Amor, obsessão, sangue, zumbis... 'Sem seu Sangue' é muito mais que um horror teen

Rafael Argemon
·Redator Sênior HuffPost Brasil
·10 minuto de leitura

O que um filme sobre a intensidade do primeiro amor teria em comum com uma história que traz elementos como hemofilia, vodu e zumbis? Pois é (mais ou menos) isso que você encontrará em Sem seu Sangue, filme brasileiro que estreou no ano passado na Quinzena dos Realizadores do 72º Festival de Cannes e que chegou na sexta (20) ao catálogo da Netflix.

Primeiro longa da carreira da cineasta Alice Furtado, Sem seu Sangue conta a história de Silvia (Luiza Kosovski), uma adolescente introspectiva e desinteressada pela rotina, que acredita ter encontrado em Artur (Juan Paiva) algo que a faça sentir-se mais viva.

Ele surge inesperadamente em sua turma depois de ter sido expulso de várias escolas. Silvia fica fascinada pela vitalidade do garoto, que, no entanto, sofre de hemofilia, doença hereditária que impede o sangue de coagular corretamente. Os dois mergulham em uma convivência intensa, interrompida por um grave acidente, que vai abalar a vida da jovem e levá-la a caminhos inesperados e sombrios para ter seu amor de volta.

Mesmo sem ter uma estrutura clássica de horror, Sem seu Sangue retrata as contradições da paixão e desejos em ebulição dos corpos adolescentes avançando lentamente pelos caminhos tortuosos do terror. Mas Alice avisa: “No começo eu assumia muito isso, mas acabava frustrando os fãs do gênero.”

A ideia de Sem seu Sangue, que foi filmado em 2018, nasceu bem antes, em 2012, de questionamentos que a diretora tinha nessa época. “2012 foi para mim uma época muito cinéfila, em que eu estava particularmente interessada no cinema de horror, em especial o horror clássico, dos anos 1940, como os filmes de Jacques Tourneur que acabaram influenciando de várias formas diferentes Sem seu Sangue. Achei que esses dois interesses se combinavam bem, e comecei a escrever a história da Silvia.”

E, segundo a cineasta, assim que decidiu contar a história de uma garota que recusa-se a perder o primeiro amor, a “ressuscitação” se impôs imediatamente como tema. O filme envereda pelo subgênero dos filmes de zumbi, na figura do livro Magic Island, escrito por William Seabrook em 1929, um diário de viagens que, de forma bastante sensacionalista e questionável, apresentou a cultura do vodu haitiano ao resto do mundo e tornou-se extremamente popular, com suas histórias de mortos-vivos e feitiçarias.

Para entender melhor o que é realmente Sem seu Sangue e de como ele foi concebido, o HuffPost bateu um papo exclusivo com Alice Furtado.

A cineasta Alice Furtado durante as filmagens de "Sem seu Sangue". (Photo: Divulgação)
A cineasta Alice Furtado durante as filmagens de "Sem seu Sangue". (Photo: Divulgação)

HuffPost: Para quem viu apenas o trailer, Sem seu Sangue pode parecer simples de definir como um “terror teen”, mas é bem mais complexo que isso. Como você descreveria o seu filme?

Sem seu Sangue é uma história de amor adolescente que acaba enveredando um pouco para o horror. É uma história sobre o desejo feminino, de um feminino que vem de dentro, do próprio corpo, que mergulha fundo nisso e assume todos os lados disso, do mais potente ao mais terrível que há dentro dele.

Você acha que a adolescência em si já é um “filme de terror”?

Acho que isso faz mais sentido do que chamar Sem seu Sanque de filme de terror. No começo eu assumia muito isso, mas acabava frustrando os fãs do gênero. É, realmente a adolescência é um período bem difícil, mais terrível da vida, mas ao mesmo tempo muito empolgante. Tudo é muito intenso. Um período de muitas descobertas, de grande abertura. Mas essa abertura dá muito medo.

