Sem as pernas tortas, Garrinsha é promessa haitiana na Série D

Garrinsha atente o telefone e a qualidade do português impressiona. São menos de três anos no Brasil, tempo suficiente para não misturá-lo com o francês e o criolo haitiano que trouxe de casa. O atacante do Pérolas Negras, time que disputa a Série D do Brasileiro, é disciplinado. Faz aulas na internet, tira dúvidas com os colegas de elenco. O isolamento forçado da pandemia trouxe tempo de sobra para os estudos.

Toda palavra nova, ele anota em um caderno. As primeiras que aprendeu o ajudaram entender as brincadeiras com o nome, que o tornou atração para a torcida. Garrinsha Estinphile foi batizado assim em homenagem ao ex-jogador Garrincha, ídolo do Botafogo e da seleção brasileira, bicampeão do mundo em 1958 e 1962. Coincidência, o meia-atacante também gosta de jogar pelos lados do campo. Sem as pernas tortas como as de Mané.

— Quando eu comecei a crescer, entender as coisas, fui procurar saber quem ele era. Assisti a vídeos. Foi um craque. Eu me orgulho do meu nome — afirma.

Ele ajuda a explicar o que levou o jovem de 20 anos do Haiti a buscar no futebol o caminho para mudar de vida. Seu pai foi jogador e atualmente ensina futebol na ilha do Caribe. Fã do futebol brasileiro, decidiu deixar isso bem claro ao registrar o filho. A troca o “C” pelo “S” garantiu que a pronúncia fosse a mesma da original.

Garrinsha começou a treinar futebol criança, influência paterna, na matriz do Pérolas Negras, uma projeto social que a ONG Viva Rio criou no país em 2009. Ainda adolescente, destacou-se nos treinos a ponto de ter a vinda para a filial brasileira recomendada pelos treinadores de lá.

Porém, a viagem foi vetada em casa. Os pais disseram a Garrrinsha que somente se terminasse os estudos no Haiti, poderia vir para o Brasil tentar se tornar jogador de futebol.

Aos 18 anos, cumpriu sua parte no combinado. Desembarcou no Rio no fim de 2019, a tempo de ver o Flamengo de Jorge Jesus jogar. Admite que, apesar da história do Garrincha original com o Botafogo, tem queda especial pelo rubro-negro.

As coisas começaram a andar de verdade para ele no Brasil a partir do ano passado. O haitiano teve participação importante na campanha do título da Copa Rio, que deu ao Pérolas Negras o direito de disputar a Série D este ano, feito inédito na curta história da equipe, criada no Brasil em 2016. Garrinsha foi titular em três de nove partidas, incluindo o segundo jogo da final, contra o Maricá. Em apenas uma ocasião não entrou em campo.

Na atual temporada, ele perdeu o status de 12º segundo jogador da equipe treinada por Maurinho Fonseca. Jogou por 19 minutos na partida de estreia na quarta divisão nacional, derrota para o Santo André por 2 a 1, e ficou fora até do banco de reservas nas partidas seguintes, contra Cianorte e Portuguesa-RJ. O Pérolas Negras reforçou o elenco para disputar a competição nacional e a concorrência ficou mais forte.

Sábado, a equipe enfrentou o Nova Iguaçu e cravou o terceiro empate (1 a 1) consecutivo na competição. O time é o 7º no equilibrado Grupo G. Semana que vem o adversário será o Paraná Clube, em casa.

O desafio de Garrinsha agora é manter o viés de crescimento na carreira para ter condições de trazer os parentes para o Brasil— ele não vê os pais e a irmã mais nova desde que deixou o Haiti. Só assim para se livrar de uma palavra em português que aprendeu tão bem: saudade.

— Meu primeiro sonho era me profissionalizar e isso eu já consegui. Gosto muito do Brasil, quero fazer carreira aqui, quem sabe me transferir para o exterior. O ruim é ficar tanto tempo sem ver a família.

O Pérolas Negras segue voltado para o trabalho social, mesmo evoluindo no cenário do futebol. Seu elenco conta com jogadores revelados em times de comunidades carentes do Rio. A equipe também acolhe refugiados. Atualmente, ela tem outro haitiano no elenco, além de Garrinsha: o zagueiro Badio. A cada gol marcado pela equipe na Série D, o Pérolas se comprometeu a plantar 100 árvores em Resende (RJ).

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