Sem festa da virada em Copacabana, polícia espera redução de crimes na Zona Sul

Giampaolo Morgado Braga e Marcos Nunes
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Foto: Fábio Seixo / Extra / 01.01.2014

Este ano não será igual àquele que passou. Pelo menos em Copacabana. Epicentro da festa de réveillon na cidade do Rio, o bairro também se tornava, nessa época do ano, um território fértil para assaltantes, com centenas de milhares de espectadores circulando para ver a queima de fogos. Nos últimos dois anos (2018 e 2019), as delegacias da área apresentaram um aumento de até 39% nos registros de roubos e furtos, na comparação com o mês anterior. Este ano, com o cancelamento do espetáculo pirotécnico na praia, a proibição de festas nas areias e no calçadão e a decisão da prefeitura de bloquear o acesso a Copacabana na noite de amanhã, a tendência criminal nas viradas de ano passadas não deve se repetir.

— O fim das celebrações em Copacabana deve diminuir significativamente o número de roubos e furtos — prevê o professor da Uerj e membro do Laboratório de Análise de Violência Ignácio Cano.

Em 2019, a 12ª DP (Copacabana), que responde pela maior parte do bairro, teve em dezembro um crescimento de 27% no total de roubos e de 36% no total de furtos, na comparação com novembro daquele ano, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). A 13ª DP (que responde pela parte final de Copacabana, próxima à Ipanema), teve no último mês de 2019 um crescimento de 22% nos roubos e 24% nos furtos, também comparando com o mês imediatamente anterior.

Em 2018, as variações de roubos foram ainda maiores na comparação entre novembro e dezembro: 39% na área da 12ª DP e 31% na da 13ª DP. Em dezembro daquele ano, as ocorrências de furto também aumentaram, quando comparadas a novembro: na área da 12ª DP, o crescimento foi de 19%; na da 13ª DP, 27%.

As ocorrências do réveillon de Copacabana impactam, inclusive, nos índices de criminalidade do bairro em janeiro. Em 2018, 2019 e neste ano, janeiro foi o mês com mais casos de roubos e de furtos no ano. Ao longo de janeiro de 2019, por exemplo, foram registrados 286 roubos e furtos ocorridos em Copacabana no dia 31 de dezembro de 2018, de acordo com dados do ISP; 105 deles, somente na última hora do último dia de 2018.

Temor de ‘espalhamento’

O “efeito Copacabana” — aumento desses crimes também em outros bairros da Zona Sul no fim do ano — pode não se repetir. E o que se especula é que possa ocorrer um “espalhamento” dos índices, que acompanham as comemorações pela cidade.

Em 2019, por exemplo, dezembro teve aumento nas ocorrências de roubo na 10ª DP (Botafogo), 14ª DP (Leblon) e 15ª DP (Gávea), na comparação com novembro, enquanto apresentava queda nas áreas da 16ª DP (Barra), 42ª DP (Recreio), 18ª DP (Praça da Bandeira) e 19ª DP (Tijuca), por exemplo. Bairros das zonas Norte e Oeste que também apresentaram redução nas ocorrências de roubo em dezembro de 2019, como Bonsucesso, Penha, Bangu e Campo Grande, podem ir na direção contrária este ano, com a diluição das festas de réveillon.

A Região dos Lagos também pode sofrer um impacto nos índices de roubo em dezembro em função do cancelamento da festa em Copacabana. Com a decisão da Justiça que manteve Búzios aberta a turistas e o funcionamento de pousadas e hotéis nos outros municípios, a migração de turistas — e, por tabela, ‘de criminosos — pode empurrar para cima os índices de criminalidade. A tendência é oposta ao que ocorreu em 2019, quando cinco das sete delegacias da região tiveram menos registros de roubo em dezembro do que em novembro.

Sem festa em Copacabana, até outros estados poderão sentir um crescimento nos crimes. Como mostrou pesquisa da Riotur com 1.312 turistas em Copacabana na virada passada, quase 30% vieram de São Paulo, 14%, de Goiás e 12,5%, do Rio Grande do Sul.

Desafio é manter índices a partir de janeiro

Pesquisador do Laboratório de Análise de Violência da Uerj, o coronel da PM Robson Rodrigues acredita que, com a proibição do réveillon em Copacabana, um número menor de pessoas vai circular no bairro e isso vai se refletir numa redução de furtos e roubos no último mês do ano. O desafio será manter os índices de janeiro em diante, com a alta temporada e a tendência de desrespeito ao isolamento:

— Acho que vai diminuir, principalmente os furtos (no réveillon), já que este tipo de crime acontece mais quanto maior for a oportunidade, um momento de festas. Mas tem uma alta temporada por vir, e estamos verificando o comportamento das pessoas, principalmente no Rio de Janeiro, que não respeitam limites e isolamento. Então, as forças de segurança poderão ter um problema maior. Não só em virtude da Covid, mas também dos crimes, já que na alta temporada há mais pessoas circulando.

As polícias Civil e Militar informaram que manterão um esquema especial de policiamento. A Civil vai reforçar o número de agentes em Copacabana na virada e manterá uma central de flagrantes na 14ªDP (Leblon). Já a PM disse que a versão 2020/2021 da Operação Verão está atuando na orla do estado, e com a atribuição adicional de apoiar os órgãos municipais no cumprimento de medidas para evitar grandes aglomerações. Os policiais vão atuar durante o verão diariamente, com reforço de efetivo na capital e demais cidades litorâneas do estado.