Sem metáforas

Pouco se tem escrito sobre a espécie de anestesia cívica que assola a nossa sociedade nesse cenário de cansaço pandêmico, e sob o acirramento de tantas tensões sociais, empobrecimento de milhões de pessoas em cenário tão próximo de nós, e sobretudo de violência de toda ordem, a contaminar nossos dias, como uma, cepa, ardilosa, de alta transmissão.

Seria essa violência inaudita, porque permanente em nosso cotidiano, no qual ler jornais ou assistir noticiários, uma nova forma de tormento contemporâneo, porém irresistível? O que ainda pode nos chocar, numa realidade como a nossa, quando por um lado, depois de tanto tempo de pandemia, respiramos aliviados porque vacinas para as crianças foram aprovadas e nosso esforço será de manter um bom nível de informação às famílias e alcançar uma boa cobertura vacinal, e por outro, sabemos que um médico pode ter chegado ao inimaginável com pacientes? O que nos lança a reiniciar cada dia, em nossos ofícios de cuidar, sobretudo, é a certeza de que esse não é apenas um tempo subjetivo, mas algo a ser superado. Não perdendo a crença no ser humano. Sabemos que só a educação e acesso aos melhores serviços básicos de saúde, e direitos civis de proteção, poderão reduzir a violência doméstica, onde tudo começa, e no trato entre pessoas, adultos e crianças, homens e mulheres.

Uns céticos peroram sobre o “fim dos tempos”, inutilmente. Retórica vazia. Somos uma casa do tempo. Tempo como o vento, que não se vê, mas vemos os galhos que move, a poeira que levanta, as cicatrizes que se nos impõe. Nossos corpos e memória trazem as marcas, a prova desse tempo a ser vencido. Ao buscar um racional para a interdição do sublime, como as conquistas da ciência, ou os inúmeros gestos e ações individuais e coletivas que testemunhamos ao longo desses tempos duros, não encontramos, exceto pela violência pura. Quando falamos do sublime, é de liberdade e respeito pelo diferente que o fazemos. Ver algo como perigoso, independentemente da cultura, nos levaria a enumerar muito exemplos, porém cito apenas um: sabemos que sob o regime Talibã, no qual as mulheres sobrevivem aprisionadas em burcas, sem rosto, no Afeganistão, elas não têm direito nem a ter passarinhos em gaiolas, pela simples razão de que eles cantam. Música e mulheres são historicamente associadas ao diabólico, ou profano, em culturas integristas e isso vem desde os registros de Platão, em A República, que proscrevia certos tipos de música porque mexiam com as emoções, até a Inquisição, para a qual música enfeitiçava e portanto, seria perigosíssima. Não seria mal comparar atribuir às mulheres portanto, a culpa da violência que sofrem, como frequentemente assistimos na argumentação vigente.

Discursos de ódio e discriminação, contra as diferenças, são o ventre onde se gesta a violência que vai se materializar, e historicamente antecederam os atos abomináveis dos quais a humanidade foi e é capaz, como no maior de todos, o Holocausto, nos massacres separatistas da ex-Iugoslávia, ou dos Tutsis em Ruanda, ou atualmente do povo Royinga em Miamar, ou aqui, em nossa terra, de nossos sofridíssimos povos indígenas, nossas mulheres e crianças. Que imaginação diabólica apostaria que no Brasil, após esse excesso de luto, com mais de 670 mil mortes pela Covid -19, com uma alta mortalidade inclusive entre crianças, estaríamos contando os milhares que entram a cada mês, em nível de vida abaixo da linha de pobreza, como apenas um dado estatístico a mais?

Sabemos que epidemias são sempre desafios que geram investigações fascinantes, que poderiam ser roteiro de séries cinematográficas, factuais, além de despertarem a imaginação para cenários de filmes catástrofes como já houve vários. No Brasil, nesse filme de terror, como vamos fechar essa conta, entre curados, mortos, vacinados, e atingidos pela desigualdade, obscena? Para pensar.

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