Realmente, Sem seu Sangue não é um filme de terror na sua concepção mais tradicional, mas não deixa de ter muitos elementos de terror físico. É bem curioso o fato do gênero, especialmente por aqui, ter sido abraçado por muitas cineastas mulheres, como a Gabriela Amaral Almeida, Juliana Rojas, Anita Rocha da Silveira... Como você vê isso? É uma coincidência ou é mesmo uma identificação especial da nova geração de diretoras com esse gênero?

Acho que existe uma identificação no sentido de querer falar sobre um lado das personagens femininas que geralmente é ignorado. As mulheres no cinema sempre tiveram muito esse papel de uma figura angelical. O lado sombrio dessas personagens sempre foi muito negado. Acho que por conta disso existe uma vontade de trazer para fora nossas bruxas, um lado mais sombrio do feminino, uma coisa mais complexa, de se assumir todos os lados desse feminino e tentar trazer um pouco mais dessa liberdade. Acho que essa libertação do feminino acaba casando muito bem com o horror.

Uma coisa que Sem seu Sangue e Mate-me, Por Favor [de Anita Rocha da Silveira] têm em comum é essa vontade de casar o medo e o desejo, sentimentos que caminham muito juntos em uma menina que está descobrindo o sexo. Essa vontade existe dos dois lados, algo que é muito empolgante, mas muito assustador também. Algo que causa atração e medo ao mesmo tempo, brincando com esse limite.

Luiza Kosovski e Juan Paiva como Silvia e Artur em cena de "Sem Seu Sangue". (Photo: Divulgação)
Luiza Kosovski e Juan Paiva como Silvia e Artur em cena de "Sem Seu Sangue". (Photo: Divulgação)

Quando vi Sem seu Sangue, lembrei muito de um “filme de zumbi” dos anos 1970 chamado Sonho de Morte (Deathdream), em que uma mãe de um jovem soldado lutando na Guerra do Vietnã deseja a volta dele com tamanha força que, mesmo sendo morto em combate, ele volta para casa, mas bem diferente do que era antes. Queria que você falasse um pouco sobre suas influências ao criar Sem seu Sangue.

Que legal! Não conheço esse filme, mas vou procurar. A minha principal influência é Cemitério Maldito, do Stephen King. Não o filme, o livro mesmo. Não curto tanto o filme, mas o livro eu acho impressionante, porque você embarca muito fundo na vontade do personagem de recuperar o objeto do amor dele que foi perdido. Você quer muito que ele consiga isso, mas ao mesmo tempo você já sabe que aquele é um caminho maldito, que aquilo dará em uma tragédia. Mas, mesmo assim, você não consegue não ficar junto daquele personagem, torcendo para aquilo que ele quer aconteça. De fora, você vai tomando todas as decisões irracionais que ele toma. Eu queria que o espectador do Sem seu Sangue tivesse uma relação semelhante com a Silvia. De entender porque ela é tão apaixonada pelo Artur, porque o que acontece deixa um vazio tão enorme e o quanto é necessário para ela fazer tudo o que for possível para voltar a viver aquele amor. E nós sabemos que o caminho que ela toma é o pior possível.

Falando sobre o terror físico, aquela cena da endoscopia da Silvia me lembrou muito uma de O Exorcista, quando a Regan [a garota possuída pelo demônio] faz um exame clínico muito intrusivo. Por mais que o filme mostrasse várias cenas terríveis, aquela do exame, que não tem nada de sobrenatural, sempre foi a que me impressionou mais.

Curioso você ter falado sobre essa cena porque outra pessoa que conversou comigo não faz muito tempo teve a mesma percepção. Faz muito tempo que não vejo O Exorcista, mas faz todo o sentido. São duas meninas meio “demoníacas” que precisam ser investigadas, diagnosticadas. Essa questão da doença está muito presente no filme. A doença do Artur traz esse fascínio de se estar eternamente em um jogo entre a vida e a morte e ele próprio fica desafiando esses limites. E a Silvia, ao mesmo tempo que se ressente disso, também se interessa por esse risco. A relação dos dois se fundamenta nisso.

