Sem vagas da UnB há dois anos, Sisu perde a USP e dois estados inteiros

O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) vem sofrendo baixas nos últimos anos. Nesta semana, a USP anunciou a decisão de abandonar o sistema como forma de ingresso de novo alunos, assim como o fez a UnB em 2020. Tocantins e Rondônia já não têm nenhuma vaga no Sisu. Segundo especialistas, a debandada é o reflexo de conflitos entre calendários das universidades e do Ministério da Educação (MEC) e também da constatação de que alunos que ingressaram por tal processo evadiram mais e com maior velocidade.

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Criado há oito anos, o Sisu é a forma com que os alunos que prestaram o Enem concorrem a uma vaga no ensino superior. Para isso, as universidades precisam disponibilizar suas vagas através desse sistema, o que acontece a cada semestre. O objetivo é de que um estudante que prestou o Enem na escola do seu bairro possa concorrer a uma vaga nas melhores universidades do Brasil, uma forma de democratizar o acesso à universidade.

No entanto, um estudo do Ipea, de 2018, aponta que essa mobilidade geográfica (um aluno sair de um estado para estudar em outro) é potencial, mas não necessariamente se concretiza. De acordo com as evidências encontradas pelos pesquisadores, os estudantes dão preferência a instituições próximas de sua origem e que as migrações motivadas pelo Sisu são reduzidas, ainda que a quantidade de migrações interestaduais tenha aumentado após o estabelecimento do novo processo de seleção parcialmente centralizado.

— Só a forma de acesso não garante a mobilidade porque muitas vezes esses alunos não conseguem fazer a migração, uma vez aceitos nessas instituições — afirma Andréa Cabello, professora do Departamento de Economia da UnB.

Mas Andréa aponta vantagens num processo seletivo unificado:

— Um ponto positivo é que alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica precisam fazer uma prova só, pagar uma taxa só.

A economista aponta que a forma de seleção passou a interferir nas taxas de evasão de alunos. Esse foi o motivo alegado pela Universidade de Brasília (UnB) quando abandonou o sistema, por exemplo. Dados de uma pesquisa da economista mostram que metade dos ingressantes pelo Sisu evade do ensino superior. Essa taxa dos alunos que entraram por outros mecanismos é de até 20 pontos percentuais menor.

O maior abandono tem acontecido logo no primeiro período, o que foge do padrão conhecido de evasão, quando ela acontecia entre o segundo e o terceiro ano. A explicação para isso é que, de forma mais corriqueira, a forma de seleção favorece uma decisão menos pensada. Isso por conta do mecanismo que Andréa chama de “escolha estratégica”:

— O que a gente vê no Sisu hoje é um embate entre liberdade individual (do aluno poder trocar a inscrição muitas vezes durante o período de seleção) e um custo coletivo (vagas ociosas pelo abandono de quem escolheu sem ter refletido o bastante) — diz.

Durante o processo de seleção, há um momento em que o estudante pode, todos os dias, acompanhar seu status de aprovado ou não. Caso não esteja, ele tem a possibilidade de mudar sua opção. Esse período dura cerca de cinco dias.

— Como são poucos dias para uma decisão muito importante, ela é tomada, às vezes, sem ser bem pensada. Um menino que gostaria de fazer medicina na UnB pode ser classificado em fisioterapia na federal do Acre. Só depois que ele vai entender que não consegue fazer essa mudança ou não tem o desejo de fazer aquele curso — explica.

Desalinho de Calendários

Outras universidades têm deixado o sistema unificado por um ajuste de calendário. Após a pandemia, alguns ficaram em descompasso com o calendário oficial. Outros, como no caso da USP, por questões específicas. O objetivo da alteração foi possibilitar que o estudante aprovado via Enem pudesse efetuar sua matrícula juntamente com o ingressante pela Fuvest, não dependendo do sistema e do calendário do Sisu. A ideia foi aprovada no Conselho de Graduação da universidade e precisa passar pelo Conselho Universitário, órgão máximo da instituição, para passar a valer.

O desalinho do calendário também é a justificativa de todas as universidades do Tocantins para a saída do Sisu. Já as instituições de Rondônia, a Unir e a IFRO, decidiram fazer um procedimento de seleção próprio. No entendimento da Unir, isso possibilita mais oportunidades para estudantes rondonienses cursarem o ensino superior, sobretudo estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica e vindos de escolas públicas.

Todas as universidades de Tocantins e de Rondôniaguem usando as notas do Enem para a seleção. A saída do Sisu significa apenas a mudança do sistema de seleção dos futuros universitários. Os candidatos desses estados podem se inscrever normalmente no Sisu para concorrerem a vagas de outros estados.

Professora da Faculdade de Educação e líder do Laboratório sobre Acesso e Permanência na Universidade da UFF, Hustana Vargas diz que, além das taxas de conclusão caírem, outro efeito colateral do Sisu é a demora de alguns cursos em formar turmas. Alguns precisam de até oito chamadas.

Esse é o caso do Instituto Federal do Piauí, que deixará o Sisu em 2023 por conta da evasão e da demora na formação de turmas. Segundo o reitor Paulo Borges da Cunha, muitos residem em outros estados e, ao serem aprovados, não efetuavam a matrícula. Desta forma, diversas chamadas eram feitas para as vagas disponíveis, o que podia prejudicar o semestre letivo.

— É preciso ajustar o Sisu, pois não pode acontecer, jamais, de uma vaga gratuita, excelente, que pode mudar a vida de uma pessoa, não ser ocupada. Isso é uma tragédia — analisa Vargas.

Portas de entrada

Segundo ela, o remédio ideal para resolver o problema é o aumento do número de vagas nas universidades para que as pessoas não precisem aceitar qualquer curso apenas para estar no ensino superior, mesmo que cursando algo que não desejem e potencialmente não terminarão. No entanto, André afirma que uma combinação de diferentes portas de entrada já ajuda. Isso porque cada um tem benefícios e problemas diferentes.

— Na UnB, por exemplo, a gente tem um programa de avaliação seriada (o aluno faz uma prova a cada final de ano do ensino médio). Ele só pode ser feito por quem está na escola ainda. Por um lado, ele é horrível, porque restringe essas vagas para alunos que ainda não se formaram como se fosse uma reserva de mercado para um grupo específico. Por outro, ele tem o efeito de favorecer alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica — avalia.