Sem lugar no PNI, crianças e adolescentes voltam às aulas em agosto. Quais os riscos?

·7 minuto de leitura
A member of the Brazilian Armed Forces medical team examines a child from the Guajajara indigenous ethnic group, amid the spread of the coronavirus disease (COVID-19), at a community school in the indigenous village of Morro Branco in the municipality of Grajau, state of Maranhao, Brazil October 4, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Para que haja uma alteração na bula, permitindo que outras idades sejam incluídas, é preciso que a Anvisa faça uma análise técnica dos estudos (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
  • Na última terça-feira (20), o ministro da Educação, Milton Ribeiro, defendeu a volta às aulas presenciais, mesmo sem qualquer previsão de vacinação de crianças com menos de 12 anos no Brasil

  • Alguns estados brasileiros, como São Paulo, e a cidade do Rio de Janeiro, já tem data para imunizar adolescentes entre 12 e 17 anos; mais novos ainda não têm perspectivas de imunização

  • Especialistas defendem que vacinação de crianças com comorbidades seja urgente

Na última terça-feira (20), o ministro da Educação, Milton Ribeiro, defendeu a volta às aulas presenciais, mesmo sem qualquer previsão de vacinação de crianças com menos de 12 anos no Brasil e, sobretudo, com protocolos de segurança contra o coronavírus frágeis em muitas escolas do país.

Alguns estados brasileiros, como São Paulo, e a cidade do Rio de Janeiro, já tem data para imunizar adolescentes entre 12 e 17 anos, com a vacina da Pfizer, autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser aplicada nesta faixa etária.

O que se sabe sobre a possibilidade de vacinar crianças até agora

Em relação aos mais novos, no entanto, ainda não há perspectivas de imunização. A SinoVac, produtora da vacina CoronaVac, produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, realizou estudos clínicos de fase 1 e 2 com crianças a partir de 3 anos na China. A resposta foi positiva: o imunizante se mostrou seguro e eficaz.

Já no Brasil, o Butantan explicou que aguarda os estudos de fase 3, mas tem informado a Anvisa sobre as pesquisas que estão sendo feitas na China. Isso, no entanto, não quer dizer que a Anvisa tenha recebido, efetivamente, um pedido para alterar a bula da CoronaVac.

Leia também:

Ao Yahoo! Notícias, a agência afirmou que recebeu “apenas estudo publicado sobre o uso da vacina em crianças e adolescentes na China, bem como informações prévias enviadas pelo Instituto Butantan.”

Para que haja uma alteração na bula, permitindo que outras idades sejam incluídas, é preciso que a Anvisa faça uma análise técnica dos estudos.

A Pfizer, por exemplo, pediu a inclusão de adolescentes a partir de 12 anos e a autorização foi concedida. Sabe-se, também, que o laboratório está fazendo estudos nos Estados Unidos para incluir crianças mais novas, a partir de 2 anos, na bula da vacina contra a covid-19. A estimativa é que os resultados possam sair no quarto trimestre de 2021.

Ou seja, por enquanto, não há projetos para que crianças sejam testadas no Brasil. Procurado saber se há qualquer perspectiva de incluir crianças no Plano Nacional de Imunizações (PNI), o Ministério da Saúde não respondeu à reportagem.

Crianças com comorbidade

Vitor Nudelman, pediatra do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que é importante que essas pesquisas sejam feitas e afirma que crianças em grupos de risco já deveriam ser contempladas.

“Vai ser possível entender a eficácia e os riscos da vacinação nessa faixa etária. Acho que deveria haver estudos clínicos para crianças de grupos de risco receberem um reforço vacinal, bem como para adultos em grupo de risco e profissionais da saúde”, aponta.

Para o médico, a situação das crianças com menos de 12 anos com comorbidade é bastante delicada. “É uma situação muito difícil já que nem o fabricante nem o órgão regulador liberaram a vacina para uso nessa faixa etária. Até lá [volta às aulas presenciais], deveria haver uma possibilidade da criança de risco receber as terapias de apoio ou educacional a nível domiciliar”, opina.

A médica pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas, Gabriella Oliveira, concorda que as crianças devem voltar para à escola presencialmente, desde que protegidas por protocolos de segurança. 

"[Sem a escola], a gente tem prejuízo no desenvolvimento educacional, mas também falta de alimento, porque a maioria das crianças fazem a única refeição na escola. A escola também atua como proteção social da violência que o menor pode sofrer em casa. As pessoas que são mais favorecidas na escoal são as periféricas, negras, pobres, indígenas", diz.