Essa questão da hemofilia é muito mais uma alegoria do que a doença real. É uma hemofilia do ponto de vista alegórico, desse sangue que jorra sem parar, como o destino que não controlamos. Mas há outras “doenças”. É um filme em que a doença está presente em todos os lugares. Por isso até o título em inglês, que eu gosto muito [Sick Sick Sick], mas que em português não funciona. É uma forma de reiterar esse estado doente dela de maneiras diferentes. Primeiro há essa “doença” do amor, que já a deixa em um estado disfuncional, depois ela entra em um processo de psicossomatização, doenças mais do corpo mesmo, e que aos poucos vai chegando na doença mais mental, da obsessão, um estado doente de se encarar a realidade.

Como você encontrou a Luiza [Kosovski]? Parece que ela nasceu para esse papel! A cara de doente dela convence bastante.

Total! [risos] É muito curioso você falar que parece que ela foi feita para essa personagem porque se você conhecer ela pessoalmente, ela não tem nada a ver com a Silvia. Ela é uma menina super doce, alegre, fofinha, que faz muitas piadas... Ela é super leve, que não traz nada da carga sombria da Silvia. No processo de filmagem, ela realmente se transformou na Silvia de uma forma que parecia que quem estava sempre lá com a gente nas filmagens era mesmo a Silvia. Quem descobriu a Luiza foi o produtor de elenco. O Giovani Barros foi em algumas aulas de teatro no Tablado [escola de atuação no Rio de Janeiro] e viu a Luiza esperando a vez dela participar de um exercício, de saco cheio. Ele achou interessante a forma como ela estava ali, impaciente, e me disse que achava que tinha achado a atriz certa. E quando a gente se conheceu, eu entendi que ela tinha essa facilidade de cooptar esses dois estágios. De um lado uma adolescente muito doce e de outro alguma coisa mais densa, sombria.

"Torcemos por Silvia, estamos do lado dela, mas sabemos que o caminho que ela toma é o pior possível", diz a diretora Alice Furtado sobre a jornada de sua protagonista. (Photo: Divulgação)
"Torcemos por Silvia, estamos do lado dela, mas sabemos que o caminho que ela toma é o pior possível", diz a diretora Alice Furtado sobre a jornada de sua protagonista. (Photo: Divulgação)

Sem seu Sangue estreou em Cannes, passou por alguns festivais e acabou estreando nos cinemas em plena pandemia, o que é irônico por ser um filme que trata de doenças...

Sabe que eu não tinha pensado nisso! Mas sabe que muitas coisas estranhas relacionadas a doenças aconteceram nas filmagens? Várias pessoas da equipe ficaram doentes. Toda vez que isso acontecia, ficávamos amaldiçoando o nome do filme, como se ele tivesse alguma culpa. E ainda tem isso da pandemia!

Mas o que eu queria dizer é que ele agora está estreando na Netflix, que tem um público bem maior e diverso do que frequentadores de festivais e até das salas de cinema fora do eixo dos blockbusters. Esse fato de ter seu filme lançado na Netflix te causa terror?

Desde a primeira exibição em Cannes eu resolvi que eu não ia ficar me torturando quanto à recepção do público. Eu já entendi que esse filme divide muito os espectadores. Algumas pessoas embarcam muito fácil na jornada da Silvia e outras não se conectam de forma alguma e rejeitam tudo o que o filme apresenta. Isso é uma coisa que fui processando ao longo do ano passado inteiro e hoje em dia estou bem tranquila quanto a isso. O filme divide muito o público e eu não fico mais em uma expectativa x ou y. Eu sei que, com certeza, muita gente vai chegar desavisada ali no catálogo da Netflix e vai achar o filme algo muito estranho e desafiador. Tenho certeza que muita gente vai ficar puta [risos]. Já imagino isso acontecendo.

No início, eu ficava lendo comentários, ficava indo atrás sobre o que as pessoas estavam falando do filme, mas agora eu já percebi que isso nem faz muito bem. Quando as pessoas vão dar uma resposta mais imediata ao filme sempre acaba pegando apenas um aspecto dele e Sem seu Sangue é um filme que funciona mais quando você passa mais tempo com ele, quando consegue digeri-lo por mais tempo. Sei que algumas pessoas vão gostar, outras detestar... A vida é assim mesmo. Agora estou tranquila sobre isso.

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