'Sem saída': a vida em Chernobyl sob a ocupação russa

RIO — A tomada de Chernobyl pelas forças russas foi marcada pelo corte de energia elétrica e pela vigia dos funcionários. Em 1986, a usina foi cenário do pior acidente nuclear do mundo e, desde então, está sob manutenção de milhares de trabalhadores ucranianos e é observada de perto por especialistas internacionais para conter seus resíduos nucleares.

Durante anos, um sistema de turnos e uma rede de vigilância conseguiu manter um controle rígido dos níveis de radiação nas instalações, até que as forças russas entraram no país a partir de Belarus e tomaram Chernobyl, onde fizeram os trabalhadores reféns e isolaram a central do mundo.

Como supervisor noturno, Shelestiy tinha sob sua responsabilidade uma equipe de 12 pessoas, responsáveis por monitorar o abastecimento elétrico em Chernobyl, onde um enorme sarcófago cobre os restos de um reator nuclear destruído para evitar a possível contaminação radioativa.

"Não estávamos preparados mentalmente para isto", comentou Shelestiy à AFP. "Mas não havia saída. A pressão emocional e psicológica não permitiu ficar concentrado nisto. Tentamos fazer nosso trabalho e controlar todos os parâmetros para que nada acontecesse", recorda.

O período mais tortuoso da ocupação começou em 9 de março, quando a energia elétrica foi cortada na central devido aos combates nas proximidades, de acordo com Shelestiy, embora os especialistas tenham destacado que a tragédia de 1986 não poderia voltar a acontecer devido à ausência de um reator operacional.

Durante dias, os trabalhadores dependeram, primeiro, das reservas de diesel para ter energia elétrica e, depois, que os russos fornecessem combustível para que conseguissem conectar-se à rede bielorrussa.

Ao mesmo tempo, os ucranianos bloqueados na central só conseguiam receber notícias sobre o que acontecia fora de Chernobyl por transmissões de rádio e com as eventuais ligações para casa por uma das linhas telefônicas da central.

"Foi mental e emocionalmente difícil", afirmou Shelestiy, ao recordar que os funcionários eram vigiados de perto e obrigados a navegar por uma rede complexa de postos de controle instalados pelos russos na central, o que complicava as tarefas.

Desde então, as autoridades ucranianas acusam os russos de ignorar a segurança básica durante a ocupação de Chernobyl. Eles afirmam que os soldados cavaram trincheiras e montaram acampamentos em áreas contaminadas.

"Eles cavaram no solo contaminado com radiação, coletaram areia radioativa em sacos como fortificação, respiraram esta poeira", comentou em abril o ministro ucraniano da Energia, German Gulashchenko, para quem as tropas russas foram expostas a uma quantidade "impactante" de radiação.

"Cada soldado russo levará para casa um pedaço de Chernobyl. Vivo ou morto", acrescentou o ministro.

O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, disse posteriormente que foi registrado um "aumento nos níveis de radiação" de Chernobyl, mas que estava sob controle.

Shelestiy não pôde confirmar os detalhes sobre a suposta má conduta russa em Chernobyl, onde precisou permanecer em posto e teve pouca interação com os soldados.

Em meio à incerteza, Shelestiy disse que tentou tranquilizar sua equipe, cujas famílias na cidade vizinha de Slavutych estavam cercadas pelas forças russas. O prefeito de Slavutych, Yuriy Fomichev, teve que ajudar a contrabandear mantimentos para a comunidade e tranquilizar as famílias dos trabalhadores presos.

Slavutych foi construída após o acidente de Chernobyl como um assentamento para as famílias retiradas que moravam perto da central em 1986, nos últimos dias da União Soviética.

Para muitos moradores, ver Chernobyl em um cenário de caos provoca más recordações. "Estávamos preocupados, nervosos", comentou Tamara Shyrobokova, de 75 anos, ex-funcionária de Chernobyl radicada em Slavutych.

"Eu estava literalmente em choque pelo fato de a Rússia atacar a Ucrânia, ninguém poderia imaginar", acrescentou.

Todo o episódio deixa Shelestiy perplexo. Ele foi libertado após uma rodada de negociações, antes que os russos se retirassem para direcionar suas tropas à batalha de Kiev. "Eles disseram que queriam me libertar de algo, mas eu não entendi de quê", disse Shelestiy. "Não entendi".

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