Sem reforma, Brasil não retomará crescimento, diz correspondente da Economist

Arthur Menicucci
Comissão Especial da Câmara deve votar até quinta-feira a reforma da previdência. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A reforma da Previdência é essencial para que o Brasil volte a crescer de forma expressiva, segundo o correspondente da revista britânica The Economist no país, Jan Piotrowski. A reprovação da proposta pode causar o afastamento de investidores e criar um grande obstáculo para o corte de gastos públicos, ação importante para a retomada da economia.

Para Piotrowski, o projeto aprovado na comissão especial da Câmara é o passo seguinte, depois da aprovação da PEC do Teto do Gasto, para que investidores internos e externos reencontrem a confiança na economia brasileira.  

Segundo pesquisa do instituto Datafolha, 71% dos brasileiros são contrários a reforma da previdência e 64% desaprovam a reforma trabalhista – que já foi aprovada na Câmara e será discutida no Senado.

“[Sem a reforma] Não sei se a gente volta para recessão, mas não vai haver uma retomada expressiva do crescimento”, afirma Piotrowski, que é PhD em linguística e filosofia pela Universidade de Warsaw, na Polônia.

“Vai ter uma saída de investidores, um resfriamento das perspectivas para o Brasil entre os investidores estrangeiros. Com certeza será muito mais difícil crescer sem investimento tanto estrangeiro como doméstico”, aponta.

Segundo ele, é consenso entre economistas e investidores que o Brasil deve reduzir o gasto público para diminuir os juros e voltar a crescer. Reformas da Previdência, Trabalhista e Tributária são fases importantes para a retomada, na visão do especialista.

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“Os investidores estrangeiros têm consciência que o brasileiro tem que limitar o gasto público. Eles saudaram a PEC do Teto do Gasto, mas sabem que essa PEC é incompleta. Eu acho que eles estão olhando de fato para o que vai acontecer com essa reforma”. 

O correspondente acrescenta, ainda, que sem a reforma previdenciária é impossível respeitar a PEC do Teto dos Gastos. “A previdência representa mais ou menos 40% dos gastos da União.  Até 2026, sem mudança, a previdência seria algo como 80% da economia federal. Fica 20% para todas as outras despesas do pais. Isso é claramente impossível”.

PREVIDÊNCIA ULTRAPASSADA

Piotrowski argumenta que há incoerência no sistema previdenciário brasileiro. “Um fato que acho completamente impossível de acreditar é o seguinte: Brasil tem 8,5% da população com idade de 65 anos ou mais. Isso é metade da média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), que é 16%. Agora, a despesa da previdência pública para o regime geral do INSS é 12% do PIB. Na OCDE, a despesa média desses países muito mais velhos é de 8%. Ou seja, o Brasil gasta 50% a mais do PIB com previdência do que países que têm duas vezes mais idosos. Isso não é sustentável, claramente”. 

Ainda que necessária, a reforma da previdência é tema controverso para os brasileiros, como mostrou a pesquisa Datafolha divulgada no último dia 1ro. O correspondente, porém, acredita que os investidores estrangeiros, que atualmente veem com bons olhos as propostas de austeridade de Michel Temer, podem balançar se houver mais modificação do projeto ou se ele demorar a ser sancionado.

“O ‘gringo’ está olhando para que se mantenha os pilares dessa reforma. Se isso não acontecer até o terceiro trimestre, a visão do estrangeiro provavelmente muda”.