Sem treinamento, soldados ucranianos usam internet para aprender a guerrear com armas enviadas pelo Ocidente

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, os países da Otan atualizaram o arsenal ucraniano com instrumentos cada vez mais sofisticadas, com mais prometidos, como os avançados sistemas de foguetes de lançamento múltiplo a ser enviados pelos Estados Unidos e Reino Unido.

Dura batalha: Exército de Kiev perde posições, e vidas, contra Rússia no Leste

Assista: Videográfico explica conflito iniciado com invasão russa em fevereiro

Custo: Ucrânia estima em mais de R$ 2,5 trilhões o impacto econômico da guerra

Mas treinar soldados para usar o equipamento se tornou um obstáculo significativo e crescente — e encontrado diariamente pelo sargento júnior Dmytro Pysanka e sua equipe, operando uma antiga arma antitanque camuflada em vegetação rasteira no Sul da Ucrânia.

Espiando pela mira presa à arma, Pysanka vê um caleidoscópio de números e linhas que, se lidos corretamente, devem fornecer os cálculos necessários para disparar contra as forças russas. No entanto, erros são comuns no caos da batalha.

Legado perigoso: Minas explosivas já infestam 300 mil km² e levarão décadas para serem limpas

Mais de um mês atrás, os comandantes na linha de frente de sua unidade de artilharia conseguiram uma ferramenta muito mais avançada: um telêmetro a laser de alta tecnologia fornecido pelo Ocidente para ajudar a acertar o alvo. Mas há um problema: ninguém sabe como usá-lo.

— É como receber um iPhone 13 e só poder fazer ligações — disse Pysanka, claramente exasperado.

O telêmetro, chamado JIM LR, provavelmente faz parte da parcela de equipamentos fornecidos pelos EUA, disse Pysanka.

Pode parecer uma escolha perfeita para ajudar a fazer melhor uso do canhão antitanque, construído em 1985. Ele pode ver alvos à noite e transmitir sua distância, direção da bússola e coordenadas de GPS. Alguns soldados aprenderam o suficiente para operar a ferramenta, mas depois foram transferidos para outro lugar nos últimos dias, deixando a unidade com um peso morto.

Representante de grupo antiminas: Foco na guerra da Ucrânia ainda é militar, e não humanitário

— Tenho tentado aprender a usá-lo lendo o manual em inglês e usando o Google Tradutor para entendê-lo — disse Pysanka.

Na segunda-feira, o Reino Unido prometeu enviar lançadores móveis de múltiplos foguetes à Ucrânia, melhorando o alcance e a precisão da artilharia ucraniana, dias depois que o presidente Joe Biden se comprometeu a enviar armas semelhantes.

Conheça o sistema de foguetes que os EUA enviarão à Ucrânia: Rússia aponta risco de 'terceiro país' no conflito

Zelensky: Quase 20% do território da Ucrânia está sob controle russo

As novas armas mais avançadas da Ucrânia estão concentradas na região Leste do Donbass, onde os combates mais ferozes acontecem enquanto as forças do presidente russo, Vladimir Putin — se aproximando do Leste, Norte e Sul —, tentam esmagar parte do território ucraniano. Na ponta ao leste desse território, os dois lados travaram uma batalha acirrada pela cidade devastada e praticamente abandonada de Sievierodonetsk.

No fim de semana, as tropas ucranianas recuperaram parte do terreno na cidade, segundo analistas ocidentais e autoridades ucranianas. Mas, na segunda-feira, os ucranianos foram forçados a recuar novamente quando os militares russos aumentaram seu já intenso ataque de artilharia, de acordo com Serhiy Haidai, administrador da Ucrânia para a região.

Guerra na Ucrânia completa cem dias sem fim à vista: O que pode encerrar o conflito?

Um dia depois de uma visita arriscada às tropas em Lysychansk, perto de Sievierodonetsk, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky fez uma avaliação contundente do desafio aos jornalistas:

— Há mais deles. Eles são mais poderosos. Mas temos todas as chances de lutar nessa direção.

Os líderes ucranianos frequentemente pedem armas e equipamentos ocidentais de ponta, depositando suas esperanças de vitória em pedidos de novos mísseis guiados antitanque, obuses e foguetes guiados por satélite.