SAO PAULO, BRAZIL - MAY 15: Francisca Cristiane carries her son  Artur outside her home in the Brasilandia neighborhood amid the COVID-19 pandemic on May 15, 2021 in Sao Paulo, Brazil. She said she won't send her children to school because of COVID-19 fears. Health experts are warning that Brazil should brace for a new surge of COVID-19 amid a slow vaccine rollout and relaxed restrictions. The state of Sao Paulo has registered over 3 million cases of COVID-19 and more than 100,000 deaths. Residents of Brasilandia suffered some of the highest death rates in Sao Paulo due to COVID-19 last year. Over 430,000 people have been killed in Brazil by COVID-19, second only to the U.S. (Photo by Mario Tama/Getty Images)
"A escola também atua como proteção social da violência que o menor pode sofrer em casa. As pessoas que são mais favorecidas na escoal são as periféricas, negras, pobres, indígenas" (Foto: Mario Tama/Getty Images)

Mas, assim como Nudelman, ela chama atenção para o número de crianças com comorbidades que não são contempladas pelo Plano Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde.

"A minha posição é que crianças com comorbidades deveriam estar na fila da vacina contra a covid-19, seja diabetes, hipertensão ou qualquer síndrome que comprometa a imunidade. No Brasil, 25% de todas as pessoas com comorbidades são crianças e adolescente. Deveriam estar nessa lista", diz.

Ao Yahoo! Notícias ela afirma que o número insuficiente de vacinas obriga o Ministério da Saúde a priorizar quem tem mais chances de desenvolver o estado grave da doença, como adultos e idosos. 

"A gente tem que entender que o objetivo da campanha é minimizar a doença grave em grupos vulneráveis e não erradicar a covid, que seria uma consequência. Mas temos que proteger os esses grupos e tentar vacinar o maior número de pessoas possíveis".

Estados e municípios têm autonomia sobre volta às aulas

Por lei, os estados têm autonomia para decidir sobre volta às aulas na rede estadual e os municípios, na rede municipal. No anúncio da última terça-feira (22), o ministro da Educação falou que o governo federal não tem autonomia sobre o tema.

"O ministro da Educação não pode determinar o retorno presencial das aulas. Caso contrário, eu já teria determinado", afirmou. Segundo ele, "a vacinação de toda a comunidade escolar não pode ser condição para a reabertura das escolas".

Na avaliação do pediatra Vitor Nudelman é “viável e até bom” que as crianças possam voltar às aulas presenciais, mas ressalta que os protocolos de segurança devem ser revisados periodicamente.

“O benefício da socialização e da comunicação/educação supera os riscos na situação atual na cidade de São Paulo. Mas isso deve ser revisado periodicamente, principalmente se houver disseminação da variante delta”.

Abilio da Cruz Pinto, 77, dressed as a Santa Claus inside a plastic bubble, greets a child in a shopping mall amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil December 15, 2020. REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
De acordo com o estudo, em relação às taxas de hospitalizações e de mortes causadas pelo novo coronavírus, em 2020, as crianças e adolescentes representaram 2,46% (14.638) das internações e 0,62% (1.203) das mortes (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Contágio entre crianças e adolescentes é mais baixo

Um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Pediatria publicado em março deste ano aponta que em 2021 o número de crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, que foram internadas ou morreram por causa da covid-19 caiu.

De acordo com o estudo, em relação às taxas de hospitalizações e de mortes causadas pelo novo coronavírus, em 2020, as crianças e adolescentes representaram 2,46% (14.638) das internações e 0,62% (1.203) das mortes.

Até o dia 1º de março, esses percentuais caíram para 1,79% (2.057) em hospitalizações e 0,39% (121) nas mortes. Os índices divulgados pelo estudo foram calculados proporcionalmente, ao longo de 2020 até março deste ano, com base nos registros atualizados do Ministério da Saúde.

"As crianças podem ser infectadas sim, mas não temos muita noção do papel delas na cadeia de transmissão da covid. São tempos dificeis e mesmo tomando todas as medidas de segurança pode ser que isso mude no futuro e a gente precise suspender as aulas", afirma a pediatra Gabriella Oliveira, que também é especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria.

Foco na imunização de profissionais da Educação

A médica conta que seu filho de 3 anos está frequentando as aulas presenciais, em São Paulo, mas que recentemente uma professora, que tomou apenas uma dose de uma vacina, foi infectada pela covid. Ele parou de ir à escola.

"Obviamente que não incluo nessa justificativa [de volta às aulas] as crianças com qualquer tipo de comorbidade. A gente fala da volta as aulas para crianças saudáveis, que não têm alterações na imunidade, nenhum tipo de imunodeficiência", acredita.

Por isso, enquanto o Brasil não realiza estudos clínicos para imunização de crianças e também não tem vacinas suficientes para todas as faixas etárias, Oliveira diz que o importante é a "proteção de professores e funcionários" para o retorno das atividades presenciais.

"O mais importante sobre o retorno as aulas é a proteção dos professores e dos funcionarios da escola: o foco não são as crianças, exceto as que têm comorbidades. Temos que lidar com ciência e dados, sendo realistas".

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos