Sem Trump, Brasil desponta agora como pária sem par do Planeta

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Outgoing US President Donald Trump addresses guests at Joint Base Andrews in Maryland on January 20, 2021. - President Trump and the First Lady travel to their Mar-a-Lago golf club residence in Palm Beach, Florida, and will not attend the inauguration for President-elect Joe Biden. (Photo by ALEX EDELMAN / AFP) (Photo by ALEX EDELMAN/AFP via Getty Images)
Donald Trump sai de cena. Foto: Alex Edelman/AFP (via Getty Images)

De helicóptero, sem ficar para a posse de seu sucessor, Donald Trump deixou a Casa Branca na manhã do dia 20 de janeiro como uma interrogação digna dos fenômenos ainda não totalmente destrinchados e compreendidos em seu tempo.

Fazia quatro anos que o bilionário excêntrico tomava posse como presidente dos EUA. Quatro anos, portanto, que ninguém consegue explicar de maneira definitiva como ele foi parar ali.

Nos próximos quatro anos, a fuga vergonhosa pelos fundos --sucedida de uma simbólica e imperdoável remissão aos ideólogos que transformaram a fantasia em realidade (e vice-versa), caso do criminoso Steve Bannon, estrategista de sua campanha e polo irradiador do ódio e da conspiração que abriu as comportas para a contaminação radioativa do populismo de direita mundo afora-- poderá ser lembrada como a interrupção de um soluço democrático ou o desfecho de um capítulo inicial que fincou raízes e paira como fantasma. Donald se comporta, mas não é só um menino minado que tenta digerir a frustração por perder no videogame.

Silenciado das redes, as molas propulsoras de sua plataforma, o republicano não pode fazer (ainda) o escarcéu imaginado em suas páginas nem mirou petardos retóricos nas primeiras horas de Joe Biden como o 46º presidente americano --a quem acusa, sem fundamento, de roubar nas urnas para ganhar o jogo.

O cenário, uma capital sitiada e temerosa do que Biden chamou de “terrorismo doméstico” derivado do extremismo, é o retrato mais bem acabado da passagem de Donald Trump pelo poder. Homens como ele, alimentados desde crianças pela autoestima dos meninos ricos, são criados para pensar grande e alçar voos sempre mais altos.

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O helicóptero que o afastou da cadeira presidencial era, em si, um contrassenso de quem prometia fazer a América Grande novamente e entregou um país rebaixado, isolado e encurralado, como as ruas principais da capital. Um país onde 400 mil pessoas perderam a vida diante da condução errática do grande desafio histórico do século: a pandemia do coronavírus.

Da cena final dessa história, ou desse capítulo, fica a ressalva de que Trump não surgiu do nada nem passará os próximos anos sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. Leva consigo 75 milhões de apoiadores que deram a ele seu voto nas urnas e não estão dispostos a dar o braço a torcer ao governo que se inicia, mesmo que este prometa acabar com a guerra “incivil” que hoje divide o país entre vermelhos republicanos e azuis democratas.

Biden assume com desafios concretos. O maior e mais urgente deles é vacinar 30% da população americana nos primeiros 100 dias de governo. Para isso será preciso desobstruir as fileiras da negação que já fazem estragos também por aqui.

A outra briga, não necessariamente divorciada da primeira, é retórica. Biden terá de insistir dia a dia, e não só no dia da posse, que “existe a verdade e existem mentiras. Mentiras contadas para obter poder e lucro”.

Dirá isso diante das lupas de quem esperará, entre ansioso e aflito, um tropeço já na largada. Como equipe que estuda seu adversário, não poderá se desgrudar dos passos e olhares justamente daqueles que Trump acaba de anistiar.

Do mais, as primeiras sinalizações mostram um presidente disposto a virar de ponta cabeça a edificação arquitetada pelo antecessor. Muro na fronteira? Esquece. Nacionalismo x Globalismo? Que tal empossar o maior epidemiologista do país como “embaixador” na Organização Mundial de Saúde, órgão multilateral atacado dia sim, outro também, por Trump? Negacionismo climático? O retorno às bases do Acordo de Paris reforçam o compromisso para frear o aquecimento global --péssima notícia para quem estendia o tapete vermelho no verde amazônico para grileiros e a boiada passarem.

Biden promete ainda realinhar as posições americanas em relação a imigração e colocar em prática os ideiais relacionados à equidade racial e de gênero. Supremacistas e masculinistas que tentaram fazer da invasão ao Capitólio a Queda da Bastilha terão de se desfazer das fantasias e dos cornos. Na marra?

Boicotada por Trump, que tentava sinalizar virilidade ao desfilar de peito aberto e rosto descoberto em público, a obrigatoriedade do uso de máscara e o respeito ao distanciamento social, com órgãos de alertas relacionadas à biodefesa, é outra risca de giz sanitária em relação aos antigos inquilinos da Casa Branca.

A mudança de tom é notória também. Sai a botinada, entre o peteleco. Biden sabe que, bem aplicada, a sutileza pode mover mais peças ou provocar mais estragos do que o berreiro encarnado pelo antecessor.

Na apresentação dos planos gerais, não há resquício de boa notícia ao Brasil --ao menos aos grupos políticos que, agora ajoelhados, fizeram o intensivão de 2016 a 2018 e foram eleitos para “destruir muita coisa antes de começar a construir”. Foi o que disse Jair Bolsonaro no encontro, nos EUA, que uniu as repartições americana e brasileira do chamado “Movimento”.

O coro na conversa furada de fraude nas eleições americanas e a torcida aberta por uma corrida que a inteligência pedia discrição formam um tapume entre Brasília e Washington que nem os idealizadores do muro na fronteiras com o México poderiam visualizar.

É certo que o populismo de direita idealizado por Steve Bannon, mastigado por Olavo de Carvalho e incorporado no embaixador da causa por aqui, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), é ainda a mesma linha-mestra emulada por gabinetes de ódio e extremismo. O flerte com o autoritarismo balizado pela guerra cultural é o princípio ativo em democracias decadentes como a Hungria de Viktor Orbán e a Polônia de Andrzej Duda. Por aqui, começam a datar.

Com Trump fora de cena, o Brasil, país continental que ainda (e por enquanto) integra o time das dez maiores economias do Planeta, passa agora a ser o representante maior de um projeto que há tempos deixou de ser uma ideia. Virou case de sucesso.

Em seus primeiros dois anos de mandato, Bolsonaro não se constrangeu no papel de linha auxiliar, com notas de subserviência explícita, do ídolo Donald Trump, o fortão do fundo da sala a quem se associou e, ao se associar, imaginou que poderia esnobar e distribuir patadas em todo mundo da escola, inclusive professores e direção.

O capitão já não tem a quem correr para se proteger caso os ofendidos de ontem ensaiem uma reação amanhã. Vai ser preciso muita saliva para desdizer o que pensava sobre pólvoras e diplomacia.

Sem o parceiro de aventuras, o Brasil se torna um pária sem par. O isolacionismo provocado pelo misto de arrogância e ignorância misturado com a certeza de que teria em Washington uma guarida preventiva e permanente já provoca mudanças nas placas tectônicas do bolsonarismo.

Aos poucos, quem embarcou na conversa começa a perceber que Bolsonaro e seus asseclas são bons de bravatas e péssimos em serviço. Não conseguem fazer o básico do básico quando o assunto é arregaçar as mangas e trabalhar por alguma coisa no mundo real, longe das especulações em rede. Se acordos comerciais e diplomáticos parecem, aos olhos menos acostumados, abstrações difíceis de visualizar a curto prazo, a incompetência na questão das vacinas, resultado justamente dos destemperos das relações exteriores, é didática dos estragos e atrasos à saúde pública em tempo real. E cria a possibilidade de juntar lé com cré e comparar, com prints e postagens recentes, as diferenças entre expectativas e realidades de quem plantou espinhos para colher flores.

Os EUA deram o caminho para neutralizar ou ao menos suspender o caminho em direção à avacalhação ampla, geral e irrestrita das instituições, hoje em processo de restauração.

Que os arquitetos da contenção saibam observar os passos dos congêneres como os da destruição entenderam os códigos-fontes do populismo de direita encarnado Donald Trump.

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