Mas, além da necessidade das ferramentas de guerra, as tropas ucranianas precisam saber como usá-las. Sem treinamento adequado, o mesmo dilema enfrentado pela unidade de Pysanka e seu único telêmetro será difundido em uma escala muito maior. Analistas dizem que isso poderia ecoar a abordagem fracassada dos EUA de fornecer aos militares afegãos equipamentos que não poderiam ser mantidos sem grande apoio logístico.

— Os ucranianos estão ansiosos para utilizar equipamentos ocidentais, mas é preciso treinamento para mantê-los — disse Michael Kofman, diretor de estudos russos do CNA, um instituto de pesquisa em Arlington, Virgínia. — Algumas coisas não são fáceis de apressar.

Kiev: Estamos na fase mais ativa da agressão da Rússia e batalhas no Leste definirão destino da Ucrânia

Os EUA e outros países da Otan deram treinamento extensivo aos militares ucranianos nos anos anteriores à guerra, embora não para algumas das armas avançadas que enviam agora. De 2015 até o início deste ano, dizem oficiais militares dos EUA, instrutores americanos treinaram mais de 27 mil soldados ucranianos no Centro de Treinamento de Combate Yavoriv, perto de Lviv. Havia mais de 150 conselheiros militares dos EUA na Ucrânia quando a Rússia invadiu em fevereiro, mas eles foram retirados.

Desde o início da guerra, os EUA prometeram cerca de US$ 54 bilhões em ajuda à Ucrânia e forneceram um monte de armas e equipamentos, mais recentemente vários lançadores de foguetes móveis HIMARS avançados, um movimento recebido com rápida condenação do Kremlin.

Mas, para evitar um confronto mais direto com a Rússia, o governo Biden até agora se recusou a enviar conselheiros militares de volta à Ucrânia para ajudar a treinar as forças ucranianas a usar novos sistemas de armas e, em vez disso, confiou em programas de treinamento fora do país.

Isso colocou uma enorme pressão sobre soldados ucranianos, como o sargento Andriy Mykyta, um membro da guarda de fronteira que, antes da guerra, recebeu um breve treinamento de conselheiros da Otan sobre as armas antitanque britânicas avançadas, conhecidas como NLAWs.

Agora ele corre em torno das posições da linha de frente tentando educar seus companheiros sobre como usá-las. Em muitos casos, disse, os soldados ucranianos aprenderam a usar algumas armas, incluindo NLAWs, por conta própria, usando vídeos e prática online.

— Mas há tipos de armas que você não pode aprender com a intuição: mísseis terra-ar, artilharia e alguns equipamentos — disse Mykyta. — Então, precisamos de cursos formais.

As necessidades da Ucrânia são palpáveis na região onde a unidade de Pysanka está localizada, a Nordeste da cidade de Kherson, ocupada pelos russos. A área foi o local de uma breve ofensiva ucraniana na semana passada que desacelerou assim que os russos em retirada destruíram uma ponte importante: a falta de artilharia de longo alcance dos ucranianos resultou em eles serem incapazes de tentar uma difícil travessia do rio para uma perseguição, disseram oficiais militares ucranianos.

Vladimir Putin: Como o presidente da Rússia se transformou de estadista em tirano em 22 anos

Para a equipe de armas de Pysanka, o único instrutor disponível para o telêmetro a laser é um soldado que ficou para trás da última unidade e teve tempo de traduzir a maior parte do manual de instruções de 104 páginas. Mas ainda é tentativa e erro, enquanto descobrem qual combinação de botões faz o quê ao procurar soluções para resolver a falta de um tripé e monitor de vídeo (ambos anunciados no manual de instruções).

Por enquanto, Pysanka está concentrado em aprender o telêmetro. Na parte da guerra que lhe cabe, as armas e equipamentos fornecidos pelo Ocidente estão limitados a um pequeno número de foguetes antitanque e kits de primeiros-socorros.

— Não podemos ostentar o mesmo tipo de recursos que existem no Leste —, disse o major Roman Kovalyov, vice-comandante da unidade que supervisiona a posição de armas de Pysanka. — O que a Ucrânia ganha, só podemos ver na TV. Mas acreditamos que mais cedo ou mais tarde isso vai aparecer por aqui.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos