem para onde as pessoas iam e não ter uma intencionalidade depois, não cuidar da volta, não planejar como as instituições aqui receberiam as pessoas. Poderíamos pensar em um programa de bolsas de desenvolvimento, com olhar para a equidade racial e de gênero, abrindo oportunidades para brasileiros que querem se dedicar a trabalhar no governo, na administração pública, no terceiro setor, na academia, atuando nos temas mais críticos para o Brasil. No orçamento público brasileiro, é um dinheiro de nada, uma vírgula. Mas, para a transformação do país, pode ser muito potente.

Qual o impacto de dois anos de pandemia na formação de mão de obra?

Alunos que estavam no 2º e 3º anos do ensino médio, por exemplo, não tiveram aulas e desistiram de ir para a faculdade. As escolas particulares retomaram as aulas mais rapidamente. Ou seja, se a disputa por uma vaga na universidade já era desigual antes, ela ficou quase impossível para estudantes de escolas públicas. A situação econômica das famílias se deteriorou, então os jovens tiveram mais estímulo para abandonar a escola e trabalhar. Uma combinação que terá efeitos no nosso futuro. Sobre os que ainda estão na escola, meu receio é que, no ano que vem, os gestores acreditem que uma criança que está matriculada no 8º ano realmente esteja nessa série. Porque esse é o jeito mais perverso de consolidar a perda de aprendizagem da pandemia. Se não nos prepararmos para reverter a perda, teremos não só um problema de mão de obra ou potencial desperdiçados agora, como vamos garantir isso por uma década.

E a reforma do ensino médio? Conseguiremos conter a evasão e melhorar a formação?

Antes do novo ensino médio, tínhamos um currículo de 13 matérias obrigatórias para quatro horas de aula diárias. Às vezes, quando surge uma uma nova política, o pessoal é rápido para atacar, mas esquece o que tinha antes. Não estava bom. Cerca de 40% dos alunos abandonavam os estudos e, entre os que ficavam, poucos aprendiam. Ainda assim, há problemas na reforma. Um deles é o vício de origem, pois ela foi feita por medida provisória. O novo ensino médio, então, encontra resistência. Por outro lado, há pontos importantes, como a flexibilização do currículo e a possibilidade de fazer o técnico como uma das trilhas. É preciso ter uma política explícita para lidar com a desigualdade. Ou então a escola mais rica vai oferecer cinco itinerários (conjunto de disciplinas, projetos e oficinas que os estudantes podem escolher no ensino médio), e a mais vulnerável ficará com apenas um. E é preciso seguir implementando a política de tempo integral, com mais tempo de aula. O Brasil chama de tempo integral, mas o mundo chama somente de escola. É o lugar, nos outros países, onde os alunos ficam sete horas por dia.

Pensar em incentivos financeiros para esses estudantes permanecerem na escola ou ainda para professores e gestores que atingirem determinadas metas é uma proposta que funciona?

Incentivos como bolsas para os jovens concluírem os estudos já foram testados inúmeras vezes no Brasil e fazem sentido. O custo para o Brasil de ter milhões de jovens abandonando o ensino médio é muito maior que o custo de um programa de bolsas. Isso está bastante provado. Já sobre o incentivo financeiro como bônus para os professores, não está provado que funcione de fato. Se pensamos em dar bônus para o professor que alfabetizar suas crianças, temos que pensar também que, se ele não souber alfabetizar, não é o bônus que vai garantir isso. Aquilo que não depende só do esforço é difícil de ser mudado apenas com incentivo financeiro. O caminho, nesse caso, é investir na formação. Decisivo mesmo é formar bem o professor. Podemos pensar ainda em incentivos que dão mais recursos aos municípios, por meio de ICMS. Quando o município prioriza a alfabetização, ele ganha uma parte maior do ICMS que é devolvido dos estados para os municípios. Isso acontece no Ceará, por exemplo. Temos apoiado essas políticas em diferentes estados.

Que outros incentivos poderiam ser implementados?

Poderíamos pensar também em usar esses recursos para fazer com que os melhores alunos do ensino médio se formem como professores da educação básica. Por exemplo: se o estudante tirou mais que uma determinada nota no Enem e quiser fazer Pedagogia ou alguma licenciatura, ele pode ganhar um incentivo ao assumir um compromisso de trabalhar pelos próximos cinco ou dez anos na educação pública. Muitos países já fizeram isso para atrair os melhores profissionais para suas salas de aula. O Brasil já faz isso, aliás, mas para outra área, a Polícia Militar. Pagamos um salário para aquele jovem de 18 anos que entra na Academia do Barro Branco, em São Paulo, quando ele passa no vestibular. Por quatro anos ele ganha um salário de policial porque queremos ter gente muito bem formada nos cargos mais altos da polícia. Por que não fazemos isso para as nossas salas de aula também?

Um país pode sair da armadilha de renda média sem uma educação de qualidade?

Não. Sem educação de qualidade, o Brasil não vai deixar de ser um país de renda média e extremamente desigual. Temos que garantir que toda criança aprenda enquanto está na escola. Há vagas, professores e livros didáticos, falta a aprendizagem.É necessário um compromisso de Estado e não de governo. Esse é o caminho para sermos um país que muda de patamar e abre oportunidades para todos os brasileiros.