Sem muita expectativa: mesmo com vacinação, máscaras seguirão sendo protagonistas

Anita Efraim
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different types of protective face mask against blue background
Foto: Getty Images

A perspectiva do início da vacinação contra o coronavírus no Brasil está mais próxima. O ministério da Saúde prevê que a imunização em massa comece no dia 20 de janeiro, caso a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprove o uso emergencial de vacinas no próximo domingo, 17. Isso, no entanto, não quer dizer que a máscara deverá ser dispensada.

Algumas vacinas já estão sendo aplicadas em diversos lugares do mundo, como os imunizantes da Pfizer/BioNTech, da Moderna, da AstraZeneca/Universidade de Oxford, a CoronaVac e a Sputnik V. Todas elas são ministradas em duas doses e o que se sabe é que o efeito de imunização passa a valer cerca de duas semanas depois da aplicação da segunda dose.

“Não se deve parar de usar a máscara após a primeira dose, porque todos os estudos que verificaram a eficácia da vacina mediram infecção pelo coronavírus uma ou duas semanas após a segunda dose. Então, qualquer infecção que acontecesse antes disso não foi considerada, por exemplo, uma falha da vacina”, explica a pneumologista Leticia Kawano Dourado, membro do desenvolvimento de diretrizes em manejo da covid-19 da Organização Mundial da Saúde.

“Nosso conhecimento ainda está sendo construído sobre a eficácia da vacina, então, de forma nenhuma as pessoas devem abandonar o uso de máscara, distanciamento físico, higiene das mãos, evitar locais aglomerados, até duas semanas após a segunda dose”, aponta.

Hélio Bacha, médico infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que as doenças naturais dão mais proteção do que a resposta imune do que as vacinas. Dessa forma, se ter contraído a covid-19 não impede a reinfecção, a vacina não será uma justificativa para deixar a máscara e outros cuidados de lado.

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“Se você pegar sarampo, por exemplo, a vacina do sarampo tem uma proteção muito grande, mas sempre é inferior à doença. Nós não temos imunidade para doença natural do covid-19 que te autorize a retirar máscara, a proteção. Eu, por exemplo, tive a doença, e teoricamente, se fossemos ter imunidade absoluta, quem tivesse a doença poderia atender os pacientes sem máscara, sem luva, o que não acontece”, explica.

“E a vacina, nós não temos nenhuma expectativa de que será uma resposta pronta e definitiva contra o coronavírus. Nem sabemos o quanto tempo perdura a imunidade causada pela doença natural, muito menos o da vacina. Então, nós temos como perspectiva atual de que a vacina será mais um instrumento de barreira. Só a máscara revolve? Não resolve. Só lavar as mãos resolve? Não resolve. É o conjunto disso que faz um impacto contra a epidemia. A gente espera que a vacina tenha um impacto como nenhuma outa medida teve, mas vai ser só uma medida a mais, mesmo que seja a mais eficaz delas.”

MÁSCARAS APÓS A PANDEMIA

Antes da pandemia de coronavírus, usar máscara era um costume em poucas partes do mundo. Chineses, por exemplo, já tinham o hábito de usar a proteção em épocas de influenza, como lembra a médica epidemiologista Denise Garret.

“Em termos do futuro de máscara, eu vejo sim uma mudança, uma adoção desse tipo de comportamento para quando houver sensação de risco”, opina. Ela acredita que a pandemia do coronavírus ainda levará um tempo para ser controlada e, quando for, as máscaras devem ficar.

“Primeiro, vai demorar um tempo para essa pandemia estar controlada no mundo inteiro, então, certamente a máscara ainda vai ser uma ferramenta de proteção, até que haja esse controle. Mas, mesmo com o controle dessa pandemia, outras pandemias virão, outras ameaças respiratórias virão. E o fato de a população ter a consciência que mascara protege de infecções respiratórias traz uma mudança de comportamento. Vai se assemelhar ao comportamento de asiáticos, que usam máscara em temporada de influenza, por exemplo”, diz.

Hélio Bacha relata que, pessoalmente, gostou da adoção do uso de máscaras e se questiona se esse cuidado continuará. “Além de me proteger contra o coronavírus, a máscara me protegeu contra outras doenças infecciosas respiratórias, e isso foi um conforto”, afirma. “A imagem que me dá do passado é que nós não tínhamos o menor cuidado com as infecções respiratórios, e as infecções respiratórias são muito comuns. A gripe, os vírus do que a gente chama de resfriado, geralmente nós subestimamos quando somos jovens, mas podem ser podem ser morbidades que causam dano.”

Para o infectologista do Hospital Israelita Albert Eintein, mesmo após o fim da pandemia do coronavírus, as máscaras podem ser usadas como medida para pessoas com doenças respiratórias ou para aqueles em idade avançada.