Sem médicos, Hospital do Andaraí fecha especialidades e restringe emergência

Lucas Altino
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Foto: ROBERTO MOREYRA / Agência O Globo

RIO — O Hospital Federal do Andaraí está com suas especialidades fechadas e funcionando com apenas sete leitos de emergência, apenas para casos mais graves, por causa da falta de profissionais. A denúncia foi feita ainda na noite de quarta pelo Sindicato de Médicos do Rio (SinMed-RJ) e pode ser confirmada pelo painel de monitoramento de leitos da prefeitura. Os dados mostram que há 12 pacientes para os sete leitos, uma ocupação de 171% e setores como clínica e cirurgia geral estão fechados porque estão "sem chefe de equipe no plantão", conforme acusa o sistema. Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), o Hospital do Andaraí possui 273 leitos, somando todos setores.

O diretor do SinMed-RH, Carlos Vasconcellos, explica que os contratos de profissionais temporários do hospital se encerram nessa semana ou até o dia 31, mas os funcionários já pararam de trabalhar a partir dessa quinta. A decisão de restringir o atendimento na unidade, então, se deu pela falta de médicos suficientes. Segundo ele, os contratos temporários representam 35% do total de funcionários do Andaraí.

— Não mantiveram os funcionários e não chamaram os substitutos. Agora fecharam leitos no único dos 6 hospitais federais em que ainda disseram ceder leitos, ainda que muito poucos, para Covid. Um vexame. O hospital está mantendo sete leitos, para pessoas com grave risco de vida ou pacientes com câncer, que já são atendidos lá dentro. Então, na prática, a emergência está fechada para a população e os pacientes com Covid vão para a regulação (fila de transferência) — afirmou Vasconcellos.

No painel da Secretaria municipal de Saúde (SMS), que monitora os leitos da cidade em tempo real, consta que o Hospital do Andaraí tem sete leitos de emergência na sala vermelha, com 12 pacientes - 171% de ocupação. Já na sala amarela, não aparecem leitos, apenas na ala pediátrica: seis leitos e quatro ocupados. Nas especialidades do hospital, nenhuma está funcionando, pois aparecem classificações "restrito" ou "impedido". Na clínica e cirurgia geral o motivo é "sem chefe de equipe no plantão, emergência com restrição pelo Cremerj, atendimento somente emergencial". Já a cirurgia vascular e ortopedia estão sem médicos de plantão, e a pediatria sem estrutura de UTI.

Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), o Hospital do Andaraí possui 16 leitos de UTI além de outros 14 de UTI para queimados. A pediatria clínica contaria com 12 leitos e o maior setor é da cirurgia geral, com 66 leitos, seguido pela clínica geral, com 37. Somadas todas as especialidades, o número é de 273 leitos, segundo o CNES.

Ex-presidente do Cremerj, o médico Sylvio Provenzano realizou uma vistoria no Hospital do Andaraí no meio do ano passado, quando verificou diversas irregularidades, em especial a insuficiência de Recursos Humanos. Na ocasião, o Cremerj decretou a "interdição ética" da emergência, medida que funciona como alerta às autoridades sobre o risco aos pacientes e aos médicos.

— Não temos autoridade legal para fechar emergência, por isso fazemos interdição ética. Já tem um ano e meio e nenhuma providência foi tomada para corrigir as irregularidades. O mais importante era a falta de pessoal, a carência de profissionais para o atendimento adequado. E, com o encerramento de contratos temporários, piorou o que já estava ruim — explica o médico, que já foi chefe de plantão do Hospital do Andaraí entre 1999 e 2000. — Na minha época, tínhamos quatro, cinco clínicos durante o dia no plantão, e outros três à noite. Na nossa vistoria ano passado, vimos que às vezes só havia um clínico para o plantão inteiro, assim não tem como manter aberto.

Procurado, o Ministério da Saúde não respondeu. O GLOBO também tentou contato com o hospital por telefone, mas não obteve informações. Na recepção da unidade, apenas duas pessoas procuravam atendimento na manhã desta quinta, e o hospital aparentava estar vazio.